Ela era alguma coisa entre a Lolita do Nabokov e a Anita de Manoel Carlos, com boas pitadas da garota da Sukita. Rosto de criança e sorriso de anjo, com corpo e postura de fêmea. E mesmo com tudo isso, nunca foi chamada por nada terminando em “ ita” ou “inha”. Ela fazia questão de ser chamada pelo seu nome: Isabel. Quando muito, fazia algumas concessões, aceitando um “Bel” dos mais íntimos. “Isa”, nem pensar!
Na época, Isabel deveria ter 16 ou 17 anos, apesar de que muitas vezes parecia ter 12 e, em outras, algo entre 20 e 30. Todo final de semana, estava no clube trajando (muitas vezes ultrajando invejosas) suas tangas de várias cores.
Eu, que com muito esforço, tentava representar uns 25, na realidade já estava na casa dos 30, me sentava numa mesa da lanchonete coberta por um guarda-sol e deixava minha imaginação se perder nos movimentos daquela pequena deusa.
O interessante é que os garotos, na faixa de idade de Isabel, pareciam não perceber toda sensualidade que ela transpirava. Hoje, muitas vezes chego a pensar se toda sensualidade que eu via, na realidade, não fazia parte dos devaneios da minha imaginação! Mas, em seguida, tenho certeza de que não. Isabel era uma fonte de desejos. Desejos contidos e proibidos para um homem “já maduro” como eu.
Nunca permiti (pelo menos acredito que não) que as pessoas percebessem o fascínio que aquela ninfeta exercia sobre mim. Óculos escuros constantes eram cúmplices dos meus olhares mais atrevidos na pratica do meu “voyeurismo”, que eu mesmo acreditava ser pecaminoso.
Num Sábado, à tarde, Isabel surgiu mais “Bel” do que nunca, de mãos dadas com um garotão que representava uns 20 anos. Na beira da piscina ficaram curtindo o sol e um ao outro. Cada beijinho ou carícia do rapaz na minha deusa era como um punhal cravado nas minhas entranhas cafajestes.
Quando ela se deitou na borda da piscina para que ele passasse o bronzeador, não resisti. Levantei-me e fui embora, prometendo nunca mais voltar ao clube. Eu podia suportar o “não ter”, mas incapaz de resistir ao “alguém tendo”.
Muito tempo depois, quando tive coragem de voltar a freqüentar o clube, busquei com os olhos, mas não vi minha deusa. Nos finais de semana seguintes o fato se repetiu e eu nem me atrevi a perguntar por ela. E Isabel, minha ninfeta, acabou ficando num cantinho especial das minhas melhores lembranças.
Recentemente, enquanto almoçava num restaurante, próximo à Av. Paulista em São Paulo, não pude deixar de reparar numa deslumbrante mulher que entrava com passos seguros e procurando, com os olhos, uma mesa vaga. Nossos olhares se encontraram e me pareceu que ela esboçava um sorriso. Com medo que o sorriso fosse para alguém sentado em alguma mesa atrás de mim e para não cometer nenhuma gafe, abaixei os olhos e continuei lutando com o meu filé (pelo menos o garçom havia jurado que era).
Quando levantei os olhos novamente, o “avião” estava “pousado” à minha frente e já estendendo a mão perguntou:
_ Como vai? Não se lembra de mim? Sou a Isabel. Lembra?
O naco de carne desceu meio atravessado e eu, todo atrapalhado, acabei derrubando meu copo de refrigerante, enquanto tentava me levantar e apertar aquela mão bem tratada.
Já refeito, convidei a bela mulher para sentar-se à minha mesa. Enquanto aguardávamos o seu pedido, e durante todo resto do tempo, fiquei sabendo que o pai, gerente de banco, havia sido transferido para outra cidade, que ela tentou me encontrar no clube para se despedir, como tinha feito com todos, mas que não me encontrou e etc.
Casada e descasada, mãe de uma adolescente de 13 anos, trabalhava como secretária bilíngüe numa empresa de importação e exportação situada na Av. Paulista. Perguntou de mim e contei minhas venturas e desventuras, aliás, gastando mais tempo no segundo tópico.
Terminado o almoço, que fiz questão de pagar apesar de todos os seus protestos, saímos. Conversamos mais algum tempo em frente ao restaurante e, depois dos dois beijinhos convencionais, quando já estávamos nos retirando, cada um para o seu lado, ela segurou meu braço e disse:
_ Não me leve a mal, mas eu quero que saiba que você foi a primeira paixão da minha vida. Platônica, mas foi. Mas eu me achava muito criança para demonstrar isso a um homem tão charmoso!
Eu acho que sorri, com cara de idiota, ou na realidade, sorri por ser tão idiota.
Ela seguiu seu caminho e eu fiquei parado olhando suas maravilhosas pernas que combinavam perfeitamente com aqueles sapatos de saltos altos.
Nunca mais vi Isabel, pois nos esquecemos de trocar telefones. Mas, tempos depois, quando assisti “A Presença de Anita”, achei que o personagem de José Mayer estava certíssimo.
Quem dera, eu tivesse tido mais coragem e menos preconceito!

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