terça-feira, 7 de junho de 2011

Do velho, do menino e do “coisa ruim”



           Era como o chão de muita seca a pele do rosto de Januário. Era como se tivessem ficado gravadas as curvas e retas das longas estradas percorridas a sol.
Pior do que a pele de Januário era a pedra que o velho sertanejo trazia no lugar do coração. Uma pedra feita de amarguras, de plantios não colhidos, de rezas não atendidas e principalmente de sonhos desfeitos.
Só o som triste da sanfona no entardecer na caatinga, conseguia mexer com a alma do velho vaqueiro já alquebrado no laço do tempo. Quando o sol se ia, muitas vezes se esquecendo de levar seu calor, o velho sentado ao toco posto à porta, abria e fechava o fole fazendo nascerem melodias nunca repetidas, porque se havia o repente das palavras, Januário era repentista de notas musicais.
Havia até a crença de que o velho, quando jovem, teria feito um pacto com o “coisa ruim” dando sua alma em troca do poder tirar melodias do nada. Nunca alguém teve “bagos” suficientes para perguntar ao velho se era verdade, pois se famosa era sua sanfona, respeitada era a sua peixeira. Quando alguém deixava de ser visto e por ventura tivesse passado pelos lados de Poço Seco, domínios de Januário, era comum acreditar-se que o velho fizera valer sua coragem e mostrado ao “cabra” a porta que levava ao fim.
José era o nome do menino. E como de costume por aqueles lados, todo José virava Zé. Sendo filho de Ranulfo, o menino virou Zé do Ranulfo.
Acontece que Zé do Ranulfo gostava de sanfona. Ao custo de barganhas feitas pelo pai, uma de oito baixos caiu nas mãos do menino. E lá ia ele, sempre que a lida permitia, explorando as possibilidades do marfim e do ébano que compunham o teclado.
Em pouco tempo Zé do Ranulfo repetia com exatidão tudo que ouvia. Mas para quem nasceu sanfoneiro o repetido não basta, é preciso saber tirar notas do nada e juntando-as sonorizar o novo, o nunca feito antes.
Assim seguia Zé do Ranulfo não mais satisfeito com o que podia, e acreditando poder muito mais. Foi quando soube das histórias que os mais velhos contavam sobre o velho Januário. Trocar a alma pelo poder da criação não lhe pareceu um negócio de todo ruim, afinal ele nem sabia direito o que era essa tal de alma. Mas como fazer a barganha?
Se havia uma pessoa que poderia lhe dizer, era o velho Januário. Mas como falar com o velho sanfoneiro sobre trocar a alma sem perder a vida? Zé do Ranulfo ainda haveria de descobrir um meio.
Não demorou que o acaso, se é que ele existe, começasse a quebrar a distância entre o velho e o novo. Uma magra novilha desgarrada se alongou pelos lados de Poço Seco e Zé do Ranulfo foi atrás. Se perguntado fosse, teria motivo bom de sobra para defender sua presença por aquelas bandas.
 Derrubando galhos secos com o facão ganho do pai o menino ia se aproximando da choupana de Januário. Como o sol já mostrava querer buscar abrigo no horizonte, o som da sanfona foi chegando de mansinho, e a cada lance do facão que abria caminho, o som ía ficando mais forte.
Zé do Ranulfo nunca tinha ouvido nada parecido. Era como magia que as notas se entrelaçavam e se confundiam com os baixos quase impossíveis.
O menino se aproximou mais e, de longe, viu a figura de Januário ao toco sentado. Ele olhava o sol que se ia como se dele estivesse se despedindo. A música que nunca se repetia parecia ter a mesma energia da imensa bola de fogo que, ao se deitar pela metade, fazia o horizonte parecer um imenso dromedário.
 Da novilha desgarrada, Zé do Ranulfo nem mais se lembrava, apenas deixava que o som da sanfona entrasse por todos os poros do seu corpo.
De repente, a sanfona parou, e Januário virou o rosto para o local que servia de esconderijo ao Zé do Ranulfo. O menino sentiu todo o corpo tremer e abaixou-se ainda mais. O velho ficou por um tempo, quase eterno para o menino, com o rosto volvido para o seu lado. Quieto permaneceu até que o sanfoneiro deixasse o toco e entrasse porta adentro levando seu mágico instrumento.
Foi no segundo seguinte que Zé do Ranulfo saiu em disparada fazendo o caminho de volta, pensando na desculpa que daria ao pai por não ter encontrado a novilha fugitiva.
Mas melhor assim, porque no dia seguinte teria como castigo, passá-lo inteirinho, se preciso fosse, procurando a mísera rês.
O dia nem bem tinha se feito e Zé do Ranulfo já saia em busca da novilha, o que deixou seu pai satisfeito com o filho por tanto empenho no cumprir da obrigação.
O menino já tinha tudo feito na mente. Acharia a fujona o mais rápido possível, e depois de aprisioná-la iria esperar que o sol se fosse, para ouvir a sanfona do velho Januário novamente.
Não demorou muito e sua obrigação primeira estava cumprida quando nem hora do comer era ainda. O que fazer para esperar o sol ter vontade de se deitar?
Por mais que tentasse evitar, Zé do Ranulfo foi se aproximando da choupana do velho sanfoneiro. Usou de novo o esconderijo do ontem e deixou se sentar num tronco quase podre. Sabia que fome teria, mas não iria se importar, já que a fome maior seria satisfeita assim que Januário se postasse no toco à porta.
Tão perdido em seus pensamentos estava, que nem percebeu a sombra que crescia em sua direção. Quando se atinou, a figura do velho já havia tomado toda a proporção à sua frente. Sentado estava e sentado ficou. Parecia ter-se fundido ao toco.
Ao levantar os olhos, o que primeiro viu foi a peixeira que, transversal era cingida pela guaiaca de Januário. O que pôde pensar foi o porquê do suor frio se o sol estava a pino. E antes que pudesse dizer coisa qualquer, se é que conseguiria, a voz rouca do velho se fez ouvir:
_ Era você ontem?
_ Era eu sim!
_ E o que era que queria?
_ Não era! Ainda é!
_ E o que ainda é?
_ É que eu toco sanfona. Mas não toco como queria! E tocar como queria é o que é!
_ E o que é que é tocar como queria?
_ Tocar o que nunca foi tocado é o que é!
_ Mas o que nunca foi tocado não é, apenas será.
_ Então eu quero fazer o será ser!
O velho olhou o menino com a profundidade que só a experiência é capaz, e viu que ele poderia ser. Alguns passos deu, antes de parar sem se virar e dizer.
_ Volte amanhã quando o sol estiver indo. Traga a ferramenta, se é que tem!
_ Tenho uma de oito baixos só!
_ Serve! Amanhã.
E o velho seguiu pisando o mato seco com suas sandálias de couro cru.
Zé do Ranulfo teve que esperar um longo tempo para que pôr-se de pé fosse possível. Olhou, e viu que Januário já estava quase na entrada de sua velha choupana. Correndo, saiu em direção de casa, quase se esquecendo da novilha que amarrada ainda estava. Ainda bem que se lembrou em tempo.
Só sabia pensar no amanhã. Por que amanhã demora tanto? Por que o hoje não vira ontem agora?
E então o amanhã virou hoje, mas a manhã não se fazia tarde e para Zé do Ranulfo parecia que o sol não se mexia só para mexer com ele.
A eternidade finalmente passou, e o menino, levando a oito baixos nas costas, presa pelas correias, rumou para Poço Seco.
Quando se aproximava, de repente, parou. Estaria pronto para vender a alma? Mas afinal o que seria de sua alma sem o sonho feito? Pensou por uns momentos e concluiu que o “coisa ruim” iria fazer um mau negócio.
Ao se aproximar o “ô de casa” saiu sem pensar, já que de costume sempre fora.
Não demorou a Januário sair da choupana trazendo a sanfona arreada. Sem nada dizer sentou-se ao toco e esperou que o menino também se ajeitasse.
E foi longo o silêncio reinante entre o velho e o menino. Ali estavam os dois, cada um com sua ferramenta a postos, esperando um não sei quê que os dois sabiam que seria.
Ao declinar do sol os dedos de pergaminho começaram a correr sobre as teclas, fazendo a magia.
Zé do Ranulfo só era ouvir e esperar. Mas esperar pelo quê?
Sem perceber, seus pequenos dedos buscaram o teclado da oito baixos e, sem saber como, sua pequena sanfona seguia a trilha da de Januário.
E foram notas sobre notas sem que nenhuma delas ficasse solta ou perdida. Todas entrelaçadas como irmãs siamesas.
Quando o sol deixou de ser, Januário se levantou e entrou na choupana sem dizer palavra.
Zé do Ranulfo ficou ali parado sem saber o que fazer ou dizer. Esperou mais um pouco e gritou lá de fora:
_ Amanhã volto?
A voz rouca do velho apenas disse:
_ Não!
_ Já vendi minha alma?
_ Já!
_ Quando?
_ Quando abristes os olhos ao mundo!
_ Já nasci vendido?
_ É!
_ Então vou para o inferno?
_ Já estás nele!
_ Não tive tenência!
_ O maior de todos os infernos é ter nascido sanfoneiro!
_ Ainda não tive tenência toda!
_ Sanfoneiro de música pronta vive no paraíso. Sanfoneiro de música feita vive no purgatório. Sanfoneiro de música que nunca termina vive no inferno!
_ Por quê?
_ Porque a alma nunca se satisfaz!
Zé do Ranulfo colocou a oito baixos nas costas e foi-se embora ansioso para um novo pôr do sol. Quando ele já estava ao longe Januário voltou à porta dizendo baixinho:
_ Vai menino! Segue tua triste sina de correr atrás da música que nunca termina.

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