quinta-feira, 21 de julho de 2011

A razão emocional



Certo dia, encontrava-se Dona Razão em meio aos seus cálculos mais intrincados, quando ouviu batidas tímidas em sua porta. Pensou e não viu motivos para parar o seu trabalho e atender ao primeiro toque. Fosse quem fosse à porta, se tivesse realmente necessidade de vê-la, bateria novamente.
Não demorou muito para que as batidas se repetissem desta vez um pouco mais fortes.  Dona Razão ponderou que agora sim, tinha um motivo para atender. Levantou-se de sua cadeira exatamente no tempo previsto; 3 segundos e 67 centésimos, e empreendeu os 17 passos que levavam até à porta. Movimentou o braço direito num ângulo de exatos 90 graus. Utilizando não mais do que os ergs de força necessários, torceu a maçaneta ao ponto exato em que a lingueta da fechadura se recolhia na medida exata.
Ao abrir a porta, apenas o suficiente para poder visualizar quem batia, viu um ser confuso que, com olhos ansiosos esperava que esta se abrisse. Dona Razão perguntou:
_ O que queres?
A criatura disse:
_ Eu preciso conversar com Dona Razão. É a senhora?
Dona Razão pensou por alguns segundos se seria razoável identificar-se e acabou acreditando que sim.
_ Sim, meu nome é Razão. E você quem é?
A visitante, demonstrando estar absolutamente fora do seu controle respondeu:
_ Meu nome é Emoção. Eu tenho andado um tanto confusa, aliás, mais confusa do que normalmente sou, e me disseram que viesse procurá-la. Disseram-me que a senhora transita pela lógica perfeita e como eu sou normalmente ilógica, preciso de algumas lições. A senhora poderia me atender?
Dona Razão olhou com certo ar de piedade aquela criatura desorientada e terminou de abrir a porta, dando passagem à Emoção que, muito insegura, entrou na sala.
Apontou uma cadeira para que sua visitante se sentasse e acomodou-se em outra próxima.
Emoção torcia os dedos das mãos e a impressão que passava era que iria cair num choro convulsivo a qualquer momento.
A detentora da racionalidade ficou olhando aquela figura digna de dó, em sua lógica opinião, esperando que ela começasse a falar.
Passaram-se alguns segundos até que Emoção compreendesse que sua interlocutora esperava que ela iniciasse a conversa. Respirou fundo e disse:
_ Dona Razão, ultimamente eu ando tendo umas idéias muito confusas e pensando em mudar toda a minha vida. Acontece que para fazer isso eu teria que também alterar a vida de muita gente. Essa idéia está tomando conta do meu coração e eu não sei o que fazer!
Dona Razão achou graça que alguém pudesse sentir-se desse modo e disparou:
_ Ora, Dona Emoção! É preciso que a senhora entenda que o mundo, a vida, o universo em si é uma coisa muito lógica. Tudo pode ser comprovado matematicamente, estatisticamente, é só uma questão de cálculos para se chegar à conclusão desejada. Faça os cálculos, minha amiga! Algebricamente some os positivos e os negativos para obter o resultado. E em posse desse resultado, siga fielmente o que ele indicar.
A Emoção ouviu tudo aquilo, pensou por alguns segundos e disse:
_ Não me parece tão fácil assim! Eu não consigo ver as coisas com esta frieza matemática. Desculpe se a estou ofendendo! Mas eu acho que a vida é algo maior do que resultado de uma conta.
Dona Razão olhou pasmada para sua visitante. Que absurdo alguém poder supor existir algo mais do que os eternos números na composição do universo!
_ Minha senhora, já vi que nós não vamos nos entender. Falamos idiomas diferentes e nada do que eu disser poderá ajudá-la.
A Emoção não escondeu certo ar de frustração e levantou-se de imediato, dizendo:
_ Perdoe-me por tomar o seu precioso tempo, Dona Razão, mas eu acreditava que juntas pudéssemos encontrar as respostas que procuro. Agora vejo que terei que encontrar o caminho sozinha. Desculpe-me mais uma vez, eu já vou embora.
Dona Razão acompanhou a Emoção à saída e assim que ela se foi, fechou a porta, até com certa rispidez. Enquanto empreendia os exatos 17 passos para voltar ao seu trabalho Dona Razão vinha pensando:
_ Ora onde já se viu! Como pode alguém imaginar que exista alguma resposta além dos números? Que absurdo!
Dona Razão sentou-se em sua eterna cadeira e voltou às somas, calculando mentalmente:
_ Vejamos. Dois e dois são quatro. Quatro? Mas porque não podem ser cinco?!
E a partir desse dia Dona Razão nunca mais foi a mesma.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A vida começa aos quarenta anos


Quantas vezes você já ouviu dizer que a vida começa aos quarenta?
Se for verdade, para que serviram aqueles 14.610 dias que foram vividos até então?
Se a vida deve ser aproveitada a cada segundo, aos quarenta anos, você já terá vivido 1 bilhão e 200 milhões de segundos. Terá sido um desperdício ou valeram como aquecimento antes de entrar, efetivamente, no jogo?
        Alguns, mais radicais, acreditam que a vida começa no exato momento em que o espermatozóide se encontra com o óvulo.
Os adeptos ao aborto são da opinião que a vida se inicia, mesmo, após o terceiro mês de gestação.
Aqueles que acreditam na reencarnação têm certeza de que toda vida começou há milhares de anos e que estamos apenas vivendo mais uma etapa, ou oportunidade para aperfeiçoamento.
Afinal, quando será que a sua vida efetivamente começou?
Para Clarice tudo isso era absolutamente irrelevante, pois ela tinha a plena convicção de que a vida dela tinha começado exatamente no momento em que conhecera o Anselmo. Antes disso, não havia absolutamente nada que valesse a pena ser registrado ou simplesmente lembrado.
Os dois se conheceram na sala de espera do gastroenterologista. Ela tinha ido fazer uma endoscopia e estava morrendo de medo. Anselmo, que já havia feito o mesmo exame anteriormente, gentilmente, fez de tudo para acalmá-la, dizendo que não era tão ruim quanto se costumava pensar.
Quando ela saiu da sala de exame estava um pouco tonta e Anselmo se ofereceu para acompanhá-la até em casa. Trocaram telefones e, dias depois, ele ligou para saber se ela estava bem. Daí para marcarem um encontro foi um pulo e, após mais alguns encontros, pularam para a cama de um motel. E como pularam! Nos seus trinta e quatro anos de existência e quinze de vida sexual, Clarice nunca tinha experimentado tanto prazer. Sua gastrite desaparecera como num passe de mágica.
Como ela morava sozinha, em alguns meses, Anselmo mudou-se para lá, levando seus poucos pertences, pois, desde que saíra de casa aos dezesseis anos, sempre havia morado em repúblicas e pensões.
Há anos, Clarice trabalhava em uma grande companhia de seguros e havia alcançado posto de importância e salário bastante compatível com o cargo e responsabilidades. Nesta grande história de amor apenas uma coisa incomodava Clarice; a diferença de idade entre eles: Anselmo era quase doze anos mais jovem.
Era com Dalva, sua única amiga, que Clarice abria seu coração e deixava claros os seus temores: quanto ela tivesse quarenta anos, Anselmo estaria com apenas vinte e oito. Como seria?
E Dalva dizia:
_Que nada! A vida começa aos quarenta!
Em comum acordo, decidiram que não deveriam ter filhos.
Aproveitando a boa situação financeira de Clarice, Anselmo retomou os estudos, que fora obrigado interromper e, formou-se em Direto.
Assim, quando Clarice chegou aos seus preocupantes quarenta anos de vida, Anselmo já exercia sua profissão e estava indo muito bem.
Nos últimos dois anos, a vida a dois é que não ia tão bem. Clarice tinha constantes cenas de ciúme, onde o alvo de suas suspeitas era sempre uma mulher bem mais jovem e em idade mais compatível com a de Anselmo.
Talvez, por isso, Clarice começou sentir fortes dores no estômago. Sua gastrite voltara incomodar. Precisava fazer uma nova endoscopia para avaliar como as coisas estavam.
Devido a uma importante audiência no Fórum, Anselmo não pode acompanhá-la.
Clarice acreditava que desta vez seria mais fácil, mas quando se viu sozinha na sala de espera, começou entrar em pânico.
Fernando procurou acalmá-la, pois ele já estava fazendo o exame pela terceira vez e garantia que não era tão ruim. Fernando fez o exame antes e, quando saiu deu a maior força dizendo que se ela mantivesse a calma tudo iria dar certo.
Quando Clarice saiu da sala de exames, Fernando, com visível e honesto ar de preocupação, esperava para saber se tudo tinha corrido bem. Clarice sentiu-se grata e como ele estava sem carro ofereceu carona.
No caminho, ficou sabendo que o rapaz estava cursando engenharia eletrônica e já fazia estágio numa importante empresa do ramo, onde deveria permanecer após a formatura no final do ano.
Numa pequena praça, próxima a casa do rapaz, Clarice estacionou o carro e ficaram conversando como se já se conhecessem há muito tempo. Daí para um caso foi um pulo e Clarice deu seus pulos por alguns meses até abrir todo o jogo com Anselmo.
Anselmo tentou vários argumentos para demover a companheira da separação, até mesmo a grande diferença de idade entre ela e Fernando. Clarice, no entanto, garantiu que nunca fora tão feliz; que, apesar de Fernando ter apenas vinte e cinco anos, mostrava uma maturidade muito grande e que, afinal, a vida começa aos quarenta.
Demorou anos para que Anselmo se recuperasse. Anos que foram vividos em plena felicidade por Clarice e Fernando.
Clarice agora está próxima dos 50 anos. Apesar de Fernando nunca ter dado nenhum motivo comprovado, ela, ultimamente, está se sentido bastante insegura.
 Dalva, sempre ao seu lado, tem procurado mostrar que a amiga está vendo coisas onde não existem, mas Clarice tem sentido um pouco de queimação no estômago e talvez precise fazer uma nova endoscopia.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Sequencial


Foi estranho o acordar de Mário. Havia sons diferentes no ar. Para ser absolutamente correto, o ar era diferente e os seus pulmões pareciam ter certa dificuldade em se sentirem plenos na oxigenação. Será que ele estaria acometido de alguma forte gripe ou mesmo de uma pneumonia?
            Apesar do ar pesado, quase denso, Mário levantou-se e, ao se levantar, quase voltou a se deitar, devido ao susto.
            Aquele não era o seu quarto! Aliás, aquele não poderia ser o quarto de ninguém, por mais criativo e excêntrico que esse alguém fosse!
Tentou lembrar-se da noite anterior. Se havia bebido demais, ou fumado, ou cheirado alguma coisa que não deveria, mas nada. Fora uma noite comum como tantas outras. Tinha até se deitado mais cedo do que de costume e ouvido o rádio até conciliar o sono. Como ele poderia ter acordado em lugar tão estranho?
Talvez, ao sair do quarto, se encontrasse com uma bela mulher, extravagante com certeza, mas uma bela mulher, pudesse começar a entender o que estava acontecendo.
Ficou de pé, e ao se aproximar daquilo que parecia ser uma porta, as luzes se acenderam sem que ele tocasse qualquer interruptor. Então Mário pôde ver melhor o quarto. Assemelhava-se a alguma coisa saída de um filme de ficção cientifica. A cama onde estivera deitado parecia flutuar ou estar ligada à própria parede do quarto.
Se ele fosse dar um adjetivo para aquilo tudo, com certeza, só encontraria uma palavra: futurista.
Tudo bem, qualquer um tem o direito de fazer do seu quarto o que quiser, pois gosto não se discute, lamenta-se, mas o que ele estava fazendo ali? E pior, como poderia ter acordado naquele quarto do Flash Gordon, ou algo saído do filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço, se estava certo de ter adormecido no seu?
Em cima de uma plataforma que poderia ser vidro, ou plástico, ou sabe-se lá o quê, havia uma televisão de tela grande e, acoplado a ela, alguma coisa com a aparência de teclado de máquina de escrever e vários equipamentos que Mário nunca tinha visto iguais ou parecidos.
_ Preciso saber o que está acontecendo! – Pensou. E tentou achar o trinco da porta. Quando sua mão se aproximou, (enquanto as lâmpadas se acendiam também) automaticamente esta começou a subir com um leve zumbindo e desapareceu no teto.
Imediatamente ao quarto, o rapaz se deparou com algo que lembrava uma sala de estar. O que se dispunha aos seus olhos ele nem ousou tentar descrever, pois não teria parâmetros para fazer comparações.
Tudo imergia numa meia-luz azulada. Ao acostumar a retina percebeu uma pessoa sentada em uma poltrona que também parecia flutuar. Forçou um pouco a visão e constatou tratar-se de um homem bastante idoso que olhava para ele com um sorriso enigmático.
Apesar de estar vivendo uma situação absolutamente absurda, o que deixou Mário surpreso foi o fato de não se sentir assustado diante de algo tão misterioso.
Quando os seus olhos já quase se acostumavam totalmente com a penumbra, pôde então notar que a fisionomia lhe era conhecida. Estaria entrando em contato com algum espírito? Aquele homem parecia seu pai, mas ele ainda estava vivo e não tinha tanta idade assim!
O velho parecia amigável. Olhou suas roupas e estas contrastavam com todo o ambiente, pois não passavam de calças jeans e camisa xadrez. Os tênis, especialmente, chamaram a sua atenção. Como alguém poderia usar uma coisa tão extravagante quanto aquela, principalmente, uma pessoa de idade tão avançada? Assemelhavam-se a sapatos de astronauta. Horrível! Nos dois pés, um nome gravado: Nike. Imaginou que aquele poderia ser o nome do homem, afinal quem tem coragem de usar uma coisa daquela também é capaz de gravar o próprio nome nos tênis.
Nike, ou qual fosse o seu nome, apontou uma cadeira semelhante à sua, num claro convite para que Mário se sentasse. Obedeceu com movimentos bem lentos, pois ainda se sentia bastante confuso, embora estranhamente à vontade. Assim que se sentou ouviu a voz do velho:
_ Sabe quem sou eu?
_ Não faço a menor idéia, aliás, nem sei como vim parar aqui!
O sorriso enigmático ficou ainda mais acentuado:
_ Você não veio parar aqui, você está aqui!
O jovem jamais fora chegado a charadas, nem ao menos palavras cruzadas, e não seria agora, num momento tão confuso como o que estava vivendo, que iria quebrar a cabeça para adivinhar o que aquele velho maluco estava querendo dizer.
_ Olha aqui, meu senhor, não me venha com jogos de adivinhação porque eu sou péssimo nesse tipo de coisa e...
_ Eu sei! Sempre fomos péssimos nisso! – Ele falou, interrompendo.
_ Fomos? Eu conheço o senhor? Apesar de sua fisionomia ser familiar, acho que não o conheço.
O velho levantou-se com dificuldade, caminhou até ao móvel tão estranho quanto tudo mais e pegou um pequeno objeto. Olhou para Mário e disse:
_ Você me conhece pouco, mas eu conheço você por inteiro. – E apertou um botão, ou alguma coisa, naquele estranho objeto. A porta do móvel abriu-se em duas partes, também com um leve zumbido, e surgiu uma enorme tela retangular. Mário deduziu que poderia ser uma espécie de televisão, mas totalmente diferente de tudo que vira até então. Apertou outro botão, e na enorme tela começaram a aparecer imagens bem conhecidas; uma série de fotografias de Mário. Quando bebê, quando criança, na festa de seus sete anos, num baile de Carnaval, enfim, algumas fotos que já julgava completamente perdidas. E a surpresa foi ficando cada vez maior. Seria aquele homem um tipo de agente secreto? E se fosse, o que poderia querer com ele? Ele, apenas um rapaz de vinte anos que estava lutando feito um louco para tentar ingressar numa faculdade pública, mas que queria mesmo apenas tocar sua guitarra e ouvir Beatles e Rolling Stones?
As imagens continuaram na grande tela. De repente, começaram a aparecer algumas fotos suas, ao lado de garotas e pessoas que não conhecia, as quais estava certo de nunca terem sido tiradas. No momento seguinte as imagens ganharam movimentos e ele aparecia tocando em palcos e com pessoas que jamais vira. A cada seqüência de imagens percebia que estava ficando mais velho! O que seria aquilo? Algum tipo de mágica?
            O velho desligou o aparelho. E foi bom porque o jovem já começava a se sentir completamente maluco!
Colocou as duas mãos na cabeça e pressionou, talvez para que isso o ajudasse a raciocinar melhor. Foi quando o homem disse:
_ Calma! Não se esforce tanto porque não vai conseguir entender nada. Deixe que eu explique.
Quando Mário levantou a cabeça ele estava à sua frente oferecendo-lhe um copo com alguma coisa que parecia ser água. Bebeu percebendo um gosto bastante estranho, mas com certeza tratava-se de água.
Enquanto bebia, o velho voltou a ocupar sua poltrona flutuante e disse num repente:
_ Eu sou você sessenta e sete anos mais velho!
Quase que Mário se engasgou com o último gole daquela água com paladar diferente.
_ O homem é louco! – Pensou.
Ele sorriu novamente e disse:
_ Não, não sou louco!
_ E pelo jeito lê pensamentos! – Tornou a pensar.
_ Também não leio pensamentos, mas com certeza adoraria ter esse poder! – Deu uma pausa – Agora, procure respirar bem fundo e se acalmar para que eu possa explicar tudo.
Achou o seu conselho interessante e procurou encher os pulmões com o máximo de oxigênio possível. Aliás, oxigênio era uma coisa que não parecia existir em abundância dentro daquele ambiente.
_ A diferença que você está sentindo na sua respiração não é do ambiente. É de todo o planeta, mas você vai entender tudo, inclusive o gosto estranho da água. – ao dizer isso ele também empunhava uma taça e bebia o líquido bem devagar, como se fosse o mais precioso vinho.
Quando sentiu seus nervos mais sob controle, Mário falou:
_ Bom, desembucha! Eu quero saber o que está acontecendo! Por que ontem adormeci no meu quarto e hoje acordei nesse que mais parece uma nave espacial?
Com movimentos lentos, o homem pousou a taça sobre uma pequena mesa de vidro, ou sabe-se lá o quê, que também flutuava, e disse:
_ Você viajou no tempo!
Enquanto Mário tentava segurar seu queixo para que a boca não se abrisse demais, o velho continuou:
_ Hoje é dia 11 de janeiro de 2.034. Você está na cidade de Ribeirão Preto, que já conhece muito bem e onde deverá estar de volta pouco antes de completar vinte anos. – Esperou um pouco, como que dando tempo para que o jovem assimilasse, e continuou.
_ Conforme já havia dito, eu sou você aos oitenta e sete anos de idade, aliás, completados hoje!
Tentando entender tudo aquilo, Mário lembrou-se que era verdade, ele completaria vinte anos naquele dia, pelo menos se tivesse acordado no seu quarto. Já começava a ficar nervoso com tudo aquilo e seu tom de voz se alterou:
_ Mas afinal, por que tudo isso?
_ É o meu presente de aniversário para nós dois.
_ Tudo bem, nós estamos fazendo aniversário no mesmo dia e mês, mas por que você me envolveu nessa situação maluca?
O velho desta vez não apenas sorriu, mas riu:
_ Você ainda não percebeu que eu não envolvi você! Nós dois estamos envolvidos, pois somos a mesma pessoa!
_ Mas isso é impossível! – Levantou-se, numa explosão de perplexidade –
 _ Isso é totalmente impossível!
_ Sente-se! – Disse ele.
_ Demorou muito em aprendermos que em pé ou sentado as emoções não mudam. Sente-se!
Muito a contragosto Mário obedeceu, talvez por achar que ele tinha razão.
_ Ao invés de ficar explodindo e querendo entender como aconteceu, aproveite o momento! Quantas pessoas no mundo já tiveram a oportunidade de se encontrar consigo mesmas décadas antes de ser? – O seu tom de voz também havia se alterado um pouco.
_ Tá legal! Tá legal! Barra limpa! Vamos supor que tudo que você está dizendo seja verdade! Eu vou entrar na jogada! O que você, ou eu, ou nós, sei lá, faz da vida?
_ Hoje muito pouco! Mas fomos músicos nossa vida inteira. – Uma pequena pausa para continuar.
            _ Você quer saber se nos formamos na faculdade de Matemática? – Mais uma pausa.
_ Sim e depois fizemos outra: Administração de Empresas. Mas, na verdade, nunca exercemos nenhuma dessas profissões. A música não deixou!
Enquanto o velho homem falava, começou a notar que muitos dos gestos daquela figura eram bastante semelhantes aos seus. O tom de voz, apesar de marcada pelo tempo, lembrava muito a dele, ou uma mistura com a de seu pai. Estranhamente Mário começava a sentir-se mais tranqüilo. Decidiu aproveitar tudo aquilo, fosse ou não verdade, fosse ou não loucura!
_ Por que sinto certa dificuldade para respirar?
_ Porque existe uma quantidade muito grande de monóxido de carbono no ar, uma quantidade bem maior da que havia em 1967. E como você deu um pulo no tempo, o seu organismo não teve a oportunidade de se adaptar.
Razoável a resposta, aliás, essa coisa de se jogar fumaça demais na atmosfera sempre havia preocupado o rapaz.
_ E aquilo que você me deu para beber, era água, não era?
_ Sim!
_ E por que tinha um gosto estranho?
_ Porque a água é uma das coisas mais preciosas que temos nos dias de hoje. A maior quantidade da que bebemos é reciclada. – Ele não pode deixar de expressar um ar maroto ao dizer.
_ A água que você bebeu foi reciclada do esgoto!
O estômago de Mário se retorceu e teve que segurar para não por tudo pra fora. Ecoou no recinto uma gargalhada sonora:
            _ Fique tranquilo! Só o gosto é diferente, mas ela é totalmente saudável!
Mário não conseguiu se conter e disse quase com revolta:
_ Cacete, que merda vocês fizeram com o mundo?
Também o velho homem se exalta:
_ O que “vocês” fizeram com o mundo? Você deveria perguntar o que “nós” fizemos com o mundo com toda poluição que produzimos!
A palavra era nova para o rapaz, mas já havia lido um pouco sobre ela:
_ Poluição! Isso é coisa dos hippies que dizem ter criado uma nova ciência: a ecologia!
_ Pois se tivéssemos dado ouvidos a eles naquela época, hoje não estaríamos provando dessa água e nem sentindo dificuldade para respirar!
Mário não tinha argumentos, ao menos no momento, e então resolveu se calar. O velho também preferiu dar tempo para que os ânimos se acalmassem.
Depois de cerca de um minuto de silêncio o jovem perguntou:
_ E como foi a nossa vida?
Agora sorria mais amigavelmente.
_ Nossa vida tem sido boa! Não conseguimos tudo que sonhamos, mas também tivemos momentos maravilhosos.
_ Eu me casei?
_ Sim! Duas vezes!
_ Duas? – Mário estava realmente surpreso, pois nunca tinha passado pela sua cabeça a hipótese de casar nem ao menos uma.
_ Com quem me casei?
_ Você ainda não conhece nenhuma das duas. E vai demorar um pouco para conhecer. Nós nos casamos com trinta anos de idade!
Já que ele fazia tanta questão de usar o pronome no plural, Mário resolveu também aderir:
_ E nós tivemos filhos?
_ Sim. Um casal do primeiro casamento e dois filhos no segundo. Foram crianças maravilhosas e hoje são adultos fantásticos! – Havia muito orgulho em seus olhos.
_ Onde estão?
_ Por aí! Seguindo suas vidas como tem que ser.
_ Nós os vemos sempre? – Perguntou com toda a sinceridade.
_ Sim, mas não da forma a que você se refere. A vida hoje é bem diferente da que conhecemos em 1967. Mas nos falamos sempre por um aparelho que, pra você entender, é uma espécie de telefone com imagem.
Mário deu um pouco mais de tempo para que sua mente conseguisse assimilar tudo aquilo e perguntou.
_ Nós somos felizes?
_ Nem infelizes! Somos o que somos. Colhemos o que plantamos, mas eu posso dizer que não temos do que nos queixar, não!
_ Eu gostaria de dar uma volta por aí! – Pediu.
_ Não é possível! Não podemos sair desta casa.
Resolveu não discutir esta imposição, pois, se tudo aquilo que tinha visto ali dentro já o havia deixando meio “goiaba”, imaginou que lá fora poderia se tornar bem pior.
_ Mas afinal, supondo que tudo que está me dizendo seja verdade, por que você quis que esse encontro acontecesse? – Mário estava bastante curioso.
_ Talvez para matar a saudade do tempo em que acreditamos nos sonhos. Para ser bem honesto, acho que não tenho um motivo específico – Disse ele.
Houve mais um breve silêncio e foi o rapaz quem o quebrou:
_ Talvez porque você queira que eu faça algo que não fiz, ou deixe de fazer alguma coisa que acabou bagunçando nossa vida?
O velho homem sorriu abertamente.
_ Não, mesmo que quiséssemos isso não seria possível. E se fosse, eu não iria querer, pois o que somos foi o resultado de tudo aquilo que fizemos. Entenda uma coisa: somos um fato seqüencial. Um somatório de ações e reações.
Mário não achou o argumento muito convincente, afinal teriam a chance de não cometer vários erros. E mais uma vez pareceu que seus pensamentos eram lidos.
_ Os erros que cometemos foram importantes para o nosso aprendizado. Sem eles seríamos pessoas diferentes e eu não gostaria de ser diferente do que somos hoje.
O rapaz achou aquilo uma demonstração de grande egoísmo da parte dele e argumentou:
_ Você pode estar satisfeito, mas como pode saber o que eu gostaria que fôssemos quando chegássemos aos oitenta e sete anos?
A gargalhada dele foi sonora.
_ Eu sei, porque você está se esquecendo que eu sou você.
A cabeça do jovem parecia ter sido jogada dentro de uma máquina de lavar que girava alucinadamente. O novo silêncio foi quebrado pelo homem:
_ E se você tiver mais alguma coisa para perguntar, faça logo porque nosso tempo está acabando.
_ Como assim? – Mário estava começando gostar de tudo aquilo.
_ Esta situação dura no máximo trinta minutos para depois deixar de ser.
_ E eu vou voltar para 1967?
_ Você nunca saiu de lá. – Disse ele.
_ E vou me lembrar disso tudo?
_ Não sei! Pode ser que sim, mas ninguém pode garantir.
_ E você vai se lembrar?
_ Eu sim, porque o que está acontecendo é no meu momento e não no seu.
_ Eu tenho uma última pergunta...
_ Então faça logo porque o tempo está se esgotando.
Mário começava a sentir a cabeça girar e teve que fazer um esforço para perguntar:
_ O seu mundo vive em paz...
Ele abriu a boca para responder, mas o jovem não conseguia ouvir nenhum som. Tentou ler seus lábios, mas sua imagem começava a desaparecer...
_ Parabéns a você! Nessa data querida... acorde preguiçoso. Feliz aniversário – Era a voz do irmão mais novo de Mário.
Acordou sobressaltado com a nítida impressão de ter tido um sonho importante, mas não conseguia lembrar-se de nada. No entanto, sem saber por que, naquela manhã acordou mais confiante e com menos preocupação em relação ao vestibular que dentro de alguns dias teria que prestar.

sábado, 2 de julho de 2011

Cronologia biológica



Menina-moça, filha primeira de amigo de infância que há muito não via, era mais sobrinha do que uma possível amante. Então por que o coração batia forte e o desejo era tão grande?
Pedro quis fazer-se pedra, mas o fogo era tanto que fundia elementos transformando as idéias em amálgamas incandescentes. Só restavam o segredo e os cuidados para não se trair nos gestos e palavras. Era preciso medir com exatidão a distância da aproximação e as demonstrações de carinho. Em cada abraço, nos pequenos beijos ou toques era preciso aparentar a mesma inocência que dela parecia vir. Foram meses de suplício e suores imputados aos dias nem tão calorentos assim.
Com bravura, Pedro vencia as tentações que a luxúria teimava. Cada vez que ficavam a sós, para ele era o mesmo deserto onde o mal tentou as resistências da maior expressão do bem. Cada momento desses parecia durar quarenta dias e quarenta noites. E o seu jejum não era de comida e nem de água. Era de amor e prazer.
Mas há o tempo! Ah o tempo!
O tempo faz com que a vigilância esmoreça deixando transparecer os mistérios das coisas ocultas. Nada fica nas sombras para sempre ao poder inexorável do tempo.
Talvez tê-la visto acompanhada do primeiro namorado tenha sido a adaga mais forte que lhe rompeu a armadura. Pensando bem, foi ao vê-la aos primeiros beijos que a muralha começou a ruir. Pedro tentou ser um menino herói holandês e colocar um dedo na rachadura, mas, infelizmente, de menino nada mais tinha e de herói nunca tivera. E o dique crescia perigosamente parecendo que se romperia à próxima gota d’água.
A única solução seria afastar-se. À distância parece que os sofrimentos se amenizam ou as forças crescem.
No entanto, afastar-se também significa estar longe, ou não tão perto quanto o desejado. Mas o perto desejado seria perto demais.
Não demorou em virem as cobranças do afastamento. Do amigo a sinceridade do sentir a falta, e dela os beicinhos mimados de quem sentia a distância do tio.
Tio era o que mais doía. Ser tio do ser desejado só poderia ser uma travessura do tempo! Uma maldade cronológica, biologicamente inaceitável.
O chamado constante para o retorno ao convívio mais próximo foi mais forte do que as paliçadas morais erguidas a contragosto. A volta foi como uma festa para todos, menos para Pedro que sentia cada vez mais fracas as resistências impostas.
O domingo se fazia tarde, quase noite, e a churrasqueira à beira da piscina já transformara as brasas em cinzas. Dentro da água só Melissa num biquíni que do branco ressaltava ainda mais as formas douradas e perfeitas.
Pedro, deitado em uma cadeira, fingia dormir, enquanto os outros já tinham sido vencidos pelos excessos do comer e do beber e haviam se retirado.
Com os olhos semicerrados ele via a menina-moça-mulher-desejo dar braçadas, sair pelas bordas e voltar a se jogar para novas braçadas.
Como suportar tamanho martírio? Cada vez que ela saía da água parecia que seu biquíni ficava ainda menor.
Se antes para Pedro era difícil esconder os sentimentos agora ficava impossível disfarçar o desejo, pois parte de sua anatomia nada sabia de compromissos morais. A toalha jogada sobre o colo tentava disfarçar, sem muito sucesso.
O coração de Pedro quase parou quando percebeu que ela se aproximava. Ainda fingindo dormir, fechou um pouco mais os olhos para que estes não o traíssem. Pôde sentir sua presença e foi inevitável o susto quando ela, ao seu lado, espremeu os cabelos molhados para que a água fria caísse sobre o seu peito nu. O susto levou à reação do pulo na cadeira e, sem perceber, estava de pé ao lado da ninfa, deixando a toalha cair ao chão.
Os olhos dela foram certeiros. Em fração de segundos seus olhos passaram da surpresa para a satisfação de toda mulher quando se sente desejada.
Pedro, sem ação, percebeu tudo isso enquanto com uma risada marota ela correu de volta para a água.
O homem ficou ali parado, apenas olhando.
De dentro d’água ela fazia sinais para que ele também entrasse. Parecia querer demonstrar certa cumplicidade, mas isso para Pedro não passava de sua imaginação alimentada pelo desejo. Quis fugir e buscou nos labirintos da mente as rotas de fugas até então utilizadas. Nenhuma delas lhe parecia possível.
Entre a exposição e a proximidade, preferiu a segunda e jogou-se na água.
Quando voltou à tona Melissa já estava próxima e por de trás forçou seus ombros com as duas mãos na tentativa de novamente afundá-lo. Foi inevitável, como inevitável é o inevitável; o corpo da moça-mulher-desejo roçou o seu, multiplicando os já confusos sentimentos e as reações hormonais. Foi a vez do troco, e ele, de novo à tona, agarrou-a pela cintura na intenção de jogá-la novamente na água. Melissa virou-se, mas ainda mantendo a cintura presa nas duas mãos fortes de Pedro. Ficaram frente a frente e os olhos se cruzaram. Os lábios da mulher-desejo estavam próximos demais e, como imã e ferro, as bocas se atraíram num beijo maravilhosamente pecaminoso, pois havia o paradoxo da permissão do proibido. E como paradoxais são os sentimentos, foi o mais longo curto beijo que macho e fêmea já trocaram.
Pedro soltou Melissa que parecia confusa. Buscou a fuga, e ao sair da piscina olhou para ela que agora, aos seus olhos, era só desejo. Enquanto saia sem se despedir, pensava em como fazer o caminho de volta à sua fortaleza. E para quê, se todas as torres haviam sido derrubadas? Quais as garantias de segurança?
O melhor a fazer era deixar de ser presente torcendo para que o futuro transformasse o hoje em passado.
            Mas mesmo assim, só de longe, de muito longe Pedro acompanhava a moça se fazer mulher. Muitas vezes oculto atrás de pilastras olhava a mulher-desejo-amor se compondo em formas cada vez mais exuberantes.
O amigo ficou sem nada entender e depois de desculpas tantas preferiu respeitar o afastamento.
Foi de longe que Pedro viu os pequenos namoros e soube do namoro-noivado. Temia quando viesse a saber do noivado-casamento. E o golpe final veio muito mais rápido do que supunha ou teimava em não supor.
O convite veio, talvez mais por obrigação social do que pela amizade já perdida no tempo. Antes não tivesse vindo. Um pequeno cartão branco dentro de um envelope, tinha a força do mais forte veneno. Não o veneno que corrói o corpo, mas aquele que corrói a alma em suas profundezas. Só restava aceitar e deixar na eterna lembrança um beijo que nunca foi conversado ou comentado. Um beijo segredo que para ela parecia nunca ter acontecido, mas que queimou os lábios de Pedro em todos os dias de sua vida.
A campainha da porta fez com que ele saísse do torpor sonolento daquela tarde de domingo. Pensou em não atender, mas o som se fez novamente e desta vez por um tempo um pouco maior.
Levantando-se da cama passou as mãos pelos cabelos em desalinho e abriu a porta. Foi como abrir a porta do horizonte deixando que o sol nascesse, não aos poucos, mas ao todo. Ali, na sua frente, mais linda do que em seus mais maravilhosos sonhos, estava ela: a mulher-desejo-amor.
Palavras não existiam em sua mente e forças pareciam sumir de seus músculos. Talvez por já ter previsto tal reação da parte dele, ela não esperou convite e entrou roçando seu corpo no de Pedro.
Quando ele fechou a porta e se aproximou, ela o abraçou buscando seus lábios no mais curto longo beijo que macho e fêmea já trocaram.
Sem dizer mais nada, ela saiu, ou esvaeceu como se nunca tivesse ali estado.
Antes de fechar a porta Pedro ficou olhando desaparecer na esquina não a menina, nem a menina-moça ou a menina-moça-mulher-desejo, o que Pedro viu, foi o amor dobrar a esquina. E então compreendeu que o amor não respeita travessuras do tempo e nem cronologias biológicas; o amor é e por si só se basta. Mas agora já era tarde demais. Ou não?

terça-feira, 28 de junho de 2011

Crime hediondo



01 de Agosto de 2016.
Um homem, apavorado, salta um muro correndo em desabalada carreira. Atrás dele, de armas nas mãos, dois policiais demonstrando não estar dispostos a deixar o marginal fugir. Durante todo o tempo eles mantêm comunicação com a central através de seus transmissores portáteis.
O homem consegue chegar a uma grande avenida e continua correndo em direção ao centro da cidade. Passa por uma praça, onde dois adolescentes espancam um idoso. Sente uma grande revolta, mas não pode parar para ajudá-lo tendo os dois policiais em seu encalço. Os dois policiais também vêem a cena, mas continuam correndo atrás do perseguido, pois o crime cometido por ele é muito mais grave.
Num dos extremos da praça, o homem vê um grupo tentando arrombar um caixa eletrônico e não pode deixar de pensar nas vezes que tentou sacar seu dinheiro e o cartão magnético não funcionou ou o caixa estava sem dinheiro. Os dois policiais também percebem a movimentação do bando. Um deles comunica-se com a central informando sobre o assalto, mas os dois não param, pois têm como ponto de honra conseguir capturar aquele homem que tanto mal fazia à sociedade.
O homem já começa sentir suas pernas doerem e percebe que não vai conseguir continuar mantendo a distância. Entra num prédio, aproveitando-se que um casal havia aberto a porta com seus cartões de identificação. Os dois policiais também entram e, ao entrarem, jogam o casal ao chão, fazendo com que a mulher bata com a cabeça num dos vasos de cimento que decoram o hall.
O homem sobe as escadas e, no terceiro andar, vê uma moça que está sendo estuprada por três homens. Imagina que os policiais vão desistir da perseguição assim que virem aquilo. Ledo engano, os dois homens da lei passam direto e continuam subindo as escadas já que ainda consideram que o crime do homem perseguido é bem maior.
O homem consegue chegar até o teto do edifício, tenta fechar a porta de acesso, mas não tem como. Corre até a beirada do prédio e percebe que já não tem para onde ir.
Os dois policiais chegam ao teto. O homem acuado sua muito e quase não consegue respirar.
Os homens da lei apontam suas armas e se aproximam devagar, muito cautelosos.
O homem chega a pensar em se jogar no vazio e acabar logo com aquilo.
Quando os dois policiais sentem que estão estrategicamente posicionados, um deles dá a ordem de prisão:
_Você está preso, sem direito à fiança, por ter fumado um cigarro em público!

O Contínuo


Assim que Jairo conseguiu o emprego como contínuo daquele grande banco, realizou o seu maior sonho: casou-se com Cecília.
O salário não era grande coisa, porém, apertando aqui e ali, dava para ir vivendo.
Porém, depois de pouco mais de um ano de casados, Cecília começou a se queixar que não tinha dinheiro pra nada e vivia dizendo que Jairo precisava arrumar um emprego melhor.
O marido argumentava que, com o tempo, poderia ser promovido.
Cecília não se conformava com isso e a partir daí a vida de Jairo virou um inferno.
Logo veio o primeiro filho e as coisas se complicaram ainda mais.
Cecília começou a tratar o marido com desprezo e, nas discussões, passou a chamá-lo de imprestável, o que deixava Jairo muito triste, pois fazia o melhor que podia.
Com a chegada da filha, as coisas foram ficando ainda mais difíceis e o desprezo de Cecília aumentando.
O tempo passou, as crianças cresceram e, talvez por influência da mãe, também menosprezavam o pai.
Para amenizar tudo isso, toda sexta-feira, no final da tarde, Jairo colocava as varas de pescar em sua bicicleta e saia para voltar só no domingo à noite, com alguns lambaris.
Mulher e filhos diziam que ele era tão imprestável que precisava de todo um fim de semana para pegar uns míseros peixinhos.
E assim seguia a vida de Jairo. Trabalho de segunda a sexta e no final de semana saindo com sua bicicleta e varas de pescar para voltar só no domingo.
Foi numa quinta-feira, logo no começo de manhã, que Cecília recebeu um telefonema da secretária da diretoria do banco dizendo que Jairo tinha sofrido um infarto fulminante, mas que ela não precisava se preocupar porque tudo estava sendo providenciado. Pediu que ela se aprontasse porque um motorista passaria em sua casa e levaria toda família para o velório.
Assim que Cecília chegou, ficou abismada com tudo. Caixão de primeira, flores, dezenas de coroas e muita gente.
Alice, a secretaria que havia ligado, veio ao seu encontro e começou a apresentá-la a alguns dos presentes. Um dos apresentados foi o presidente do banco que disse palavras elogiosas sobre Jairo. Cecília pensou o que adiantava tanta coisa agora se o marido havia passado toda sua vida como contínuo?
Quando tudo terminou Cecília, impressionada, perguntou se era normal o banco fazer tudo aquilo para todos os funcionários que faleciam, inclusive para contínuos.
Alice fez um ar de desentendida e disse:
_ Contínuo? O senhor Jairo era vice-presidente do banco! É verdade que ele começou como contínuo, mas já há alguns anos era um dos maiores acionistas da instituição!
Cecília quase desmaiou ao saber disso e quase morreu quando soube que, pouco antes de sofrer o infarto, Jairo havia passado tudo que tinha para uma mulher muito bonita e mais jovem do que ele, chamada Patrícia, com quem, alguns acreditavam que ele tinha um caso, mas que Jairo, com um sorriso maroto, garantia que era apenas sua grande companheira de pescarias nos finais de semana.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O colecionador de sorrisos

Minha avó pediu que eu fosse até à Rua da Lembrança para pegar uma antiga caixinha de música que ela havia mandado restaurar. Não se lembrava corretamente do número, mas disse que se eu perguntasse pela oficina do mestre Ciro qualquer um poderia me informar.
Saí do trabalho mais cedo, depois de um dia terrível, e dirigi-me a passos rápidos à Praça da Memória, pois segundo minha avó, a tal rua nascia exatamente ali. Não foi difícil encontrá-la e comecei a caminhar por entre casarões antigos procurando ler nos letreiros (alguns quase apagados pelo tempo), se conseguia encontrar a tal oficina. Após alguns quarteirões, sem sucesso, resolvi me informar.
Uma velha senhora sentada numa cadeira de balanço posta à porta de uma das casas antigas, fazia tricô, tendo ao lado um cachorro que parecia ser tão velho quanto ela. Ao me aproximar ele rosnou para mostrar que estava pronto a protegê-la caso fosse necessário.
A anciã olhou-me por sobre os óculos enquanto ordenava:
            _ Quieto Fiel!
            _ Boa tarde! – Disse, procurando ser o mais amável possível – A senhora poderia me informar onde fica a oficina do mestre Ciro?
            A mulher continuou me olhando demonstrando certo ar de curiosidade e perguntou:
            _ E o que você quer com o velho Ciro?
            Eu estranhei a pergunta e, ao mesmo tempo, pensei que ela estava sendo um tanto quanto indiscreta, mesmo para uma pessoa tão idosa, mas resolvi explicar.
            _ Eu vim pegar uma caixinha de música antiga que minha avó mandou restaurar!
            A mulher sorriu e tirou os óculos que se equilibravam quase na ponta de seu nariz.
            _ Então você é neto da Eulália?
            _ Sou! – Disse espantado pelo fato da mulher conhecê-la.
            _ E como ela está? – Perguntou a mulher.
            _ Bem, graças a Deus – Respondi – A senhora conhece minha avó há muito tempo?
            _ Há muitos anos! – Disse, enquanto esfregava o polegar da mão direita no dedo médio como que para ilustrar o tempo.
_ Somos amigas desde a infância.
            _ Quem bom – Disse procurando expressar uma satisfação que estava longe de sentir.
            Ela apontou em direção à esquina próxima.
            _ A oficina do velho Ciro é aquela ali. Aquela casa azul com portas brancas. É só bater que ele vai atender.
            Agradeci e, quando já começava me retirar, ela pediu:
            _ Mande um abraço para a Eulália. Diga que foi a Consuelo quem mandou.
            Eu disse que enviaria o seu abraço e segui na direção indicada.
            As grandes portas brancas de madeira estavam fechadas. Dava a impressão que não tinha ninguém no interior da casa, mas, como havia sido instruído pela mulher, bati na porta do meio. Esperei alguns segundos e tornei a bater. Não demorou em que eu ouvisse uma voz abafada.
            _ Já vai! Pra quê tanta pressa? Já vai!
              Mais alguns segundo e ouvi o som de um ferrolho sendo puxado bem devagar. Pela porta entreaberta, o rosto de um homem de barbas e cabelos brancos, com óculos de lentes retangulares, apareceu. Não pude deixar de pensar:
            _ Acho que vim parar na casa do Papai Noel!
            O ar era bastante simpático e quando eu ia dizer por que estava ali, o homem perguntou:
            _ Veio buscar a caixinha de música da Eulália?
            Fiquei um tanto surpreso, mas concordei:
            _ Exatamente! Já está pronta?
            O homem acabou de abrir a porta fazendo sinal para que eu entrasse, enquanto dizia:
            _ Claro, já está pronta. Entre e aguarde um pouco que eu vou pegá-la.
            Entrei e procurei acostumar meus olhos à penumbra, enquanto via o velho homem se dirigir a passos lentos para trás de um grande balcão de madeira. Assim que se pôs do outro lado, acendeu as luzes e, depois de me acostumar com a claridade, pude olhar melhor o local.
            Além do enorme balcão de madeira todas as paredes eram cobertas por altas prateleiras em madeira maciça e repletas dos mais variados objetos.
            O velho tornou a dizer:
            _ Espera um pouquinho enquanto vou à oficina pegar a caixinha de música da Eulália. – E desapareceu ao atravessar uma estreita porta que ficava entre prateleiras.
            Durante o tempo em que aguardava, passei a olhar aquele amontoado de coisas. Vi dois realejos, uma câmera antiga (daquelas usadas pelos fotógrafos lambe-lambe), inúmeras caixas de madeira de todos os formatos. Na prateleira da frente vi uma porção de caixinhas. Todas do mesmo tamanho e formato. Cada uma tinha uma pequena placa de metal gravada.
            Aproximei-me mais e pude ler alguns nomes como: Paulo César, Vera Lúcia, Mariana, Roberto, Péricles...
            Foi nesse momento que o homem retornou trazendo a caixinha de música de minha avó. Ao revê-la meus pensamentos foram arremetidos de imediato à minha infância. Recordei das várias vezes em que eu ficava deitado no chão enquanto ouvia a música que saia dela. Só voltei à realidade ao ouvir a pergunta do homem.
            _ Estava olhando a minha coleção?
            Demorei alguns segundos para entender que ele se referia às caixinhas iguais que eu admirava.
            _ Estava sim. Achei interessante. – Disse.
            _ É a minha coleção de sorrisos – Disse ele, enquanto colocava a caixinha de música de minha avó sobre o balcão.
            _ Coleção de sorrisos? – Perguntei, achando que ele iria fazer alguma piada na sequência.
            Enquanto dava corda na caixinha para demonstrar que estava funcionando de acordo, repetiu:
            _ Isso mesmo, minha coleção de sorrisos. Em cada uma dessas caixas eu guardo o sorriso da pessoa cujo nome está gravado na placa de metal.
            _ O velho é doido – Pensei.
            Ele abriu a tampa da caixinha e ela começou a executar aquela música, minha velha conhecida. Olhou para mim, abriu um enorme sorriso ficando ainda mais parecido com Papai Noel e disse:
            _ Não, não sou doido! Estou sendo sincero. É a minha coleção de sorrisos.
            _ Além de doido ainda lê pensamentos – Pensei.
            Fechou a tampa da caixinha, interrompendo a música e tornou abrir fazendo com que se iniciasse do ponto que havia parado.
            _ Viu? Está funcionando perfeitamente, como se fosse nova!
            Dizia isso e olhava para o objeto deixando transparecer o enorme orgulho por ter realizado um trabalho perfeito.
            Peguei a caixinha, comprovei que também por fora estava perfeita e pedi que a embrulhasse.
            O velho puxou da grande bobina uma porção de um papel rosado, que cortou utilizando a lâmina que ficava na parte superior. Enquanto ele fazia o embrulho, eu fiquei olhando aquela cabeça abaixada que realizava um trabalho corriqueiro como se fosse uma verdadeira obra de arte. Tornei a olhar para as caixinhas na prateleira tentando entender o que ele quisera dizer com “coleção de sorrisos”.
            Entregou-me o pacote e perguntei se tinha que pagar alguma coisa.
            O homem balançou as duas mãos espalmadas na frente do corpo, dizendo:
            _ Nada! Já está tudo certo. Sua avó já pagou pelo serviço.
            Estendi a mão para me despedir e ele pegou entre as duas, envolvendo-a como se fosse um afago. Agradeci e me retirei. Quando já havia ultrapassado a grande porta de madeira, ouvi sua voz rouca e suave:
            _ Não demore muito a voltar, meu jovem!
            Durante meu caminho de volta não pude deixar de sorrir. Aquele velho homem poderia ser maluco, mas com certeza havia causado uma forte impressão em mim.
Cheguei em casa depois das 9 da noite. Antes mesmo de me dirigir ao meu quarto, fui até ao de minha avó. Como sempre, ela estava sentada em sua velha poltrona e lendo um dos seus velhos livros, contando com a ajuda de um grande abajur, apesar da luz do quarto também estar acesa. Quando me viu entrar, sorriu carinhosamente como costumava fazer e perguntou:
            _ Deu tempo de pegar a minha caixinha?
            _ Deu sim, vó. Está aqui. – Estendi o braço para entregar o pequeno e bem feito pacote de papel rosado. Ela pegou, olhou e disse:
            _ O velho Ciro continua caprichoso como sempre! Olha que embrulhinho bem feitinho!
            Tive que concordar. Minha avó colocou o pacote sobre a mesinha à sua direita enquanto agradecia. Fiquei um tanto frustrado porque acreditava que ela iria abrir o embrulho toda entusiasmada para conferir.
            _ A senhora não vai ver se a caixinha está funcionando direito? – Perguntei.
            _ Não precisa. Foi o velho mestre Ciro quem restaurou. Tenho certeza de que está perfeita. - Disse ela já reabrindo o livro que havia deixado fechado sobre o colo.
            Pensei em deixar tudo como estava e ir tomar meu banho, mas me lembrei do recado mandado pela velha senhora.
            _ Vó, uma tal Dona Consuelo mandou um abraço pra senhora!
            Tornou a fechar o livro e olhou para cima com um doce e saudoso sorriso nos lábios.
            _ Ah! Minha amiga Consuelo. Há quantos anos não a vejo! Como ela está? - Perguntou.
            _ Me pareceu bem! – Achei estranho ela dizer que fazia tempo que não via a amiga.
            Minha avó me olhava como que esperando mais alguma pergunta. O sorriso agora era um daqueles meus conhecidos. Significava que havia me ensinado alguma coisa e esperava a minha reação para ver se eu tinha apreendido. Porém, eu não reagi como esperado, pois tudo me parecia bastante confuso. A senhora Consuelo havia falado de uma maneira como que se tivesse estado com minha avó bem recentemente e, no entanto, ela dizia que há muito não via a amiga.
            Continuava com o livro sobre o colo e me olhando. Conclui que deveria pensar mais um pouco sobre tudo aquilo e resolvi tomar meu banho para depois comer alguma coisa, pois sentia fome.
            _ Bom, vó! Se está tudo bem, vou tomar banho e jantar, tá?
            Ela abriu ainda mais aquele sorriso.
            _ Claro, meu bem! Muito obrigado pela sua gentileza. Se mais tarde quiser conversar, estarei por aqui.
            Procurei a porta do quarto sentindo os pensamentos confusos. Aquela história toda tinha alguma coisa que me fugia à compreensão, mas resolvi deixar de lado.
            Quando passei pela sala minha mãe perguntou se eu iria jantar. Disse que sim e fui para o meu quarto preparar-me para o banho. Liguei a televisão, mais por hábito do que por interesse e, enquanto me despia, lembrei do sorriso daquele velho simpático e da sua seriedade ao dizer que tinha uma coleção de sorrisos. Que coisa mais maluca! Como alguém poderia guardar um sorriso dentro de uma caixinha de madeira?
            Já me dirigindo ao banheiro tive uma idéia; após comer alguma coisa voltaria ao quarto de minha avó para saber um pouco mais sobre o mestre Ciro.
            Quando bati na porta ouvi a voz da vovó:
            _ Entre, meu querido! Está só encostada.
            Abri devagar e me desculpei:
            _ Vó, eu não queria incomodar, mas tem uma coisa que não sai da minha cabeça!
            Ela abriu um grande sorriso e disse:
            _ Eu sei, meu jovem, eu sei, você quer perguntar sobre o velho Ciro, não é? Ele falou sobre a coleção de sorrisos, não foi?
            Eu já imaginava que ela saberia o motivo da minha volta ao seu quarto e concordei.
            Apontou uma banqueta que ficava próxima à sua poltrona, dizendo:
            _ Senta aqui perto da vovó, que eu vou fazer uma coisa que não faço há muito tempo e que tenho saudade... vou contar uma história pra você.
            Sorri um tanto sem jeito, mas a idéia me agradou muito, pois durante toda minha infância e em boa parte de minha adolescência eu me deliciei com as histórias fabulosas que Vó Eulália me contava. Sentei-me e esperei.
            Ela colocou uma mão no meu queixo, olhou-me nos olhos com profunda ternura antes de dizer:
            _ Você se tornou um homem muito bonito, meu querido! E não poderia ser diferente porque sempre foi um menino maravilhoso. Mas vamos ao que interessa.
            _ Era uma vez...
            Eu dei uma boa gargalhada e, junto comigo, minha querida avó. Quando paramos de rir ela disse:
            _ Mas não é assim que sempre começam as histórias?
            Concordei e tentei segurar o riso para que ela começasse a contar a história. E ela prosseguiu:
            _ A verdade, meu querido, é que o velho mestre Ciro é um mago. – Disse e ficou esperando minha reação. Ao perceber que demonstrava descrença, continuou.
            _ Espere! Não julgue antes de conhecer todos os fatos! Ciro tem poderes fantásticos.
            Eu não me segurei e perguntei.
            _ Que tipo de poder?
            _ O de ler pensamentos, por exemplo. O de ver a alma das pessoas. O de poder mudar o futuro...
            _ Qual é vovó? Eu não sou mais criança para acreditar nesse tipo de história! – Disse com certa indignação.
            Ela mais uma vez sorriu paciente, colocou o dedo indicador nos meus lábios e ordenou com carinho.
            _ Quietinho! Ouça tudo primeiro e depois faça o seu julgamento.
            Concordei um tanto a contragosto.
            _ Bem, como eu dizia, Ciro é um mago. Quando eu o conheci ele já era adulto e eu uma pré-adolescente querendo descobrir as coisas da vida. Saíra da escola mais cedo e resolvi fazer um passeio por um bosque que tinha nas imediações. Depois de andar um bocado, de ter admirado as flores e as árvores, vi um homem sentado em um dos bancos feitos com troncos de árvores. Percebi algo em suas mãos. Ao me aproximar notei que era um pássaro preto de coloração um pouco azulada; acho que era uma graúna. Fui me aproximando, percebi que ele conversava com o pássaro e este dava a impressão de estar prestando atenção ao que o homem dizia. Chegando ainda mais perto deu para ouvir sua voz e, seja lá o que ele estivesse falando com o pássaro, não era em nosso idioma e também em nenhum outro cuja sonoridade eu já tivesse ouvido antes. Achei fascinante aquilo e não consegui me afastar. Ele percebeu e fez sinal com a mão para que eu me aproximasse. Fiquei um pouco indecisa, mas a curiosidade foi maior e cheguei mais perto.
            _ “Boa tarde, linda menina! Saiu mais cedo da escola hoje?” - Perguntou.
            _ Eu concordei com um sinal afirmativo de cabeça e ele, percebendo minha indecisão, disse:
            _ “Não tenha medo. Não vou lhe fazer mal algum. Estou aqui conversando com meu amigo empenado”.
            _ Como não me manifestei, ele continuou:
            _ “Não quer saber o que eu estava dizendo para ele?”
            _ Mais uma vez disse que sim com um sinal de cabeça. Ele sorriu e explicou.
            _ “Ele me disse que está com uma asa quebrada e que não pode voar, mas eu estou tentando convencê-lo de que a asa não está quebrada e que, se ele perder o medo, poderá voar normalmente”.
            _ Eu fiquei um pouco assustada com aquela conversa e ele percebeu.
            _ “É verdade! – Sorriu – É difícil acreditar, não é? Mas eu posso mesmo falar com os pássaros. Preste atenção!”
            _ Voltou a olhar para o pássaro preto e disse algumas palavras naquele estranho idioma que eu tinha ouvido. Depois de breves minutos, levantou-se, repetiu e jogou o pássaro para cima. Meio titubeante ele começou bater a asas para, em seguida, sair voando até ao galho de uma grande paineira. Mais alguns segundos, o pássaro voou de volta, pousou nos dedos do homem e imediatamente retornou ao seu vôo, desaparecendo na mata.
            _ Eu estava completamente fascinada com tudo aquilo. Ele me olhou e, sorrindo, disse:
            _ “Feche a boca senão entra mosquito!”
_ E deu uma sonora gargalhada, Passou a mão nos meus cabelos e saiu caminhando, assobiando uma bonita melodia.
            _ Fiquei como que paralisada. Só consegui me recuperar depois de alguns segundos, e quando olhei para trás, Ciro já havia desaparecido.
            Eu olhava para minha avó enquanto pensava que me contava uma história ainda acreditando que eu tivesse sete ou oito anos. Mas como havia prometido não julgar nada antes de conhecer todos os fatos, limitei-me a balançar a cabeça. Ela percebeu.
            _ Calma! Estou só no começo ainda!
            Arrumou os óculos que já estavam quase dependurados em seu nariz e prosseguiu com a narrativa.
            _ Acho que se passaram uns quinze, talvez vinte dias. Eu saía da igreja quando, na pracinha que ficava em frente, vi Ciro cercado de garotos que riam com muita vontade. Apesar de só ter meninos eu me aproximei. Ele me viu e disse:
            _ “Oi Eulália! Como vai? – Ele perguntou.”
            _ Fiquei surpresa porque eu não havia dito o meu nome naquela única vez em que nos encontráramos. Aproximei-me um pouco mais e respondi: Vou bem. E o senhor?
            _ Ciro tinha um sorriso franco.
            _ “Eu estou ótimo. Lembra-se daquele pássaro?”
_ Eu balancei a cabeça afirmativamente
_ “Eu o encontrei há uns três dias e ele mandou lembranças para você. Disse também que você é uma menina muito bonita.”
            _ Devo ter corado muito, porque os garotos caíram na risada. Ciro então falou:
            _ “Agora vocês vão brincar porque eu preciso conversar um assunto sério com a Eulália.”
            _ Os meninos se levantaram e saíram protestando.
            _ Ele se afastou um pouco para dar lugar no banco em que estava sentado e, batendo com a palma da mão sobre ele, disse:
            _ “Sente-se aqui!”
            _ Eu, mais confiante, sentei-me e fiquei esperando o que aquele estranho e fascinante homem tinha para me dizer. E ele começou:
            _ “Eulália, eu tenho muitas coisas importantes para dizer a você, mas antes eu quero que pague pelos meus serviços.”
            _ Pagar? Como, se naquela idade a coisa mais difícil era conseguir algumas moedas dos meus pais, já que os tempos eram bastante difíceis? Mas ele explicou:
            _ “Não, eu não quero dinheiro.”
_ Abriu uma grande bolsa de couro que levava a tira-colo e de dentro dela tirou uma caixinha de madeira. Mostrou-me e eu vi que ela tinha uma pequena placa de metal com o meu nome.
            _ “Eu quero que você me pague com um sorriso. Com um dos seus lindos sorrisos. Se você concordar, vou guardá-lo nesta caixinha para todo o sempre. Concorda?”
            _ O simples fato de ele ter dito isso já me fez sorrir abertamente. Ele também sorriu e explicou, perguntando:
            _ “Mas eu preciso da sua aprovação para guardá-lo. Posso?”
            _ Eu balancei a cabeça concordando. Ele abriu a caixinha, aproximou-a dos meus lábios, fechando rapidamente a tampa em seguida. Aquilo fez com que meu sorriso se transformasse numa gargalhada no que fui acompanhada por ele. Em seguida ele me falou sobre coisas que não vêm ao caso dizer nesta história, mas foi por conhecê-las que eu pude minimizar muitas situações ruins em relação aos meus entes queridos: meus pais, meus irmãos, seu falecido avô, seu tio e sua mãe, seu pai e também você e com seu irmão. Graças aos ensinamentos de Ciro pudemos viver felizes como sempre vivemos. Acabou a história e morreu a vitória. Saiu por uma porta e entrou pela outra, quem quiser que conte outra.
            E riu à vontade, como havia muito tempo eu não via aquela mulher rir. E cada vez que olhava a minha expressão de espanto, ria ainda mais.
            Eu me levantei e disse:
            _ Está bom, vovó! Se serviu para fazer você rir assim, valeu fazer papel de bobo!
            Ela parou de rir de imediato. Com o seu olhar mais sério e semblante fechado, falou secamente.
            _ Menino, eu nunca falei tão sério com você, como acabei de falar. Agora resta a você acreditar ou não – E levantando-se visivelmente contrariada – Agora se você me der licença, eu preciso dormir porque já está tarde.
            Levantei-me, arrependido de ter agido daquela forma e, enquanto saía, me desculpei:
            _ Puxa, desculpe vovó! Não quis ser grosso com a senhora. Boa noite e durma bem. A sua benção!
            A voz dela amaciou quando respondeu:
            _ Deus te abençoe meu querido! Que Ele continue te abençoando como sempre fez.
            Saí, fechei a porta e fui para o meu quarto. Precisava dormir, pois teria que me levantar muito cedo na manhã seguinte.
            Demorei muito para conciliar o sono pensando em tudo aquilo e, durante as poucas horas em que dormi, tive sonhos confusos e estranhos. E o mestre Ciro estava presente em todos eles.
            Na manhã seguinte não consegui me concentrar no trabalho. Por diversas vezes fui pego pelos colegas, divagando. Começou a se tornar cômico originando algumas piadinhas, principalmente entre as colegas, sobre a possibilidade de eu estar apaixonado.
            Por volta das onze horas, já conformado de que não conseguiria produzir nada que prestasse, decidi enfrentar meu chefe pedindo o resto do dia de folga. Ele ficou surpreso, pois isso nunca havia acontecido, mas permitiu.
            Deixei o edifício onde ficam os escritórios da empresa e quando me dei conta já estava na Praça da Memória em direção à Rua da Lembrança. Passei por Dona Consuelo, desejei um bom dia apressado, ignorei a rosnada do Fiel e consegui ouvir a mulher resmungar:
            _ Voltou mais depressa do que eu imaginei!
            Parei em frente à oficina do mestre Ciro e as portas estavam fechadas. Fiquei um pouco indeciso, mas resolvi bater na mesma porta do dia anterior.
            Não demorou mais do que cinco segundos para que ouvisse o ranger do ferrolho. A porta se abriu e o velho homem, com o sorriso que parecia eterno, disse:
            _ Bom dia, meu jovem! Vamos entrar. Entre... entre! Eu já esperava por você!
            Aquela afirmação não me deixou nem um pouco surpreso porque eu tinha a certeza de que ele sabia que eu voltaria. Entrei e esperei que ele chegasse até atrás do balcão para acender a luz. Assim que o ambiente se iluminou, voltou-se para mim e perguntou:
            _ O quê você veio fazer, meu prezado amigo?
            Eu não sabia bem por onde começar, mas como numa enxurrada de palavras contei tudo que havia acontecido desde que eu deixara a sua oficina, falei sobre o que minha avó contara e, antes que perdesse o fôlego no meio de frases algumas vezes confusas, ele sorriu e disse:
            _ Calma, menino. Não precisa ficar assim tão excitado. Tudo isso que está acontecendo com você é absolutamente normal. Calma!
            Procurei me controlar com todas as forças antes de perguntar:
            _ Afinal, quem é você? Minha avó disse que é um mago, mas eu não sei se acredito nessa história.
            O velho homem saiu de trás do balcão, arrastou uma grande cadeira de madeira para próximo de mim, convidando:
            _ Sente-se! Eu vou responder todas as perguntas que você quiser. Mas tenha calma.
            Sentei-me e esperei. Ele sentou-se num banquinho de pernas altas, também de madeira, e disse:
            _ Em primeiro lugar saiba que somos todos magos.
            _ Todos quem? O senhor, minha avó, Dona Consuelo?
            Ele mantinha o sorriso inalterado.
            _ Todos os seres humanos. Você também é um mago, apenas não se preparou para deixar fluir todo o seu potencial, assim como a enorme maioria da raça humana.
            _ Como poderia ter me preparado se nunca soube da possibilidade de ser um? – Perguntei indignado.
            _ Nunca soube, porque nunca acreditou! – O velho disse isso com uma certeza no olhar que fez com que eu duvidasse de minhas dúvidas. E continuou:
            _ Quando somos crianças, os adultos, mesmo sem saber, nos dão todas as informações necessárias. Mas o fato é que eles nos passam essas informações como se fossem apenas histórias, contos de fada, ou coisas semelhantes. – E continuou:
_ A sua avó, por exemplo, fez de tudo para que você se conscientizasse disso, mas quando criança você apenas se deleitava com as histórias. Quando chegou à adolescência, muitas vezes achava graça das mesmas histórias, até perder totalmente o interesse.
            Eu resolvi interromper.
            _ Tudo bem, vou aceitar tudo isso como verdade, mas eu quero saber de uma coisa apenas: que coisa é essa de coleção de sorrisos?
            O velho mestre tornou a sorrir, mas desta vez, pareceu-me que com tristeza e decepção.
            _ Quer dizer que o seu único interesse é saber sobre a coleção de sorrisos? Foi apenas a curiosidade que fez com que você voltasse aqui?
            Eu percebi que havia feito alguma coisa errada, não sabia bem o quê, mas decepcionara o velho mago.
            _ Mas qualquer um ficaria curioso com essa história! – Disse tentando me defender.
            _ A curiosidade é comum a todos os seres humanos, mas para os que desejam ser magos é preciso querer saber o porquê e como. E não parece que esse seja o seu caso.
            Fiquei sem saber o que dizer. Abaixei a cabeça e senti que minha curiosidade não seria satisfeita. O mestre Ciro balançou a cabeça, levantou-se e disse:
            _ Vá embora, meu jovem! Você ainda não está preparado. É uma pena, mas ainda não chegou o seu tempo.
            Pensei em argumentar, porém o ar decidido do velho não me deixou alternativa. Levantei, estendi a mão, que não foi apertada como na primeira vez, disse um até logo e saí com uma sensação muito ruim dentro de mim. Estava indo embora bem pior do que havia chegado.
Talvez tenha passado três ou quatro anos e, aos poucos, toda aquela história foi ficando mais ou menos esquecida. Nunca mais toquei no assunto com minha avó e muito menos passei pela Rua da Lembrança. Segui minha vida exatamente como era antes daquele dia em que fui buscar a caixinha de música na oficina do mestre Ciro.
            Foi numa tarde de sábado. Eu resolvi dar umas voltas seguindo a esmo, sem destino definido. Depois de andar por vários lugares, acabei entrando no bosque. Caminhei pelas alamedas apreciando os ipês roxos que estavam plenamente floridos, me encantei com uma panapaná de borboletas amarelas, até que me sentei num dos bancos toscos feitos de troncos de árvores. Eu sentia uma tristeza profunda sem saber exatamente de onde ela vinha.
            Ela surgiu de repente, como que do nada. Trajava um vestido leve todo florido e sandálias rasteiras. Trazia uma flor nos cabelos negros que emolduravam uns maravilhosos olhos verdes.
            Quando passou por mim sorriu. E foi um sorriso como nenhum outro que tinha até então recebido ou visto. Um sorriso que iluminou minha alma fazendo com que aquela tristeza desaparecesse como que por um encanto. Um sorriso que merecia ser eternizado num quadro como a Mona Lisa, numa estátua como La Pietá, numa fotografia ou... numa caixinha de madeira!
            Meu coração pareceu disparar. Numa caixinha de madeira com uma placa de metal gravada com o nome dela. Mas qual nome? Levantei-me e corri atrás da linda moça. Ao me aproximar disse:
            _ Desculpe, não me leve a mal, mas eu posso saber seu nome?
            Ela parou de repente, me olhou um pouco assustada, mas deve ter percebido a sinceridade do meu olhar e novamente sorriu ao dizer seu nome.
            _ Laura.
            Eu também sorri e disse.
            _ Laura! Desculpe o meu atrevimento, mas você tem o sorriso mais lindo que já vi em toda minha vida!
            Ela demonstrou ter ficado um tanto encabulada e ainda sorrindo agradeceu.
            _ Obrigada! Você é muito gentil. E seu nome qual é?
            Quando ia responder olhei por cima dos seus ombros e vi, encostado a uma árvore, um velho homem, com um sorriso que lembrava Papai Noel. Um homem chamado mestre Ciro.
            Pedi à moça que me desculpasse e aguardasse um minuto. Corri até ao mestre e disse:
            _ Mestre, agora eu sei por quê!
            Ele passou a mão nos meus cabelos enquanto exclamava:
            _ Eu sei! Eu sei!
            E levando a mão para dentro uma bolsa de couro velho que levava a tira-colo, retirou uma caixinha de madeira com uma placa de metal. Entregou-me dizendo:
            _ Depois você grava o nome dela.
            Peguei o velho homem pelo rosto com as duas mãos e, abaixando sua cabeça, beijei sua testa, saindo correndo de volta aonde Laura me esperava. Cheguei um tanto excitado e disse:
            _ Posso guardar o seu sorriso dentro dessa caixinha?
            A sua primeira reação foi de espanto, para em seguida sorrir com vontade.
            _ Mas eu preciso que você me autorize. Posso?
            Ela balançou a cabeça afirmativamente.
            Abri a tampa da caixinha, aproximei-a de seus lábios e fechei-a rapidamente.
            Eu havia descoberto que a magia da vida está nos sorrisos que provocamos e nos sorrisos que nos são dirigidos com sinceridade. Descobri que com um sorriso somos capazes de modificar tudo, inclusive fatos que podem ser muito negativos em nossa vida. Descobri que através dos sorrisos podemos conhecer a alma das pessoas e nos comunicar com todos os seres vivos. Descobri que uma relação baseada em sorrisos não conhece nem o tempo e nem o espaço. E o sorriso de Laura foi o primeiro de centenas de que iriam compor a minha coleção.
            Enquanto deixava o bosque em companhia de Laura, olhei para trás e vi o velho mestre Ciro balançando uma caixinha para mim. Decidi que no dia seguinte iria até a sua oficina pagar pelos seus ensinamentos com o meu sorriso, pois sabia que naquela caixinha tinha uma placa de metal gravada com o meu nome.