José morava em Taubaté, tinha 17 anos e não conseguia se entender bem com as garotas. Por isso foi se isolando aos poucos, evitando as festas e bailinhos da época.
Foi numa revista, na casa de sua prima, que viu um anúncio no Correio Sentimental que lhe chamou a atenção: Fada Loira, 15 anos, quer se corresponder, com intenção de futuro compromisso, com jovem entre 16 e 19 anos. Caixa Postal 87 – Guarapari – ES.
De início, José hesitou bastante. Depois escreveu quase uma dezena de cartas, antes de considerar que uma estava boa o suficiente para enviá-la. Usou como endereço a caixa postal de seu tio Alfredo, que sempre dava a maior força para o sobrinho. Esperou pela resposta com uma ansiedade que nunca experimentara. Foram quase duas semanas de agonia.
Quando já acreditava que a Fala Loira não havia se interessado por sua carta, ao abrir a caixa do correio, seu coração bateu acelerando. Lá estava o envelope tão esperado e endereçado ao Garoto Tímido, pseudônimo que havia adotado. Não quis abrir até chegar em casa.
Entrou sem dizer nada a ninguém e foi direto para seu quarto, jogando-se na cama. Abriu o envelope e se deparou com duas páginas escritas com letrinhas bem feitas. A Fada Loira dizia que tinha gostado muito do que ele havia escrito e que se interessara em manter correspondência.
Iniciou-se então o vai e vem de cartas. Foram se conhecendo e descobrindo que tinham muitas coisas em comum. Já mais confiantes revelaram seus verdadeiros nomes e trocaram fotos. A Fada Loira era, na realidade, Beatriz.
Talvez pela comunicação à distância, José foi conseguindo se abrir, contando coisas que nunca revelara a ninguém. Beatriz foi se interessando cada vez mais porque aquele jovem que tinha coisas maravilhosas dentro de si e muita dificuldade de expô-las.
Já fazia quase dois anos que se correspondiam e chegaram à conclusão que estavam realmente apaixonados. Precisavam se encontrar. Beatriz disse que em janeiro estaria com a família no Rio de Janeiro e então marcaram um encontro no Corcovado, no dia 20, às 3 horas da tarde.
Novembro se iniciava e José começou a economizar dinheiro para a viagem. Fazia todo tipo de serviço que aparecesse. Deixou de tomar lanche na escola, de ir ao cinema aos sábados, não comprou mais suas revistas de histórias em quadrinhos. No Natal, pediu dinheiro como presente ao pai, ao tio Alfredo e à sua madrinha.
Dia 19 de janeiro, à noite, José embarcou num ônibus em direção à Cidade Maravilhosa. Ficou a madrugada toda na rodoviária. De manhã, após ter conseguido saber quais ônibus tomar, passeou pela praia sem tirar os olhos do relógio.
Uma da tarde e José já estava no Corcovado, usando a roupa que havia descrito que estaria vestido, caso ela não o reconhecesse através da fotografia. Às três da tarde o coração de José batia descompassado. As quatro um nó começava a se formar na garganta. As seis José retornava à rodoviária fazendo todo o possível para conter as lágrimas, sem sucesso.
Fez a viagem de volta com uma mágoa nunca antes sentida. Chegou em casa de madrugada, entrou no quarto e chorou com a cara enterrada no travesseiro.
Duas semanas depois, tio Alfredo disse que tinha chegado uma carta pra ele. José pediu que o tio a rasgasse, pois não deveria ser nada interessante.
Mais alguns meses, Tio Alfredo mudou-se para São Paulo e desfez-se de sua caixa postal. José, no final do ano prestou vestibular e foi cursar a faculdade em Uberlândia.
Durante o curso conheceu Regina. Casaram-se, tiveram filhos e a vida seguiu como a de todo mundo, cheia de altos e baixos, mas bastante satisfatória para José.
Já maduro, com a filha Solange fazendo faculdade em Presidente Prudente, José percebeu que a mágoa havia passado e que havia ficado um sentimento ainda muito forte em relação à Beatriz. Descobriu que gostava muito de Regina, mas seu único e verdadeiro amor havia sido a Fada Loira. Pena que pra ela não tinha sido com a mesma intensidade.
Solange chegou ao final da faculdade. Na formatura José iria conhecer o namorado da filha, colega de escola. Os dois pretendiam ficar noivos em seguida. José foi com Regina. Acompanhou, sem poder disfarçar a emoção, a filha recebendo o seu diploma. Ela estava linda de beca. Foram para o jantar e o baile. Solange pegou o pai e a mãe pelas mãos levando-os até a mesa onde estava Flávio, seu namorado, com a família.
O coração de José disparou. Olhou para a mãe de Flávio e sua mente retornou ao passado como numa máquina do tempo: era Beatriz, a Fada Loira. Beatriz estendeu a mão para os cumprimentos, sem conseguir balbuciar nenhuma palavra. Sentaram-se e enquanto Solange, Flávio e Regina falavam sem parar, José e Beatriz apenas se olhavam.
Quando ficaram sozinhos ela disse que tinha mandado uma carta explicando que sua mãe havia ficado muito doente e por isso tinham suspendido a viagem ao Rio. E que depois enviou várias outras cartas que voltaram, pois a caixa postal estava desativada. José apenas ouvia, não sabia o que dizer.
Na hora da valsa, José dançava com Solange e Beatriz com Flávio. No meio da dança, Solange quis trocar de parceiros para dançar com o namorado e José tomou Beatriz em seus braços. Os dois se olharam e descobriram que o tempo não havia mudado em nada seus sentimentos.
Parodiando o poeta: E agora, José?

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