Foi estranho o acordar de Mário. Havia sons diferentes no ar. Para ser absolutamente correto, o ar era diferente e os seus pulmões pareciam ter certa dificuldade em se sentirem plenos na oxigenação. Será que ele estaria acometido de alguma forte gripe ou mesmo de uma pneumonia?
Apesar do ar pesado, quase denso, Mário levantou-se e, ao se levantar, quase voltou a se deitar, devido ao susto.
Aquele não era o seu quarto! Aliás, aquele não poderia ser o quarto de ninguém, por mais criativo e excêntrico que esse alguém fosse!
Tentou lembrar-se da noite anterior. Se havia bebido demais, ou fumado, ou cheirado alguma coisa que não deveria, mas nada. Fora uma noite comum como tantas outras. Tinha até se deitado mais cedo do que de costume e ouvido o rádio até conciliar o sono. Como ele poderia ter acordado em lugar tão estranho?
Talvez, ao sair do quarto, se encontrasse com uma bela mulher, extravagante com certeza, mas uma bela mulher, pudesse começar a entender o que estava acontecendo.
Ficou de pé, e ao se aproximar daquilo que parecia ser uma porta, as luzes se acenderam sem que ele tocasse qualquer interruptor. Então Mário pôde ver melhor o quarto. Assemelhava-se a alguma coisa saída de um filme de ficção cientifica. A cama onde estivera deitado parecia flutuar ou estar ligada à própria parede do quarto.
Se ele fosse dar um adjetivo para aquilo tudo, com certeza, só encontraria uma palavra: futurista.
Tudo bem, qualquer um tem o direito de fazer do seu quarto o que quiser, pois gosto não se discute, lamenta-se, mas o que ele estava fazendo ali? E pior, como poderia ter acordado naquele quarto do Flash Gordon, ou algo saído do filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço, se estava certo de ter adormecido no seu?
Em cima de uma plataforma que poderia ser vidro, ou plástico, ou sabe-se lá o quê, havia uma televisão de tela grande e, acoplado a ela, alguma coisa com a aparência de teclado de máquina de escrever e vários equipamentos que Mário nunca tinha visto iguais ou parecidos.
_ Preciso saber o que está acontecendo! – Pensou. E tentou achar o trinco da porta. Quando sua mão se aproximou, (enquanto as lâmpadas se acendiam também) automaticamente esta começou a subir com um leve zumbindo e desapareceu no teto.
Imediatamente ao quarto, o rapaz se deparou com algo que lembrava uma sala de estar. O que se dispunha aos seus olhos ele nem ousou tentar descrever, pois não teria parâmetros para fazer comparações.
Tudo imergia numa meia-luz azulada. Ao acostumar a retina percebeu uma pessoa sentada em uma poltrona que também parecia flutuar. Forçou um pouco a visão e constatou tratar-se de um homem bastante idoso que olhava para ele com um sorriso enigmático.
Apesar de estar vivendo uma situação absolutamente absurda, o que deixou Mário surpreso foi o fato de não se sentir assustado diante de algo tão misterioso.
Quando os seus olhos já quase se acostumavam totalmente com a penumbra, pôde então notar que a fisionomia lhe era conhecida. Estaria entrando em contato com algum espírito? Aquele homem parecia seu pai, mas ele ainda estava vivo e não tinha tanta idade assim!
O velho parecia amigável. Olhou suas roupas e estas contrastavam com todo o ambiente, pois não passavam de calças jeans e camisa xadrez. Os tênis, especialmente, chamaram a sua atenção. Como alguém poderia usar uma coisa tão extravagante quanto aquela, principalmente, uma pessoa de idade tão avançada? Assemelhavam-se a sapatos de astronauta. Horrível! Nos dois pés, um nome gravado: Nike. Imaginou que aquele poderia ser o nome do homem, afinal quem tem coragem de usar uma coisa daquela também é capaz de gravar o próprio nome nos tênis.
Nike, ou qual fosse o seu nome, apontou uma cadeira semelhante à sua, num claro convite para que Mário se sentasse. Obedeceu com movimentos bem lentos, pois ainda se sentia bastante confuso, embora estranhamente à vontade. Assim que se sentou ouviu a voz do velho:
_ Sabe quem sou eu?
_ Não faço a menor idéia, aliás, nem sei como vim parar aqui!
O sorriso enigmático ficou ainda mais acentuado:
_ Você não veio parar aqui, você está aqui!
O jovem jamais fora chegado a charadas, nem ao menos palavras cruzadas, e não seria agora, num momento tão confuso como o que estava vivendo, que iria quebrar a cabeça para adivinhar o que aquele velho maluco estava querendo dizer.
_ Olha aqui, meu senhor, não me venha com jogos de adivinhação porque eu sou péssimo nesse tipo de coisa e...
_ Eu sei! Sempre fomos péssimos nisso! – Ele falou, interrompendo.
_ Fomos? Eu conheço o senhor? Apesar de sua fisionomia ser familiar, acho que não o conheço.
O velho levantou-se com dificuldade, caminhou até ao móvel tão estranho quanto tudo mais e pegou um pequeno objeto. Olhou para Mário e disse:
_ Você me conhece pouco, mas eu conheço você por inteiro. – E apertou um botão, ou alguma coisa, naquele estranho objeto. A porta do móvel abriu-se em duas partes, também com um leve zumbido, e surgiu uma enorme tela retangular. Mário deduziu que poderia ser uma espécie de televisão, mas totalmente diferente de tudo que vira até então. Apertou outro botão, e na enorme tela começaram a aparecer imagens bem conhecidas; uma série de fotografias de Mário. Quando bebê, quando criança, na festa de seus sete anos, num baile de Carnaval, enfim, algumas fotos que já julgava completamente perdidas. E a surpresa foi ficando cada vez maior. Seria aquele homem um tipo de agente secreto? E se fosse, o que poderia querer com ele? Ele, apenas um rapaz de vinte anos que estava lutando feito um louco para tentar ingressar numa faculdade pública, mas que queria mesmo apenas tocar sua guitarra e ouvir Beatles e Rolling Stones?
As imagens continuaram na grande tela. De repente, começaram a aparecer algumas fotos suas, ao lado de garotas e pessoas que não conhecia, as quais estava certo de nunca terem sido tiradas. No momento seguinte as imagens ganharam movimentos e ele aparecia tocando em palcos e com pessoas que jamais vira. A cada seqüência de imagens percebia que estava ficando mais velho! O que seria aquilo? Algum tipo de mágica?
O velho desligou o aparelho. E foi bom porque o jovem já começava a se sentir completamente maluco!
Colocou as duas mãos na cabeça e pressionou, talvez para que isso o ajudasse a raciocinar melhor. Foi quando o homem disse:
_ Calma! Não se esforce tanto porque não vai conseguir entender nada. Deixe que eu explique.
Quando Mário levantou a cabeça ele estava à sua frente oferecendo-lhe um copo com alguma coisa que parecia ser água. Bebeu percebendo um gosto bastante estranho, mas com certeza tratava-se de água.
Enquanto bebia, o velho voltou a ocupar sua poltrona flutuante e disse num repente:
_ Eu sou você sessenta e sete anos mais velho!
Quase que Mário se engasgou com o último gole daquela água com paladar diferente.
_ O homem é louco! – Pensou.
Ele sorriu novamente e disse:
_ Não, não sou louco!
_ E pelo jeito lê pensamentos! – Tornou a pensar.
_ Também não leio pensamentos, mas com certeza adoraria ter esse poder! – Deu uma pausa – Agora, procure respirar bem fundo e se acalmar para que eu possa explicar tudo.
Achou o seu conselho interessante e procurou encher os pulmões com o máximo de oxigênio possível. Aliás, oxigênio era uma coisa que não parecia existir em abundância dentro daquele ambiente.
_ A diferença que você está sentindo na sua respiração não é do ambiente. É de todo o planeta, mas você vai entender tudo, inclusive o gosto estranho da água. – ao dizer isso ele também empunhava uma taça e bebia o líquido bem devagar, como se fosse o mais precioso vinho.
Quando sentiu seus nervos mais sob controle, Mário falou:
_ Bom, desembucha! Eu quero saber o que está acontecendo! Por que ontem adormeci no meu quarto e hoje acordei nesse que mais parece uma nave espacial?
Com movimentos lentos, o homem pousou a taça sobre uma pequena mesa de vidro, ou sabe-se lá o quê, que também flutuava, e disse:
_ Você viajou no tempo!
Enquanto Mário tentava segurar seu queixo para que a boca não se abrisse demais, o velho continuou:
_ Hoje é dia 11 de janeiro de 2.034. Você está na cidade de Ribeirão Preto, que já conhece muito bem e onde deverá estar de volta pouco antes de completar vinte anos. – Esperou um pouco, como que dando tempo para que o jovem assimilasse, e continuou.
_ Conforme já havia dito, eu sou você aos oitenta e sete anos de idade, aliás, completados hoje!
Tentando entender tudo aquilo, Mário lembrou-se que era verdade, ele completaria vinte anos naquele dia, pelo menos se tivesse acordado no seu quarto. Já começava a ficar nervoso com tudo aquilo e seu tom de voz se alterou:
_ Mas afinal, por que tudo isso?
_ É o meu presente de aniversário para nós dois.
_ Tudo bem, nós estamos fazendo aniversário no mesmo dia e mês, mas por que você me envolveu nessa situação maluca?
O velho desta vez não apenas sorriu, mas riu:
_ Você ainda não percebeu que eu não envolvi você! Nós dois estamos envolvidos, pois somos a mesma pessoa!
_ Mas isso é impossível! – Levantou-se, numa explosão de perplexidade –
_ Isso é totalmente impossível!
_ Sente-se! – Disse ele.
_ Demorou muito em aprendermos que em pé ou sentado as emoções não mudam. Sente-se!
Muito a contragosto Mário obedeceu, talvez por achar que ele tinha razão.
_ Ao invés de ficar explodindo e querendo entender como aconteceu, aproveite o momento! Quantas pessoas no mundo já tiveram a oportunidade de se encontrar consigo mesmas décadas antes de ser? – O seu tom de voz também havia se alterado um pouco.
_ Tá legal! Tá legal! Barra limpa! Vamos supor que tudo que você está dizendo seja verdade! Eu vou entrar na jogada! O que você, ou eu, ou nós, sei lá, faz da vida?
_ Hoje muito pouco! Mas fomos músicos nossa vida inteira. – Uma pequena pausa para continuar.
_ Você quer saber se nos formamos na faculdade de Matemática? – Mais uma pausa.
_ Sim e depois fizemos outra: Administração de Empresas. Mas, na verdade, nunca exercemos nenhuma dessas profissões. A música não deixou!
Enquanto o velho homem falava, começou a notar que muitos dos gestos daquela figura eram bastante semelhantes aos seus. O tom de voz, apesar de marcada pelo tempo, lembrava muito a dele, ou uma mistura com a de seu pai. Estranhamente Mário começava a sentir-se mais tranqüilo. Decidiu aproveitar tudo aquilo, fosse ou não verdade, fosse ou não loucura!
_ Por que sinto certa dificuldade para respirar?
_ Porque existe uma quantidade muito grande de monóxido de carbono no ar, uma quantidade bem maior da que havia em 1967. E como você deu um pulo no tempo, o seu organismo não teve a oportunidade de se adaptar.
Razoável a resposta, aliás, essa coisa de se jogar fumaça demais na atmosfera sempre havia preocupado o rapaz.
_ E aquilo que você me deu para beber, era água, não era?
_ Sim!
_ E por que tinha um gosto estranho?
_ Porque a água é uma das coisas mais preciosas que temos nos dias de hoje. A maior quantidade da que bebemos é reciclada. – Ele não pode deixar de expressar um ar maroto ao dizer.
_ A água que você bebeu foi reciclada do esgoto!
O estômago de Mário se retorceu e teve que segurar para não por tudo pra fora. Ecoou no recinto uma gargalhada sonora:
_ Fique tranquilo! Só o gosto é diferente, mas ela é totalmente saudável!
Mário não conseguiu se conter e disse quase com revolta:
_ Cacete, que merda vocês fizeram com o mundo?
Também o velho homem se exalta:
_ O que “vocês” fizeram com o mundo? Você deveria perguntar o que “nós” fizemos com o mundo com toda poluição que produzimos!
A palavra era nova para o rapaz, mas já havia lido um pouco sobre ela:
_ Poluição! Isso é coisa dos hippies que dizem ter criado uma nova ciência: a ecologia!
_ Pois se tivéssemos dado ouvidos a eles naquela época, hoje não estaríamos provando dessa água e nem sentindo dificuldade para respirar!
Mário não tinha argumentos, ao menos no momento, e então resolveu se calar. O velho também preferiu dar tempo para que os ânimos se acalmassem.
Depois de cerca de um minuto de silêncio o jovem perguntou:
_ E como foi a nossa vida?
Agora sorria mais amigavelmente.
_ Nossa vida tem sido boa! Não conseguimos tudo que sonhamos, mas também tivemos momentos maravilhosos.
_ Eu me casei?
_ Sim! Duas vezes!
_ Duas? – Mário estava realmente surpreso, pois nunca tinha passado pela sua cabeça a hipótese de casar nem ao menos uma.
_ Com quem me casei?
_ Você ainda não conhece nenhuma das duas. E vai demorar um pouco para conhecer. Nós nos casamos com trinta anos de idade!
Já que ele fazia tanta questão de usar o pronome no plural, Mário resolveu também aderir:
_ E nós tivemos filhos?
_ Sim. Um casal do primeiro casamento e dois filhos no segundo. Foram crianças maravilhosas e hoje são adultos fantásticos! – Havia muito orgulho em seus olhos.
_ Onde estão?
_ Por aí! Seguindo suas vidas como tem que ser.
_ Nós os vemos sempre? – Perguntou com toda a sinceridade.
_ Sim, mas não da forma a que você se refere. A vida hoje é bem diferente da que conhecemos em 1967. Mas nos falamos sempre por um aparelho que, pra você entender, é uma espécie de telefone com imagem.
Mário deu um pouco mais de tempo para que sua mente conseguisse assimilar tudo aquilo e perguntou.
_ Nós somos felizes?
_ Nem infelizes! Somos o que somos. Colhemos o que plantamos, mas eu posso dizer que não temos do que nos queixar, não!
_ Eu gostaria de dar uma volta por aí! – Pediu.
_ Não é possível! Não podemos sair desta casa.
Resolveu não discutir esta imposição, pois, se tudo aquilo que tinha visto ali dentro já o havia deixando meio “goiaba”, imaginou que lá fora poderia se tornar bem pior.
_ Mas afinal, supondo que tudo que está me dizendo seja verdade, por que você quis que esse encontro acontecesse? – Mário estava bastante curioso.
_ Talvez para matar a saudade do tempo em que acreditamos nos sonhos. Para ser bem honesto, acho que não tenho um motivo específico – Disse ele.
Houve mais um breve silêncio e foi o rapaz quem o quebrou:
_ Talvez porque você queira que eu faça algo que não fiz, ou deixe de fazer alguma coisa que acabou bagunçando nossa vida?
O velho homem sorriu abertamente.
_ Não, mesmo que quiséssemos isso não seria possível. E se fosse, eu não iria querer, pois o que somos foi o resultado de tudo aquilo que fizemos. Entenda uma coisa: somos um fato seqüencial. Um somatório de ações e reações.
Mário não achou o argumento muito convincente, afinal teriam a chance de não cometer vários erros. E mais uma vez pareceu que seus pensamentos eram lidos.
_ Os erros que cometemos foram importantes para o nosso aprendizado. Sem eles seríamos pessoas diferentes e eu não gostaria de ser diferente do que somos hoje.
O rapaz achou aquilo uma demonstração de grande egoísmo da parte dele e argumentou:
_ Você pode estar satisfeito, mas como pode saber o que eu gostaria que fôssemos quando chegássemos aos oitenta e sete anos?
A gargalhada dele foi sonora.
_ Eu sei, porque você está se esquecendo que eu sou você.
A cabeça do jovem parecia ter sido jogada dentro de uma máquina de lavar que girava alucinadamente. O novo silêncio foi quebrado pelo homem:
_ E se você tiver mais alguma coisa para perguntar, faça logo porque nosso tempo está acabando.
_ Como assim? – Mário estava começando gostar de tudo aquilo.
_ Esta situação dura no máximo trinta minutos para depois deixar de ser.
_ E eu vou voltar para 1967?
_ Você nunca saiu de lá. – Disse ele.
_ E vou me lembrar disso tudo?
_ Não sei! Pode ser que sim, mas ninguém pode garantir.
_ E você vai se lembrar?
_ Eu sim, porque o que está acontecendo é no meu momento e não no seu.
_ Eu tenho uma última pergunta...
_ Então faça logo porque o tempo está se esgotando.
Mário começava a sentir a cabeça girar e teve que fazer um esforço para perguntar:
_ O seu mundo vive em paz...
Ele abriu a boca para responder, mas o jovem não conseguia ouvir nenhum som. Tentou ler seus lábios, mas sua imagem começava a desaparecer...
_ Parabéns a você! Nessa data querida... acorde preguiçoso. Feliz aniversário – Era a voz do irmão mais novo de Mário.
Acordou sobressaltado com a nítida impressão de ter tido um sonho importante, mas não conseguia lembrar-se de nada. No entanto, sem saber por que, naquela manhã acordou mais confiante e com menos preocupação em relação ao vestibular que dentro de alguns dias teria que prestar.