Pedro guardou o carro na garagem e acionou o controle remoto para que o portão se fechasse. Estava mais cansado do que normalmente, pois o dia tinha sido muito puxado. Reuniões intermináveis sem os resultados esperados. Não via a hora de tomar um banho morno e sentar-me frente à televisão para espairecer. Subiu o lance de escada e abriu a porta. Acendeu a luz e ficou paralisado com o susto. Sentado no seu sofá preferido estava um homem que nunca vira antes. Depois do impacto inicial, Pedro pousou sua maleta no assoalho da sala e perguntou:
_ Quem é você? O que está fazendo na minha casa?
Sem se levantar, o estranho disse com voz pausada:
_ Eu vim acertar umas contas com você!
Pedro não entendeu, pois tinha certeza de nunca ter visto aquele homem.
_ Acertar contas? Eu não lhe devo nada! Aliás, nem sei quem é você! Se não sair agora mesmo eu vou chamar a polícia.
O homem não se alterou.
_ Chame se quiser. Até eles chegarem aqui você já terá pagado o que me deve.
Pedro imaginou que o homem fosse um desequilibrado e tentou manter a calma.
_ E afinal, o que lhe devo?
O homem levantou-se e caminhou até mais próximo do dono da casa.
_ Dezoito anos de vida.
Pedro deu dois passos para trás para evitar uma aproximação maior daquele homem que, agora tinha certeza, era um desequilibrado mental.
_ Dezoito anos de vida! Como eu posso estar devendo isso a você se nem ao menos o conheço?
O homem também parou e olhando bem nos olhos de Pedro e disse.
_ Eu poderia dizer que você me deve a vida de minha falecida esposa, mas não seria justo!
Pedro começou a sentir que tremia.
_ Eu não estou entendendo! Eu não conheço você e não faço a menor idéia de quem tenha sido a sua esposa!
O homem levou a mão direita para trás do corpo e, da altura da cintura, tirou uma arma. Apontou com ela uma poltrona e disse:
_ Senta aí que você vai entender.
Pedro pensou em sair correndo, pois a porta ainda estava semi-aberta, mas com certeza o homem o atingiria pelas costas antes que conseguisse descer a escada. Preferiu obedecer.
O homem também se sentou no sofá. Com a arma sempre apontada para Pedro, disse:
_ Por sua causa eu matei minha mulher!
Pedro não conseguia entender. Será que tivera algum caso com alguma mulher casada sem saber?
_ Olha, se eu tive alguma coisa com sua mulher quero que saiba que foi sem saber se ela era casada! Qual era o nome dela?
Os olhos do homem passaram da frieza para a raiva.
_ Como ousa achar que Miriam fosse capaz de me trair?
A arma apontada pareceu ainda mais ameaçadora.
_ Desculpe! Eu estou querendo entender como posso ter levado você a matar sua esposa!
O homem pareceu voltar a se controlar. Ficou olhando Pedro sem dizer nada, apenas apontando a arma.
_ Eu nunca conheci nenhuma Miriam! Qual é o seu nome! Eu juro que nunca vi você antes.
O homem balançou a cabeça concordando:
_- Acredito que você nunca tenha me visto, que não saiba meu nome e nem conhecia minha Miriam, mas foi o principal responsável pela desgraça que aconteceu em minha vida!
Pedro suava. A boca estava seca e começou sentir que precisava ir ao banheiro, mas achou que seria humilhante demais pedir. Analisou melhor o homem e concluiu que ele deveria ter uns cinqüenta anos. Mas de onde tirara a idéia de que ele fosse o culpado pelo assassinado da esposa?
O homem acendeu um cigarro sem largar a arma. Pedro detestava que fumassem em sua casa, mas não seria louco em protestar.
Depois e dar algumas tragadas o homem recomeçou:
_ Eu amava Miriam! Ela era tudo que eu tinha na vida, já que não pudemos ter filhos. Tínhamos as nossas brigas, mas eram desavenças comuns entre marido e mulher.
O homem jogava cinzas no caríssimo tapete que Pedro tanto gostava, fazendo com que sua raiva aumentasse.
_ Uma noite eu cheguei tarde. Tinha bebido um pouco demais. Miriam começou reclamar e falar, falar, falar. Eu queria apenas dormir. Mas ela não parava de falar e reclamar. Eu pedi que ela calasse a boca. Mas ela continuou falando e falando. Ela estava mais nervosa do que o normal e me agrediu. Tentei segurá-la, mas ela estava possessa. Acertou um tapa no meu rosto. Em rosto de homem não se bate. Eu perdi a cabeça, fui até a gaveta do criado-mudo. Peguei o revólver e atirei. Uma, duas... três vezes. Miriam levou a mão ao peito e caiu. Em pouco tempo havia uma poça de sangue. Tentei socorrê-la, mas era tarde demais. Por sua culpa, Miriam, o amor da minha vida, estava morta!
Pedro ouvia tudo aquilo de boca aberta tentando descobrir onde ele se encaixava naquela história. Não conseguia. Como poderia ser culpado pelo fato dele ter bebido demais e atirado na mulher?
O homem jogou o toco do cigarro sobre o tapete e pisou, deixando uma marca que, com certeza, ninguém conseguiria tirar. Parou de falar. Seus olhos pareciam olhar o nada. Então Pedro perguntou:
_ Mas como eu posso ser o culpado? Se os dezoito anos de sua vida que você diz que lhe devo, você deve ter passado na cadeia por ter matado sua mulher, que culpa eu tenho? Há dezoito anos eu tinha apenas quatorze!
O homem pareceu voltar de algum lugar mentalmente muito distante.
_ Você já ouviu dizer que o bater de asas de um beija-flor no Peru pode provocar um furacão no Japão?
Pedro, cada vez mais confuso, apenas disse que sim com um sinal afirmativo de cabeça.
_ Pois foi isso que aconteceu! Eu nunca tivera uma arma em casa e jamais pensara em ter. Por sua culpa, comprei uma arma. Se eu não tivesse aquela arma em casa, não teria matado Miriam!
Pedro sentia sua cabeça girar e achou que aquele homem não era apenas um desequilibrado, mas um completo doente mental.
_ Mas o que foi que eu fiz para obrigar você comprar uma arma?
O homem se levantou do sofá e aproximou-se de Pedro com o olhar cada vez mais ameaçador.
_ Você pichou o meu muro. Escreveu palavrões. Eu pintei o muro e você tornou a pichar. Pintei uma segunda vez e, em menos de quinze dias, lá estavam as frases indecentes novamente. Foi por isso que comprei a arma, para acertar as contas com você. Mas, infelizmente, tudo aconteceu antes que você aparecesse novamente com seus sprays.
Pedro lembrou-se que, na adolescência, realmente havia pichado alguns muros. De repente lembrou-se do muro a que o homem se referia. E era verdade, ele tinha se divertido muito na época, obrigando o dono a pintar e voltando para aplicar as frases chulas. Então disse:
_ Se fui eu mesmo que pichei o muro de sua casa, me desculpe! Eu nunca poderia imaginar que aquela brincadeira de criança pudesse ocasionar um fato tão terrível!
O homem engatilhou a arma, encostou o cano na cabeça de Pedro e disse:
_ Vá pedir desculpas à Miriam!
Pedro sentiu seu sangue gelar:
_ Por favor, não faça isso! Foi coisa de criança! Não faça isso...
Pedro ouviu um estampido e em seguida sentiu algo muito estranho dentro do seu cérebro. Tentou imaginar que som era aquele e, antes que tudo se apagasse, definiu que talvez fosse o barulho provocado pelas asas de um beija-flor!
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