Eles se mudaram para a casa virando uma esquina que ficava logo depois da minha. A esquina onde se localizava o bar de meu pai. As duas ruas que se cruzavam ainda não tinham recebido asfalto naquele ano de 1957.
Eu tinha dez anos e minha única preocupação era conseguir boas notas na quarta série sob a orientação da austera dona Sílvia. Que Deus a guarde onde quer que esteja!
Duas coisas naquele casal me chamavam muito a atenção. Ela era uma mulher bonita, muito vistosa e se vestia de forma bem diferente das outras mulheres da vizinhança. Estava sempre com roupas floridas, com decotes acentuados e saias rodadas ou vestidos bastante justos para os padrões da época. Ele tinha um carro, um Chevrolet ano 52 e, em minha opinião de menino, ter um carro naquela época, era ser rico.
O abastado casal tornara-se alvo de todo o tipo de comentários. Sobre Odilon diziam que havia matado a primeira esposa, mas tinha conseguido se safar da Justiça.
A respeito de Magali diziam que já deveria ser amante de Odilon, antes de ele ter cometido o crime. E com base no modo que se vestia acrescentavam que, com certeza, era “uma qualquer”, saída sabe-se lá de qual bordel.
Os vizinhos faziam questão de demonstrar a insatisfação pela presença dos dois e evitavam até os cordiais cumprimentos. Mas tudo isso parecia, (pelo menos aos meus pequenos olhos, que da vida tinham visto pouco), não se importarem com toda animosidade explícita. Demonstravam viver em grande harmonia.
Quando saiam de casa em direção ao carro estavam sempre abraçados e com uma visível felicidade de pessoas apaixonadas. Eu não sabia bem por que, mas gostava de ver os dois juntos. Talvez porque houvesse certa aura de mistério em torno do casal, alguma coisa de proibido.
Foi numa tarde de domingo. Já devia passar das quatro de um dia quente e monótono, sem praticamente nada para fazer. O único som que se ouvia era dos poucos rádios da vizinhança sintonizados em transmissões de partidas de futebol. Tudo isso causava uma espécie de melancolia antecipando o fato de ter que ir à escola no dia seguinte.
Resolvi andar um pouco na minha bicicleta de segunda mão, recebida como presente no último Natal. Quando virei a esquina, Odilon e Magali estavam lavando o carro com a ajuda de uma mangueira e de baldes. Os dois pareciam se divertirem muito. Na rua não tinha mais ninguém naquela sonolenta tarde, e eu resolvi parar um pouco à distância para olhar os dois.
Ela, com uma saia branca rodada e com uma blusa listrada de vermelho e branco, na qual havia dado um nó na altura da cintura. Estava descalça.
Ele apenas de calça, sem camisa e calçando chinelos.
Odilon, agachado, lavava uma das rodas. Sem que ele esperasse, ela pegou a mangueira e lançou um jorro de água nas suas costas. O homem levantou-se de imediato e correu atrás da mulher que dava voltas em torno do carro. Ao alcançá-la, abraçou-a por trás. Os dois riam a riso solto, e foi quando me viram. Ela, ainda com os braços de Odilon em torno de sua cintura, disse:
_ Olá!
O seu sorriso era franco e maravilhoso.
Eu só correspondi levantando uma das mãos que estavam no guidão da bicicleta.
Odilon continuou abraçando a mulher por trás e perguntou:
_ Quer nos ajudar? Depois vamos dar uma volta e levamos você junto!
A proposta mostrava-se mais do que tentadora. Dar um passeio naquele carro era tudo que eu poderia querer numa tarde de domingo como aquela.
Deitei a bicicleta no chão, próxima ao meio-fio, e fui ajudar o casal.
Magali aproximou-se e, passando a mão nos meus cabelos, perguntou:
_ Qual o seu nome?
_ Toninho – respondi sem olhar para ela.
_ Você é filho do dono do bar, não é?
Eu concordei balançando a cabeça em sinal afirmativo e ela continuou:
_ Você está na escola?
Novamente só usei a cabeça para responder.
Ao perceber que eu era de poucas palavras, ou talvez estivesse um tanto tímido, decidiu parar com as perguntas.
Continuamos a lavar o carro enquanto os dois não paravam de brincar e rir. Aquilo tudo me agradava. Na minha quase nada experiência conclui que não seria possível que Odilon fosse capaz de ter matado a esposa, e Magali não poderia ser uma mulher da vida.
Terminada a tarefa, cumpriram o prometido. Vestiram roupas secas e rapidamente voltaram, guardaram minha bicicleta no alpendre da casa e fizeram com que eu me sentasse banco traseiro do carro.
Aqueles bancos de couro me causaram uma agradável sensação e eu queria ficar recostado, mas se assim fizesse não conseguia ver a paisagem. Então resolvi fazer, ora uma coisa, ora outra.
Enquanto Odilon dirigia, Magali estava posicionada bem próxima a ele e colocava seu braço esquerdo em torno do pescoço do homem.
Não foi um longo passeio, mas o suficiente para me deixar realizado. Eu havia dado uma volta naquele carro que tanto me atraia.
Quando chegamos, peguei minha bicicleta, agradeci timidamente e antes que saísse em direção à minha casa, Magali me deu um beijo no rosto.
Devo ter ficado vermelho porque minha reação causou risos nos dois. Sai rapidamente e assim que virei a esquina levei minha mão sobre a face que havia sido beijada. Fora uma coisa muito diferente dos beijos que recebia de minha mãe, tias e avós. Tinha algo muito especial que eu não conseguia identificar ou definir.
Ao chegar em casa, minha mãe quis saber por onde eu tinha andado e respondi que estava dando umas voltas de bicicleta. Não quis contar que havia passado o resto da tarde com aquele casal, com medo de receber uma reprimenda e ficar de castigo.
Na semana seguinte eu vi o casal apenas três vezes. Em duas delas nem Odilon, nem Magali me viram. Na outra, encontrava-me na porta do bar do meu pai e eles chegaram de carro. Ao descer, Magali me viu e acenou com a mão, coisa que não passou despercebida ao meu pai, que me olhou com certa surpresa. Eu, por minha vez, respondi ao aceno, procurando demonstrar a maior naturalidade, e fingi não ter percebido o olhar desconfiado de meu pai.
Mais tarde, quando voltei da escola, meu pai me chamou:
_ Toninho, venha cá! – a sua voz estava como sempre quando ele se preparava para me dar uma bronca ou queria descobrir alguma que eu pudesse ter aprontado.
Aproximei-me e fiquei aguardando de cabeça baixa o que tinha a me dizer, pois já conhecia todo o ritual: ele iria ficar me olhando de cima a baixo e depois levantaria meu olhar em direção ao seu, usando uma das mãos sob o meu queixo.
_ Toninho, você fez amizade com esse casal aí do lado?
Eu balancei a cabeça negativamente, mas não consegui manter meu olhar no dele.
_ Não minta, Toninho. Não minta porque você sabe que eu acabo descobrindo. – a voz dele estava mais grave do que de costume.
Então eu contei o que havia ocorrido na tarde do domingo. Meu pai deixou que eu terminasse, e apenas disse:
_ Que tenha sido a última vez. Não quero que você se aproxime mais desse casal. Está entendido?
Eu disse que sim com um aceno de cabeça, e ele terminou:
_ Agora vá tomar banho que daqui a pouco vamos jantar.
Sai rapidamente em direção à minha casa. Fui direto para o banheiro e coloquei a grande bacia no chão enquanto gritava:
_ Mãe, traz a água quente pra eu tomar banho!
Minha mãe, com um balde pegou parte da água do grande caldeirão que fervia sobre a chapa do fogão a lenha. Depois de misturar a água quente com a fria, e experimentar a temperatura com a mão, saiu dizendo:
_ E vê se não faz toda aquela esparramação de água por todo o banheiro!
Assim que ela saiu, eu fechei a porta e entrei na bacia. A temperatura da água estava bastante agradável e enquanto me banhava fiquei imaginando como poderia continuar conversando com Odilon e Magali sem que meu pai percebesse. Não sabia ainda, mas com certeza iria arrumar um jeito.
Eu vinha descendo a rua, e Magali estava sentada à soleira de seu portão. Seus cabelos molhados e soltos mostravam que havia acabado de tomar banho. Pensei em passar direto, mas quando me aproximei ela perguntou:
_ Quer pitanga, Toninho?
Eu olhei para a esquina pra ver se meu pai não estava à vista e, em seguida, para a mão de dedos longos e finos que se estendia em minha direção. Ela estava cheia de pitangas, fruto que sempre gostei. Estendi minha mão e peguei uma.
Ela sorriu e, num gesto de novo oferecimento disse:
_ Só uma? Pega mais!
Peguei mais algumas e Magali perguntou:
_ Você gosta de pitangas?
Respondi afirmativamente com a cabeça e ela convidou:
_ Então entra aqui! Lá no quintal tem um pé carregado. Vamos apanhar mais algumas.
A tentação era muito forte. Tornei a olhar em direção à esquina.
_ Seu pai acabou de sair de caminhão com o vizinho ai da frente. Pode vir! – disse ela percebendo minha inquietação.
Pensei mais um pouco e decidi que as pitangas valeriam o risco de uma possível bronca acompanhada de um castigo. Atravessamos a casa e saímos pela porta da cozinha, em direção ao quintal.
Era verdade, o pé de pitangas estava carregadinho e Magali disse:
_ Pode pegar quantas quiser!
Corri em direção à árvore e fui seguido por ela. Passamos um bom tempo apanhando as frutas que a mulher ia recolhendo em seu vestido levantado pela barra. A combinação que ela usava era bem transparente e eu pude ver boa parte de suas pernas muito brancas.
Ao terminarmos a colheita, sentamo-nos junto ao tanque e começamos a nos deliciar com as frutas. Eu comia com muita avidez o que fez Magali comentar:
_ Você gosta mesmo de pitangas, hein!
Eu começa a me soltar e a conversar. Perguntei de Odilon e me disse que ele tinha viajado até uma cidade próxima a trabalho, e que talvez não voltasse naquele dia. E como criança não tem medida depois que começa falar eu me atrevi e perguntei:
_ É verdade que Odilon matou a mulher dele?
O sorriso desapareceu do rosto de Magali. Ela abaixou a cabeça e em seguida pegou uma folha de jornal, improvisou um canudo que encheu com pitangas, me entregou e disse com ar bastante sério:
_ Está na hora de você ir! Seu pai pode chegar e não vai gostar de saber que você entrou aqui.
Apesar de concordar com o seu argumento, não pude deixar de notar que havia sido indiscreto e que minha pergunta mexera muito com ela.
Peguei o canudo e sai, não sem antes dar uma olhada para comprovar se não havia ninguém que pudesse me ver. O caminho estava livre e eu fui direto para um terreno baldio quase em frente, para acabar de me fartar com as pitangas, pois não poderia chegar em casa com elas.
Enquanto chupava as frutas, tentei entender o que havia acontecido! Sabia que tinha feito algo que não devia e me senti mal porque eu gostava muito de Magali. Assim que tivesse oportunidade eu iria dar um jeito de arrumar tudo.
Na manha seguinte, percebi que o carro de Odilon não estava em frente da casa. Será que ele tinha saído bem cedo ou ainda não voltara de sua viagem?
Passei em frente da casa algumas vezes, mas porta e janelas continuavam fechadas como se ninguém tivesse ainda acordado. E foi assim toda a manhã
À tarde, assim que voltei da escola, peguei minha bicicleta e passei novamente em frente da casa. Tudo continuava como de manhã. Não era possível que Magali ainda não tivesse se levantado.
Já à noitinha, tentei mais uma vez e tudo estava às escuras. Fui para casa e naquela noite demorei para pegar no sono, intrigado com o que poderia ter acontecido.
Acordei com a voz de dona Nair conversando com minha mãe. Nossa vizinha, como todo o bom descendente de italiano, falava alto. Assim que me senti desperto comecei a entender o que ela falava.
_ ... o acidente foi muito feio. O senhor Nelson passou logo em seguida com o seu caminhão e disse que o trem pegou o carro em cheio. O senhor Nelson ajudou a tirar o homem de dentro do carro e ele foi trazido para o hospital Santa Cecília, mas não teve jeito.
Depois de uma pequena pausa, a voz de dona Nair soou como uma trombeta de anjo vingador:
_ É, fugir da justiça dos homens é fácil, mas da justiça de Deus ninguém escapa!
Eu me levantei correndo, e fui até ao quintal onde vi minha mãe debruçada na cerca baixa que separava o nosso quintal do de dona Nair. Cheguei devagar e perguntei:
_ Mãe! O que aconteceu?
Minha mãe procurou minimizar o fato e disse:
_ O Odilon, aquele homem que mudou há pouco tempo aí na casa ao lado do bar, sofreu um desastre de carro!
Voltei para dentro de casa profundamente abalado. Então era por isso que a casa tinha ficado fechada durante todo o dia anterior? Magali tinha ido ao hospital para ficar ao lado de Odilon.
Lavei o rosto, escovei os dentes e, mesmo sem tomar o café da manhã, fui até ao bar de meu pai, pois tinha certeza que ali conseguiria mais informações.
Um grupo de homens estava postado de pé na esquina e conversando sobre o terrível desastre. Eu me aproximei e fiquei ouvindo. O senhor Nelson disse:
_ Não teve jeito, não! Ele acabou morrendo na madrugada de hoje e o velório vai ser lá no hospital mesmo. Eles não têm ninguém da família aqui por perto. Eu não sei como vai ser!
_ Não vai ter nem gente para carregar o caixão! – comentou o senhor Mazzei que tinha uma quitanda no quarteirão de baixo.
_ Independente de tudo, nós vamos ter que formar um grupo e ir ao velório, nem se for só para carregar o caixão! – quem sugeriu foi meu pai.
Todos concordaram e saíram rumo às suas casas para se prepararem.
Quando meu pai me viu percebeu que eu estava um tanto assustado e me chamou:
_ Toninho! Você já soube?
Eu disse que sim com a cabeça e tomei coragem para pedir:
_ Eu quero ir junto com o senhor!
Meu pai não demonstrou muita surpresa, na realidade parecia que esperava meu pedido.
_ Então vá pedir para sua mãe trocar a sua roupa que daqui a pouco nós vamos.
Quando eu disse para minha mãe que iria ao velório ela começou a falar, como sempre fazia:
_ Vai lá fazer o quê? Velório não é lugar de criança! Se fosse algum parente ainda vá lá. Mas de uma pessoa que mal conhecemos...
Mas como a ordem viera de meu pai, ela fez o que havia sido pedido. Logo em seguida meu pai me chamou no portão e fomos todos no caminhão do senhor Nelson.
Quando chegamos, comecei a ficar com um pouco de medo e pensei em voltar atrás, mas alguma coisa muito forte me impelia para dentro. Entrei e vi o caixão. Na cabeceira, sentada em uma cadeira estava Magali, de cabeça baixa e com as duas mãos jogadas sobre o colo. Aproximei-me e pareceu que ela não tinha percebido. Cheguei mais perto e ainda nada. Então criei coragem e coloquei minha mão sobre as dela. Magali pareceu levar um susto e levantou a cabeça me olhando. Seus olhos estavam vermelhos, e algumas lágrimas ainda corriam desde as fortes olheiras ao queixo. Tentou sorrir, mas não conseguiu e apenas envolveu minha mão com as suas.
Sentei ao seu lado e durante todo tempo ela ficou segurando minha mão, sem que nenhum dos dois dissesse qualquer palavra.
Chegada a hora, o grupo de vizinhos carregou o caixão, em revezamento. Não havia nenhuma outra mulher no local. Apenas Magali, que continuava segurando minha mão durante todo o trajeto e até ao final do sepultamento.
Assim que tudo terminou meu pai colocou a mão no meu ombro numa clara ordem que era hora de ir. Magali percebeu, se abaixou, pegou meu rosto com as duas mãos olhando fixamente nos meus olhos. Beijou minha testa e disse com voz quase sumida:
_ Deus te abençoe, Toninho!
Saímos com meu pai me levando pela mão. Até chegar ao portão do cemitério eu caminhei olhando para trás. Magali continuava ao lado da cova que os coveiros continuavam a cobrir com terra. Eu tinha uma forte dor no coração. Aquela foi a primeira vez de muitas que vim a sentir tal dor ao longo de minha vida.
Quando chegamos em casa, desci rapidamente do caminhão do senhor Nelson e corri para o meu quarto. Fechei a porta e fiquei deitado na cama por todo o resto do dia. A imagem de Magali não me saia da cabeça. Havia em mim um forte sentimento de pena e de perda.
Era noite quando sai do quarto. Fui ao bar de meu pai e fiquei encostado na parede da esquina esperando que Magali viesse.
Já estava quase desistindo quando um carro de praça virou a esquina e parou em frente da casa dela. Depois de alguns segundos para acertar a corrida com o motorista, Magali desceu. Meu pai também percebeu sua chegada e veio até à porta.
Enquanto a mulher procurava a chave dentro de sua bolsa, olhou para mim e conseguiu sorrir. Eu olhei para meu pai pedindo consentimento e ele fez um pequeno gesto de afirmação, muito mais com os olhos do que com a cabeça.
Fui até ela. Ao perceber que ia ao seu encontro esperou que eu me aproximasse para depois entrar na casa. Eu a segui.
Abriu a porta, acendeu a luz e jogou a bolsa sobre a mesa da sala. Eu entrei sem que fosse convidado, pois sabia que poderia.
Ela sentou-se numa cadeira e mais uma vez caiu num choro quase que descontrolado.
Aproximei-me e passei minha mão nos seus cabelos despenteados. Aos poucos ela foi se acalmando. O choro foi se transformando em suspiros até que parasse.
Ficamos um tempo em silêncio e Magali então disse:
_ Toninho, guarde sempre em sua lembrança o que você fez hoje! Foi o gesto mais bonito que alguém fez por mim em toda minha vida.
Em seguida beijou minhas duas faces e me pegou no colo. Fez uma pausa como se tivesse pensando e continuou:
_ Outro dia você me fez uma pergunta que ficou sem resposta. Você merece saber. Sim, o Odilon matou a ex-mulher dele, mas foi um acidente. Eles tiveram uma briga e ela o atacou com uma faca de cozinha. Na tentativa de tomar a faca da mão dela os dois caíram no chão e ela caiu sobre a faca. Ele foi julgado e ficou provado que tinha sido um acidente. Foi inocentado pela Justiça, mas nunca conseguiu ser absolvido pela sociedade.
Eu não entendia muito bem tudo aquilo que ela dizia, só muitos anos mais tarde fui capaz de compreender. E ela continuou:
_ E a pergunta que você não fez, mas sei que se tivéssemos tido tempo você faria. Sim, eu fui uma mulher da vida. Mas não conhecia Odilon antes do acidente em que sua mulher morreu. Foi tempos depois que nos conhecemos. Nós nos apaixonamos e ele resolveu me tirar da vida que eu levava, sem nunca perguntar nada sobre o meu passado. Ele era um homem muito bom, Toninho. O melhor homem que encontrei em toda a minha vida, pois pelos outros fui tratada como se fosse uma coisa qualquer. Eu estava completamente desiludida em relação aos homens até que Odilon surgiu na minha vida. Eu pensava que ele era o único, e que se um dia se fosse tudo voltaria a ser como sempre foi. Mas ai apareceu você. Um menino que me mostrou que será um bom homem, tão bom ou melhor que Odilon. Obrigado por ser meu amigo, Toninho. O melhor amigo que já tive.
Eu não sei bem por que, mas dei um beijo no rosto de Magali antes de sair do seu colo. Corri direto pra casa. Dentro do meu quarto chorei baixinho até conseguir pegar no sono.
No dia seguinte fui até à casa de Magali, que novamente estava fechada.
Durante três dias tudo permaneceu assim. Até que numa manhã encostou um caminhão. Vários homens faziam a mudança ao comando de uma mulher que eu nunca vira.
Aproximei-me e fiquei olhando os móveis serem carregados. Quando a mulher me viu disse:
_ Você deve ser o Toninho, não é?
Fiquei surpreso por ela saber meu nome e afirmei que sim com a cabeça.
_ A Magali é minha irmã e me falou muito de você. Ela vai morar conosco em outra cidade e pediu que eu cuidasse da mudança.
Eu já estava voltando de cabeça baixa quando ela falou:
_ Ah! Ela me disse que se acaso você aparecesse era para eu dizer que ela nunca vai se esquecer de você. E que você sempre será o melhor amigo dela, tá bom?
Disse aquilo sem a emoção que Magali teria tido, mas eu consegui sentir do jeito que ela tinha pretendido.
Depois que o caminhão foi embora, voltei até em frente da casa. Fiquei olhando por um tempo e decidi.
Pulei o muro e fui direto ao pé de pitanga. Fiquei um tempo olhando para ele e depois comecei chupar as frutas como se cada uma fosse um beijo doce de Magali.

