segunda-feira, 30 de maio de 2011

O pé de pitanga





Eu tinha dez anos e minha única preocupação era conseguir boas notas na quarta série sob a orientação da austera dona Sílvia. Que Deus a guarde onde quer que esteja!
            Duas coisas naquele casal me chamavam muito a atenção. Ela era uma mulher bonita, muito vistosa e se vestia de forma bem diferente das outras mulheres da vizinhança. Estava sempre com roupas floridas, com decotes acentuados e saias rodadas ou vestidos bastante justos para os padrões da época. Ele tinha um carro, um Chevrolet ano 52 e, em minha opinião de menino, ter um carro naquela época, era ser rico.
O abastado casal tornara-se alvo de todo o tipo de comentários. Sobre Odilon diziam que havia matado a primeira esposa, mas tinha conseguido se safar da Justiça.
A respeito de Magali diziam que já deveria ser amante de Odilon, antes de ele ter cometido o crime. E com base no modo que se vestia acrescentavam que, com certeza, era “uma qualquer”, saída sabe-se lá de qual bordel.
Os vizinhos faziam questão de demonstrar a insatisfação pela presença dos dois e evitavam até os cordiais cumprimentos. Mas tudo isso parecia, (pelo menos aos meus pequenos olhos, que da vida tinham visto pouco), não se importarem com toda animosidade explícita. Demonstravam viver em grande harmonia.
Quando saiam de casa em direção ao carro estavam sempre abraçados e com uma visível felicidade de pessoas apaixonadas. Eu não sabia bem por que, mas gostava de ver os dois juntos. Talvez porque houvesse certa aura de mistério em torno do casal, alguma coisa de proibido.
Foi numa tarde de domingo. Já devia passar das quatro de um dia quente e monótono, sem praticamente nada para fazer. O único som que se ouvia era dos poucos rádios da vizinhança sintonizados em transmissões de partidas de futebol. Tudo isso causava uma espécie de melancolia antecipando o fato de ter que ir à escola no dia seguinte.
Resolvi andar um pouco na minha bicicleta de segunda mão, recebida como presente no último Natal. Quando virei a esquina, Odilon e Magali estavam lavando o carro com a ajuda de uma mangueira e de baldes. Os dois pareciam se divertirem muito. Na rua não tinha mais ninguém naquela sonolenta tarde, e eu resolvi parar um pouco à distância para olhar os dois.
Ela, com uma saia branca rodada e com uma blusa listrada de vermelho e branco, na qual havia dado um nó na altura da cintura. Estava descalça.
Ele apenas de calça, sem camisa e calçando chinelos.
Odilon, agachado, lavava uma das rodas. Sem que ele esperasse, ela pegou a mangueira e lançou um jorro de água nas suas costas. O homem levantou-se de imediato e correu atrás da mulher que dava voltas em torno do carro. Ao alcançá-la, abraçou-a por trás. Os dois riam a riso solto, e foi quando me viram. Ela, ainda com os braços de Odilon em torno de sua cintura, disse:
_ Olá!
O seu sorriso era franco e maravilhoso.
Eu só correspondi levantando uma das mãos que estavam no guidão da bicicleta.
Odilon continuou abraçando a mulher por trás e perguntou:
_ Quer nos ajudar? Depois vamos dar uma volta e levamos você junto!
A proposta mostrava-se mais do que tentadora. Dar um passeio naquele carro era tudo que eu poderia querer numa tarde de domingo como aquela.
Deitei a bicicleta no chão, próxima ao meio-fio, e fui ajudar o casal.
Magali aproximou-se e, passando a mão nos meus cabelos, perguntou:
_ Qual o seu nome?
_ Toninho – respondi sem olhar para ela.
_ Você é filho do dono do bar, não é?
Eu concordei balançando a cabeça em sinal afirmativo e ela continuou:
_ Você está na escola?
Novamente só usei a cabeça para responder.
Ao perceber que eu era de poucas palavras, ou talvez estivesse um tanto tímido, decidiu parar com as perguntas.
Continuamos a lavar o carro enquanto os dois não paravam de brincar e rir.  Aquilo tudo me agradava. Na minha quase nada experiência conclui que não seria possível que Odilon fosse capaz de ter matado a esposa, e Magali não poderia ser uma mulher da vida.
Terminada a tarefa, cumpriram o prometido. Vestiram roupas secas e rapidamente voltaram, guardaram minha bicicleta no alpendre da casa e fizeram com que eu me sentasse banco traseiro do carro.
Aqueles bancos de couro me causaram uma agradável sensação e eu queria ficar recostado, mas se assim fizesse não conseguia ver a paisagem. Então resolvi fazer, ora uma coisa, ora outra.
Enquanto Odilon dirigia, Magali estava posicionada bem próxima a ele e colocava seu braço esquerdo em torno do pescoço do homem.
Não foi um longo passeio, mas o suficiente para me deixar realizado. Eu havia dado uma volta naquele carro que tanto me atraia.
Quando chegamos, peguei minha bicicleta, agradeci timidamente e antes que saísse em direção à minha casa, Magali me deu um beijo no rosto.
Devo ter ficado vermelho porque minha reação causou risos nos dois. Sai rapidamente e assim que virei a esquina levei minha mão sobre a face que havia sido beijada. Fora uma coisa muito diferente dos beijos que recebia de minha mãe, tias e avós. Tinha algo muito especial que eu não conseguia identificar ou definir.
Ao chegar em casa, minha mãe quis saber por onde eu tinha andado e respondi que estava dando umas voltas de bicicleta. Não quis contar que havia passado o resto da tarde com aquele casal, com medo de receber uma reprimenda e ficar de castigo.
            Na semana seguinte eu vi o casal apenas três vezes. Em duas delas nem Odilon, nem Magali me viram. Na outra, encontrava-me na porta do bar do meu pai e eles chegaram de carro. Ao descer, Magali me viu e acenou com a mão, coisa que não passou despercebida ao meu pai, que me olhou com certa surpresa. Eu, por minha vez, respondi ao aceno, procurando demonstrar a maior naturalidade, e fingi não ter percebido o olhar desconfiado de meu pai.
Mais tarde, quando voltei da escola, meu pai me chamou:
_ Toninho, venha cá! – a sua voz estava como sempre quando ele se preparava para me dar uma bronca ou queria descobrir alguma que eu pudesse ter aprontado.
Aproximei-me e fiquei aguardando de cabeça baixa o que tinha a me dizer, pois já conhecia todo o ritual: ele iria ficar me olhando de cima a baixo e depois levantaria meu olhar em direção ao seu, usando uma das mãos sob o meu queixo.
_ Toninho, você fez amizade com esse casal aí do lado?
Eu balancei a cabeça negativamente, mas não consegui manter meu olhar no dele.
_ Não minta, Toninho. Não minta porque você sabe que eu acabo descobrindo. – a voz dele estava mais grave do que de costume.
Então eu contei o que havia ocorrido na tarde do domingo. Meu pai deixou que eu terminasse, e apenas disse:
_ Que tenha sido a última vez. Não quero que você se aproxime mais desse casal. Está entendido?
Eu disse que sim com um aceno de cabeça, e ele terminou:
_ Agora vá tomar banho que daqui a pouco vamos jantar.
Sai rapidamente em direção à minha casa. Fui direto para o banheiro e coloquei a grande bacia no chão enquanto gritava:
_ Mãe, traz a água quente pra eu tomar banho!
Minha mãe, com um balde pegou parte da água do grande caldeirão que fervia sobre a chapa do fogão a lenha. Depois de misturar a água quente com a fria, e experimentar a temperatura com a mão, saiu dizendo:
_ E vê se não faz toda aquela esparramação de água por todo o banheiro!
Assim que ela saiu, eu fechei a porta e entrei na bacia. A temperatura da água estava bastante agradável e enquanto me banhava fiquei imaginando como poderia continuar conversando com Odilon e Magali sem que meu pai percebesse. Não sabia ainda, mas com certeza iria arrumar um jeito.
Eu vinha descendo a rua, e Magali estava sentada à soleira de seu portão. Seus cabelos molhados e soltos mostravam que havia acabado de tomar banho. Pensei em passar direto, mas quando me aproximei ela perguntou:
_ Quer pitanga, Toninho?
Eu olhei para a esquina pra ver se meu pai não estava à vista e, em seguida, para a mão de dedos longos e finos que se estendia em minha direção. Ela estava cheia de pitangas, fruto que sempre gostei. Estendi minha mão e peguei uma.
Ela sorriu e, num gesto de novo oferecimento disse:
_ Só uma? Pega mais!
Peguei mais algumas e Magali perguntou:
_ Você gosta de pitangas?
Respondi afirmativamente com a cabeça e ela convidou:
_ Então entra aqui! Lá no quintal tem um pé carregado. Vamos apanhar mais algumas.
A tentação era muito forte. Tornei a olhar em direção à esquina.
_ Seu pai acabou de sair de caminhão com o vizinho ai da frente. Pode vir! – disse ela percebendo minha inquietação.
Pensei mais um pouco e decidi que as pitangas valeriam o risco de uma possível bronca acompanhada de um castigo. Atravessamos a casa e saímos pela porta da cozinha, em direção ao quintal.
Era verdade, o pé de pitangas estava carregadinho e Magali disse:
_ Pode pegar quantas quiser!
Corri em direção à árvore e fui seguido por ela. Passamos um bom tempo apanhando as frutas que a mulher ia recolhendo em seu vestido levantado pela barra. A combinação que ela usava era bem transparente e eu pude ver boa parte de suas pernas muito brancas.
Ao terminarmos a colheita, sentamo-nos junto ao tanque e começamos a nos deliciar com as frutas. Eu comia com muita avidez o que fez Magali comentar:
_ Você gosta mesmo de pitangas, hein!
Eu começa a me soltar e a conversar. Perguntei de Odilon e me disse que ele tinha viajado até uma cidade próxima a trabalho, e que talvez não voltasse naquele dia. E como criança não tem medida depois que começa falar eu me atrevi e perguntei:
_ É verdade que Odilon matou a mulher dele?
O sorriso desapareceu do rosto de Magali. Ela abaixou a cabeça e em seguida pegou uma folha de jornal, improvisou um canudo que encheu com pitangas, me entregou e disse com ar bastante sério:
_ Está na hora de você ir! Seu pai pode chegar e não vai gostar de saber que você entrou aqui.
Apesar de concordar com o seu argumento, não pude deixar de notar que havia sido indiscreto e que minha pergunta mexera muito com ela.
Peguei o canudo e sai, não sem antes dar uma olhada para comprovar se não havia ninguém que pudesse me ver. O caminho estava livre e eu fui direto para um terreno baldio quase em frente, para acabar de me fartar com as pitangas, pois não poderia chegar em casa com elas.
Enquanto chupava as frutas, tentei entender o que havia acontecido! Sabia que tinha feito algo que não devia e me senti mal porque eu gostava muito de Magali. Assim que tivesse oportunidade eu iria dar um jeito de arrumar tudo.
Na manha seguinte, percebi que o carro de Odilon não estava em frente da casa. Será que ele tinha saído bem cedo ou ainda não voltara de sua viagem?
Passei em frente da casa algumas vezes, mas porta e janelas continuavam fechadas como se ninguém tivesse ainda acordado. E foi assim toda a manhã
À tarde, assim que voltei da escola, peguei minha bicicleta e passei novamente em frente da casa. Tudo continuava como de manhã. Não era possível que Magali ainda não tivesse se levantado.
Já à noitinha, tentei mais uma vez e tudo estava às escuras. Fui para casa e naquela noite demorei para pegar no sono, intrigado com o que poderia ter acontecido.
Acordei com a voz de dona Nair conversando com minha mãe. Nossa vizinha, como todo o bom descendente de italiano, falava alto. Assim que me senti desperto comecei a entender o que ela falava.
_ ... o acidente foi muito feio. O senhor Nelson passou logo em seguida com o seu caminhão e disse que o trem pegou o carro em cheio. O senhor Nelson ajudou a tirar o homem de dentro do carro e ele foi trazido para o hospital Santa Cecília, mas não teve jeito.
Depois de uma pequena pausa, a voz de dona Nair soou como uma trombeta de anjo vingador:
_ É, fugir da justiça dos homens é fácil, mas da justiça de Deus ninguém escapa!
Eu me levantei correndo, e fui até ao quintal onde vi minha mãe debruçada na cerca baixa que separava o nosso quintal do de dona Nair. Cheguei devagar e perguntei:
_ Mãe! O que aconteceu?
Minha mãe procurou minimizar o fato e disse:
_ O Odilon, aquele homem que mudou há pouco tempo aí na casa ao lado do bar, sofreu um desastre de carro!
Voltei para dentro de casa profundamente abalado. Então era por isso que a casa tinha ficado fechada durante todo o dia anterior? Magali tinha ido ao hospital para ficar ao lado de Odilon.
Lavei o rosto, escovei os dentes e, mesmo sem tomar o café da manhã, fui até ao bar de meu pai, pois tinha certeza que ali conseguiria mais informações.
Um grupo de homens estava postado de pé na esquina e conversando sobre o terrível desastre. Eu me aproximei e fiquei ouvindo. O senhor Nelson disse:
_ Não teve jeito, não! Ele acabou morrendo na madrugada de hoje e o velório vai ser lá no hospital mesmo. Eles não têm ninguém da família aqui por perto. Eu não sei como vai ser!
_ Não vai ter nem gente para carregar o caixão! – comentou o senhor Mazzei que tinha uma quitanda no quarteirão de baixo.
_ Independente de tudo, nós vamos ter que formar um grupo e ir ao velório, nem se for só para carregar o caixão! – quem sugeriu foi meu pai.
Todos concordaram e saíram rumo às suas casas para se prepararem.
Quando meu pai me viu percebeu que eu estava um tanto assustado e me chamou:
_ Toninho! Você já soube?
Eu disse que sim com a cabeça e tomei coragem para pedir:
_ Eu quero ir junto com o senhor!
Meu pai não demonstrou muita surpresa, na realidade parecia que esperava meu pedido.
_ Então vá pedir para sua mãe trocar a sua roupa que daqui a pouco nós vamos.
Quando eu disse para minha mãe que iria ao velório ela começou a falar, como sempre fazia:
_ Vai lá fazer o quê? Velório não é lugar de criança! Se fosse algum parente ainda vá lá. Mas de uma pessoa que mal conhecemos...
Mas como a ordem viera de meu pai, ela fez o que havia sido pedido. Logo em seguida meu pai me chamou no portão e fomos todos no caminhão do senhor Nelson.
Quando chegamos, comecei a ficar com um pouco de medo e pensei em voltar atrás, mas alguma coisa muito forte me impelia para dentro. Entrei e vi o caixão. Na cabeceira, sentada em uma cadeira estava Magali, de cabeça baixa e com as duas mãos jogadas sobre o colo. Aproximei-me e pareceu que ela não tinha percebido. Cheguei mais perto e ainda nada. Então criei coragem e coloquei minha mão sobre as dela. Magali pareceu levar um susto e levantou a cabeça me olhando. Seus olhos estavam vermelhos, e algumas lágrimas ainda corriam desde as fortes olheiras ao queixo. Tentou sorrir, mas não conseguiu e apenas envolveu minha mão com as suas.
Sentei ao seu lado e durante todo tempo ela ficou segurando minha mão, sem que nenhum dos dois dissesse qualquer palavra.
Chegada a hora, o grupo de vizinhos carregou o caixão, em revezamento. Não havia nenhuma outra mulher no local. Apenas Magali, que continuava segurando minha mão durante todo o trajeto e até ao final do sepultamento.
Assim que tudo terminou meu pai colocou a mão no meu ombro numa clara ordem que era hora de ir. Magali percebeu, se abaixou, pegou meu rosto com as duas mãos olhando fixamente nos meus olhos. Beijou minha testa e disse com voz quase sumida:
_ Deus te abençoe, Toninho!
Saímos com meu pai me levando pela mão. Até chegar ao portão do cemitério eu caminhei olhando para trás. Magali continuava ao lado da cova que os coveiros continuavam a cobrir com terra. Eu tinha uma forte dor no coração. Aquela foi a primeira vez de muitas que vim a sentir tal dor ao longo de minha vida.
Quando chegamos em casa, desci rapidamente do caminhão do senhor Nelson e corri para o meu quarto. Fechei a porta e fiquei deitado na cama por todo o resto do dia. A imagem de Magali não me saia da cabeça. Havia em mim um forte sentimento de pena e de perda.
Era noite quando sai do quarto. Fui ao bar de meu pai e fiquei encostado na parede da esquina esperando que Magali viesse.
Já estava quase desistindo quando um carro de praça virou a esquina e parou em frente da casa dela. Depois de alguns segundos para acertar a corrida com o motorista, Magali desceu. Meu pai também percebeu sua chegada e veio até à porta.
Enquanto a mulher procurava a chave dentro de sua bolsa, olhou para mim e conseguiu sorrir. Eu olhei para meu pai pedindo consentimento e ele fez um pequeno gesto de afirmação, muito mais com os olhos do que com a cabeça.
Fui até ela. Ao perceber que ia ao seu encontro esperou que eu me aproximasse para depois entrar na casa. Eu a segui.
Abriu a porta, acendeu a luz e jogou a bolsa sobre a mesa da sala. Eu entrei sem que fosse convidado, pois sabia que poderia.
Ela sentou-se numa cadeira e mais uma vez caiu num choro quase que descontrolado.
Aproximei-me e passei minha mão nos seus cabelos despenteados. Aos poucos ela foi se acalmando. O choro foi se transformando em suspiros até que parasse.
Ficamos um tempo em silêncio e Magali então disse:
_ Toninho, guarde sempre em sua lembrança o que você fez hoje! Foi o gesto mais bonito que alguém fez por mim em toda minha vida.
Em seguida beijou minhas duas faces e me pegou no colo. Fez uma pausa como se tivesse pensando e continuou:
_ Outro dia você me fez uma pergunta que ficou sem resposta. Você merece saber. Sim, o Odilon matou a ex-mulher dele, mas foi um acidente. Eles tiveram uma briga e ela o atacou com uma faca de cozinha. Na tentativa de tomar a faca da mão dela os dois caíram no chão e ela caiu sobre a faca. Ele foi julgado e ficou provado que tinha sido um acidente. Foi inocentado pela Justiça, mas nunca conseguiu ser absolvido pela sociedade.
Eu não entendia muito bem tudo aquilo que ela dizia, só muitos anos mais tarde fui capaz de compreender. E ela continuou:
_ E a pergunta que você não fez, mas sei que se tivéssemos tido tempo você faria. Sim, eu fui uma mulher da vida. Mas não conhecia Odilon antes do acidente em que sua mulher morreu. Foi tempos depois que nos conhecemos. Nós nos apaixonamos e ele resolveu me tirar da vida que eu levava, sem nunca perguntar nada sobre o meu passado. Ele era um homem muito bom, Toninho. O melhor homem que encontrei em toda a minha vida, pois pelos outros fui tratada como se fosse uma coisa qualquer. Eu estava completamente desiludida em relação aos homens até que Odilon surgiu na minha vida. Eu pensava que ele era o único, e que se um dia se fosse tudo voltaria a ser como sempre foi. Mas ai apareceu você. Um menino que me mostrou que será um bom homem, tão bom ou melhor que Odilon. Obrigado por ser meu amigo, Toninho. O melhor amigo que já tive.
Eu não sei bem por que, mas dei um beijo no rosto de Magali antes de sair do seu colo. Corri direto pra casa. Dentro do meu quarto chorei baixinho até conseguir pegar no sono.
No dia seguinte fui até à casa de Magali, que novamente estava fechada.
            Durante três dias tudo permaneceu assim. Até que numa manhã encostou um caminhão. Vários homens faziam a mudança ao comando de uma mulher que eu nunca vira.
            Aproximei-me e fiquei olhando os móveis serem carregados. Quando a mulher me viu disse:
            _ Você deve ser o Toninho, não é?
Fiquei surpreso por ela saber meu nome e afirmei que sim com a cabeça.
_ A Magali é minha irmã e me falou muito de você. Ela vai morar conosco em outra cidade e pediu que eu cuidasse da mudança.
Eu já estava voltando de cabeça baixa quando ela falou:
_ Ah! Ela me disse que se acaso você aparecesse era para eu dizer que ela nunca vai se esquecer de você. E que você sempre será o melhor amigo dela, tá bom?
Disse aquilo sem a emoção que Magali teria tido, mas eu consegui sentir do jeito que ela tinha pretendido.
Depois que o caminhão foi embora, voltei até em frente da casa. Fiquei olhando por um tempo e decidi.
Pulei o muro e fui direto ao pé de pitanga. Fiquei um tempo olhando para ele e depois comecei chupar as frutas como se cada uma fosse um beijo doce de Magali.

Personagens


Por várias vezes, eu já me perguntei por que escrevo. De todas as respostas, acho que a mais próxima da verdade é porque não gosto da realidade. Na ordem ou desordem das palavras eu crio um mundo e, dentro dele, as personagens que fazem e dizem o que eu quero e se deixo de querer, elas voltam atrás, ou se contradizem, sem nenhum grande trauma. Quando escrevo as mulheres são cópias fiéis da minha imaginação. Ficam nuas e subindo pelas paredes quando eu quero. Os homens são aquilo que eu gostaria de ser, mas por mais que me esforce, não consigo nem me aproximar daquele ideal. Por isso escrevo e crio a minha realidade.
Agora por exemplo, vou começar um conto. Não tenho nenhuma idéia pré-definida, apenas a vontade de escrevê-lo. Então, estou aqui sentado frente à tela do meu computador e digitando palavras que, ao longo do percurso, irão tomar os rumos que eu decidir. Para ser sincero, isso me dá até certo ar de divindade e, por mais que eu queira negar, faz bem ao meu ego.
Agora vou criar uma personagem feminina. Como eu a quero? Vejamos: 1.75m, 62 quilos, morena de cabelos compridos, olhos verdes, boca carnuda e nariz perfeito, seios fartos, sem silicone, portanto, não tão firmes, mas voluptuosos, pernas bem torneadas encimadas por uma bunda provocante. O nome dela pode ser Valéria. Por que Valéria? Porque foi o primeiro nome que me veio à cabeça ao imaginar uma mulher assim! Ah! Esqueci-me de dizer que ela tem entre 25 e 30 anos.
Agora, a personagem masculina. 1,90m, 80 quilos, corpo de atleta, barriga de tanquinho, moreno, olhos azuis, bonito de rosto, cabelos lisos bem cortados, barba por fazer, ou seja, do tipo que atrai a maioria das mulheres. Idade? 35 anos. Vou chamá-lo de Rodrigo.
Como pretendo narrar uma história em torno de um triângulo amoroso, preciso criar a outra personagem masculina. 1.69m, 70 quilos, olhos castanhos, já demonstrando uma acentuada calvície, rosto comum, um forte ar de timidez, ou seja, um tipo pouco atraente. Está na faixa dos 40 anos quase chegando aos 50 e seu nome é José.
_Espera aí! Você não acha que isso é muita sacanagem?
O que é isso? Quem diz espera aí sou eu! Eu não escrevi essa frase!
_Não, não escreveu. Sou eu que estou falando. Eu, o José.
Devo estar sonhando ou ficando louco! Você não pode se manifestar dessa forma. Eu sou o seu criador. Eu digo o que você deve ou não fazer, o que pode ou não falar!
_Mas dessa vez, não! Toda vez que você escreve faz com as suas personagens tudo que lhe dá na telha. Chega. Eu não vou aceitar isso que você está fazendo comigo!
Acho que estou precisando de um psiquiatra! Isso não pode estar acontecendo!
_Está acontecendo sim, e devia já ter acontecido antes! Quem você pensa que é fazendo com as pessoas o que bem entende?
Não são pessoas, são personagens!
_E personagens não são pessoas? Não sentem, não choram, não riem, não amam, não sofrem? Claro que sim! E têm que passar por isso segundo a sua vontade. Elas não podem escolher. Você determina o destino delas e pronto. Mas comigo não!
Bem, vou aceitar, por enquanto, essa situação, então me diga o que você quer.
_Pra começar, você vai escrever sobre um triângulo amoroso e faz o meu rival um senhor galã e de mim uma cara qualquer. Acha isso justo?
Mas você não sabe o que pretendo escrever sobre os três! Não acha que está reclamando antes da hora?
_Não, não acho. De cara já estou em desvantagem. Você notou como você criou a Valéria? Uma mulher linda, sensual, que chama a atenção de qualquer homem. Depois faz esse tal de Rodrigo um tremendo gato para disputar comigo o amor de uma mulher dessas? É sacanagem, cara!
Calma José. Você não sabe, aliás, nem eu ainda sei, qual será o desfecho dessa história.
_Calma, uma ova! Eu te conheço escritor! Você é do tipo que não aceita fazer um desfecho em que o leitor não acredite. Você acha que se um cara como eu ficar com a Valéria, ao invés do Rodrigo, o leitor vai acreditar?
Depende.
_Depende de quê? Você vai fazer de mim um homem rico e por isso Valéria vai me preferir? Tudo bem, o leitor pode até aceitar, mas quem disse pra você que eu aceitaria uma condição dessas? Uma bela mulher ficar comigo só por causa do meu dinheiro? É muito humilhante!
Eu não pensei nisso, para ser honesto ainda não pensei em nada! Vamos fazer um acordo?
_Que tipo de acordo?
Eu vou escrevendo a história e, se em algum momento, você achar que está sendo prejudicado, me chama de lado e a gente conversa. Está bom assim?
_Mas se eu não concordar, você vai mudar o rumo da história?
Se você me convencer com os seus argumentos eu mudo.
_Combinado! Então segue em frente. Quero só ver.
Ufa! Agora posso deixar minha imaginação fluir e escrever meu conto, afinal, tudo o que eu queria era simplesmente escrever mais um conto.
Bem, vamos em frente.
Rodrigo estacionou seu carro em frente à bomboniere. Mostrando jovialidade, já que era um conversível, com um simples impulso saiu sem abrir a porta. O rapaz levava um belo sorriso nos lábios ao entrar na loja. Era aniversário da mãe e ela adorava chocolates, com certeza iria adorar o presente.
Entrou e foi direto ao grande balcão de vidro onde uma funcionária, de costas, colocava alguns bombons em uma das prateleiras. Rodrigo não pode deixar de notar os longos e bem cuidados cabelos negros.
_Por favor! – disse.
Quando a moça se virou, Rodrigo não conseguiu esconder seu encantamento diante daqueles olhos verdes que pareciam duas esmeraldas e da boca vermelha que já ensaiava um sorriso.
_Pois não! – disse a moça percebendo o efeito que havia causado no belo rapaz.
_Eu preciso dar um presente e gostaria que me ajudasse a escolher alguns bombons. Pode ser? – Rodrigo disse isso sem conseguir tirar seus olhos azuis dos olhos da moça.
Olhou o crachá que ela tinha afixado na blusa branca e viu que o nome era Valéria. Porém, além do crachá percebeu que a blusa se esforçava para conter seios que prometiam delícias.
Valéria começou a dar informações sobre os diferentes confeitos, coisa que Rodrigo não prestava muita atenção e, enquanto ela se movia ao longo do balcão para apresentar os produtos, o rapaz não tirava os olhos da bela mulher.
Valéria, por sua vez, também havia ficado impressionada com beleza do rapaz e suas faces começaram a ruborizar.
José, o gerente, acompanha tudo a certa distância.
_Pronto, já começou.
O que foi?
_Vem cá! Eu sou o gerente da moça?
Sim, o que tem isso?
_Gerente normalmente é um cara que pega no pé, velho! Pra ser honesto, é difícil um que não seja um chato! Você já está me prejudicando. Estou em desvantagem nos atributos físicos, vê se dá uma maneirada!
Está bem. Você não é o gerente. É outro cliente que entra na loja, ok?
_Espera aí! Apenas entro na loja? Com que carro eu chego? Se você escrever que é um carrinho qualquer, não será justo!
Está bom. Eu concordo. Fica aí quietinho que eu vou mudar um pouco as coisas.
Enquanto Rodrigo e Valéria escolhiam os bombons para compor a caixa, José estacionava sua BMW logo atrás do conversível de Rodrigo. Ao olhar de relance para dentro da bomboniere, viu a moça e ficou maravilhado. Apesar da sua taxa de glicemia não estar muito sob controle, resolveu entrar e comprar alguns bombons...
_Bem, diabetes eu aceito.
... aproximou-se e percebeu que corria um clima entre o belo rapaz e a linda mulher, mas não estava disposto a sair sem tentar.
_Por favor, senhorita! Estou com um pouco de pressa, poderia me atender, se esse jovem permitir?
Rodrigo, a princípio quis recusar, mas, em seguida, pensou que quanto mais tempo ficasse dentro da loja, mais tempo permaneceria perto daquela que lhe despertara tanto interesse.
Valéria olhou para o jovem, como que questionando, e ele concordou com um aceno de cabeça.
_Muito obrigado, meu jovem, muita gentileza de sua parte. – agradeceu José, e olhando profundamente nos olhos da moça perguntou:
_Se a senhorita fosse receber uma caixa de bombons de presente, quais escolheria?
Valéria titubeou alguns segundos, mas começou a falar dos bombons que mais gostava e por que.
Rodrigo acompanhava tudo embevecido, cada movimento de Valéria parecia fazer parte de um bailado, e de um bailado sensual. Debruçou-se no balcão, apoiou o queixo em uma das mãos e ficou admirando-a, o que Valéria percebeu sem conter um leve sorriso.
_Ô escritor! Desse jeito vai ficar ruim pra mim! Você está jogando toda a atenção da Valéria para esse tal de Rodrigo!
Poxa, espera um pouco! Você não sabe qual é minha intenção!
_ Está bem! Mas olha lá, não vai me ferrar, heim?
Assim que Valéria compôs a caixa, José pediu que embalasse com o papel e laço para presente que ela mais gostava.
A moça terminou de fazer o pacote colocando-o sobre o balcão. José perguntou o preço, abriu a carteira e pegou um da mais de uma dezena de cartões, entregando a moça.
Valéria fez a cobrança e devolveu o cartão com o tíquete.
Antes de pegar o cartão, José pegou na mão da moça, beijou-a delicadamente, saindo em seguida.
Valéria percebeu que o pacote havia ficado encima do balcão e chamou:
_Meu senhor! O senhor se esqueceu do presente!
José parou, virou-se devagar e com um leve sorriso, respondeu:
_Não, minha linda! Não esqueci. Ele é seu. Um presente para a mulher mais linda que meus olhos já viram. Boa tarde!
_Gostei! Gostei, cara! Sensacional! Eu sou demais!
Então agora sossega, José.
Enquanto José saia pela porta, Valéria ficou sem saber o que dizer. Rodrigo também ficou sem ação, mas sendo obrigado a concordar que o cara havia sido genial.
Passados alguns segundos, Valéria voltou sua atenção para continuar atendendo Rodrigo, mas seus olhos não deixavam de acompanhar José que se dirigia a sua BMW.
Antes de entrar no carro, José olhou para dentro da loja e jogou um beijo para a moça que lhe devolveu num maravilhoso sorriso.
Rodrigo percebeu que estava em desvantagem e se pretendia ter alguma chance tinha que pensar em algo rápido.
_Legal! Legal! O galã ficou sem ação!
Rodrigo comentou com Valéria:
_Que gesto bonito desse tiozinho! Muito simpático mesmo!
_Tiozinho é p...!
Olha a boca José! Eu não quero que esse conto seja proibido para menores!
_Essa de tiozinho doeu!
Fica na sua, ok?
Valéria, ainda extasiada pelo gesto de José, comentou com Rodrigo.
_Eu nunca tinha visto esse senhor! Fiquei sem ação. Por que será que ele fez isso?
Rodrigo viu aí uma oportunidade e disse.
_Talvez porque você lembre uma filha dele, ou uma sobrinha, alguma coisa assim!
_Ô escritor! Não sei se dou uma bifa nesse tal de Rodrigo ou em você! Isso é golpe baixo!
José, eu já pedi para você parar. Enchi sua bola, agora deixa a história correr.
_Ok! Mas esse Rodrigo é um sacana! E a culpa é sua!
Ao ouvir a opinião de Rodrigo, Valéria ainda acompanhando José que manobrava o carro para ir embora, respondeu:
_Pode ser! Mas, sinceramente, foi o gesto mais bonito que eu recebi de um homem. Realmente me comoveu!
Enciumado, Rodrigo disse.
_Mas ele não é muito velho pra você?
Depois de ver que José já havia saído com o carro, Valéria respondeu:
_Eu não acredito nessa coisa de diferença de idade!
Rodrigo sentiu que havia perdido a parada
_Yes! Mexe com o coroa aqui, mexe!
Enquanto Valéria embrulhava a caixa que o rapaz iria levar de presente para a mãe, Rodrigo perguntou
_Então, por que não procura saber que é ele?
Valéria terminou de fazer o pacote, colocou encima do balcão e disse.
_Olha, vou dizer uma coisa pra você. Se eu não fosse lésbica, esse seria um homem com quem valeria a pena ter um relacionamento.
Rodrigo pagou, pegou seu pacote e saiu rapidinho.
_ Escritor! Você é um tremendo sacana! Poxa, isso não se faz, nem comigo e nem com o Rodrigo!
Eu falei, José, que eu não tinha a menor idéia dos rumos que a história iria tomar. Mas você ficou me azucrinando tanto, que decidi dar uma lição em você e nesse tal de Rodrigo.
_Eu? – perguntou Rodrigo – Eu não disse nada!
Não disse nada porque achou que devido à sua juventude e bela estampa, iria se dar bem.
_É isso mesmo – concordou José – Quer saber escritor? Gostei do final. Mas cá pra nós, uma mulher como aquela não gostar de homem é uma pena!
Pois é José, a magia de escrever é essa: tudo é possível. Até vocês falarem comigo!