Do purgatório I
Na poeira, bem antes da cancela, já se ouvia o gemido da carroça que dava sombra ao perdigueiro Nero que trazia a língua pendente de sede. Corrupio, negro velho, quase parte do serrado, segurava com as mãos de pergaminho as rédeas da égua baia Violeta. Debaixo da sombrinha de seda, o vestido branco de Rosinha se espalhava na carroça como florada em cafezal. No sorriso vinha impressa a alegria pra quem quisesse ver. Sete anos; todos gastos em saudade e estudos na capital.
E eis que agora ela vinha professora pedir a benção de Coronel Ramiro e Sinhá Rosália; pai e mãe que, de terra, os olhos da gente nem podiam alcançar.
Lá de cima da mangueira, dona da sombra em que meu cavalo descansava, eu era todo espreita e incerteza.
Sete anos! Muito tempo! Só de padres, na capela, mais de três.
Se na manga, quase verde, fiz mordida; foi por raiva, mais por raiva que por gosto.
Saltei do galho à sela e tilintei esporas. Temporal fez a légua e meia feito raio e só na curvinha do riacho parou pra matar sede.
Temporal! Minha parte de centauro que mais tarde, só um tiro libertou-o do arado!
Dei a volta no curral para apear na choupana da madrinha que, pro aceno, parou o pilão.
Quase hora do comer e de fome, nem um pouco.
No balanço da paineira fiz acento, esperando que, ao longe, o gemido me chegasse e, nas patas de Violeta, sete anos fossem pisoteados, destruídos, trucidados.
Do céu
No alto dos paus, os três santos de junho. Entre os dedos das beatas, contas sem conta. Cada dez Ave Maria, um Padre Nosso. Na fogueira as batatas, nas tigelas o quentão; dá um pulo vira noiva e a pipoca nos cartuchos de jornal.
No esconde-esconde a alegria; e na alegria eu e Rosinha.
_ Balança caixão!
_ Balança você!
_ Dá um tapa na bunda e vai se esconder!
E foi atrás da casa grande; entre moitas de erva cidreira, eu e Rosinha quase sem respirar pra que Tonico não nos visse, vimos o Seu Nestor. Encostado na figueira, olhos fechados, o corpo tremendo como em maleita e Jandira, mulata de serviço de casa, blusa aberta, duas tetas morenas balançando a cada movimento: pra frente e pra trás... pra frente e pra trás. Seu Nestor gemendo baixinho e Jandira mordendo folhas de figo para não gritar.
Foi ao toque quente da mão de Rosinha que dei conta de que a parte do homem, ainda criança, se intumescia feito casca de jatobá. Quase sem perceber, peguei a mão de Rosinha e coloquei sobre ele. A reação de fuga foi só uma e sem certeza, para em seguida segurar forte.
Lá da figueira vinham os ruídos, até então desconhecidos.
Do Seu Nestor:
_ Ai minha Nossa Senhora que eu vou...
Da mulata Jandira: sons sem nexo e sumo da folha de figo.
Os dois seios, enormes, se esconderam atrás dos botões. Seu Nestor fechou as calças e lá se foram os dois; cada um para o seu lado.
A mão de Rosinha continuava me segurando e ela sem coragem de me encarar.
Da braguilha, os botões quase arranquei.
E então foi pele a pele; tato a tato. Meu desejo latejava.
Quis me fazer de Nestor e de Rosinha; Jandira.
Lentamente, eternamente e com os olhos esbugalhados a cabeça quase dourada se moveu. Seus lábios de menina se encontraram com os meus. Todas as estrelas do céu de junho rodaram em minha cabeça.
Sentado na grama, com foguetes, busca-pés, e com o toque da sanfona, ao longe, pela primeira vez me fiz macho e o menino se desfez na mão da filha do coronel.
Do purgatório II
O gemido primeiro nem sei se foi meu ou da carroça que chegava.
_ Sinhá! Sinhá! Menina Rosinha ‘tá chegando! Sinhá!
A voz rouca da madrinha, quase como maritaca, fez, da casa grande, a porta se abrir com pressa, dando passagem à Sinhá Rosália que já trazia lágrimas nos olhos.
No toque das botas pretas, Coronel Ramiro fez presença na varanda e por detrás das barbas longas, a alegria se notava; coisa difícil de se ver em semblante de coronel!
Corrupio segurou Violeta em frente à varanda e a carroça fez chegada.
Eu, de longe e com receio, vi descer uma santa; uma deusa. Mais bonita que o pôr do sol na chapada, mais dourada que do trigo a safra, mais mulher... muito mais mulher!
Dos risos e soluços, apenas alguns me chegavam com nitidez. Dos abraços e beijos, todos me tocavam.
Se a tarde virou nada, a noite fez-se plena. No balanço da paineira eu ouvia os sons do brejo. Fumo e palha queimando entre os dedos e a lua vagabunda.
Sem camisa, as estrelas me beijavam como amantes e a brisa me roçava feito esposa.
Do paraíso
_ Só mais uma semana e vou ter que ir pra capital!
_ Você volta?
_ Mas demora! Sete anos!
_ E as férias?
_ Muito longe! Pai não quer! Só pra vir de vez pra dar aula na escola!
_ Eu vou morrer! É muito tempo!
_ Eu não vou esquecer você, nunca!
_ Não acredito! Você volta professora e eu peão! Sinhazinha professora não vai dar trela pra empregado.
_ Mas você é o meu homem! Já roçou meu corpo todo!
_ Não é verdade! Onde eu queria só de mão e beijo! Eu sou seu homem, mas você não é minha mulher!
_ Mas serei quando voltar!
_ Vai nada! Moço da capital não respeita essas coisas! No primeiro o sangue verte!
_ Não vai ter nenhum! Você é o único!
_ Não adianta! Não acredito!
_ Então faça verter o sangue você! Aqui! Agora!
_ E se você pegar filho?
_ Pego não! As regras tão por vir. Jandira disse que assim não pega!
_ Você quer mesmo?
_ Quero! Agora! Vamos lá pra moita do curral!
_ Madrinha pode ver!
_ Vai ver não! Ela está na cozinha da casa grande fazendo bolo.
Mão na mão. Na carreira. Dezesseis e quinze nas idades. Lá na moita do curral
Sem um beijo.
_ Levanta o vestido e deita!
Sem preparo.
_ Tira a calçola!
Medo, mão tremendo.
_ Abre as pernas!
Maçãs do rosto vermelhas.
_ Vem, mas devagar senão dói!
Olhos fixos nos meus.
_ Devagar. Ai, assim me machuca! Vai com calma! Pára! Não... não tira, só espera. Agora mais.
Alma plena.
_ Entrei! Estou dentro de você! Você é minha mulher!
Sorrisos e medo.
_ Vê se tem sangue!
_ Tem sim! Eu vou... quero você pra sempre!
Do inferno I
Sol, ferro e brasa! Mãos queimando pelo laço! Temporal todo raça pra cercar a novilha desgarrada que fugia com medo da marca. Mata como refúgio e meu corpo já doendo.
No riacho molho o rosto e Temporal bebe sedento.
_ Oi Jerônimo! Sou eu, Rosinha!
Margem oposta, sobre a égua igual moça da cidade, apeou de relho em punho.
_ Faz dois dias que cheguei. Você está fugindo de mim?
Nos cabelos o mesmo ouro, mas na pele, sete anos de cidade.
_ Vem pra cá, eu quero falar com você!
Temporal cruzou de manso me levando no seu dorso.
_ Puxa! Você cresceu! Está um homem forte! Um verdadeiro sertanejo. Papai me falou que você é um peão e tanto! Que em toda redondeza não tem outro igual!
_ Você também cresceu! Está ainda mais bonita!
_ Senti muita saudade daqui. Lá na cidade tudo é muito diferente e a gente demora pra se acostumar.
_ Eu senti saudade de você! Você sentiu de mim?
_ Claro! A gente nunca esquece os amigos de infância! Ainda mais do melhor amigo.
E deitou falação feito matraca pra contar de coisas tantas que nem de longe me importavam.
Sete anos de espera para ouvir: arranha-céus, cinemas, teatros, piscinas e trens de ferro. Sete anos de espera para ouvir fala macia, sem sentido.
_ ... e meu noivo chega domingo para acertar tudo com papai e mamãe. Bem, agora eu vou indo. Está quase na hora do almoço. Mais tarde a gente conversa mais. Até!
Até bosta! Até puta que pariu! Até mágoa! Até ódio! Até dor!
Temporal saltou, no bote, e disparou invernada adentro.
No galope, desespero!
_ Balança caixão!
_ Então faz verter você agora!
_ Devagar que dói!
_ Você é meu homem!
Lá na moita do curral!
_ Corre Temporal! Corre! Quero me jogar na beirada do horizonte! Voa Temporal!
Tronco podre, mas tropeço!
Temporal virou dor me jogando no espaço.
Do inferno II
Seu Vigário chegou cedo.
Casa grande toda em festa.
Convidados, gente rica.
Automóveis, mais de trinta!
De festança, noite inteira.
De alegria, todo mundo e eu sozinho na desgraça.
Véu, grinalda e até flor de laranjeira; terno preto de colete, arroz, vivas e foguetes.
Se casou Sinhá Rosinha! Moço belo, bom partido, doutor de fazer ponte!
Ficam até domingo e vão de vez pra capital.
Só madrinha se apercebia, mas calada, sem certeza!
Sanfoneiros, tinha três!
De barracas, uma quermesse.
Coronel até sorria e Sinhá Rosália só chorava.
Vão de vez pra capital. Vão de vez... vai de vez!
Quarto maior da ala esquerda. Enfeitado feito festa, feito igreja, feito enterro.
Trinta e oito. Taurus. Cabo branco, com seis balas no tambor.
_ Os pombinhos se retiram! Olha só que gracinhas! Disfarçando.
_ Mas a festa continua! Vai até o sol raiar!
Calma! Muita calma! Sem que ninguém possa ver.
Dou a volta na casa, passo pela figueira; afago erva cidreira e agacho sob a janela.
Vagarosamente me vergo pro lado esquerdo e jogo o olhar na fresta.
Seu doutor de corpo pelado e de Rosinha só vejo as costas, as ancas, brancas como o leite.
Minha cabeça lateja. Suspiros e ais. Revolver na mão, faço mira pela fresta. Cão puxado e dedo crispado. Torno a olhar e vejo os olhos de Rosinha perdidos no desejo.
Recolho a arma e me retiro. Não consigo! Eu amo demais!

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