terça-feira, 28 de junho de 2011

Crime hediondo



01 de Agosto de 2016.
Um homem, apavorado, salta um muro correndo em desabalada carreira. Atrás dele, de armas nas mãos, dois policiais demonstrando não estar dispostos a deixar o marginal fugir. Durante todo o tempo eles mantêm comunicação com a central através de seus transmissores portáteis.
O homem consegue chegar a uma grande avenida e continua correndo em direção ao centro da cidade. Passa por uma praça, onde dois adolescentes espancam um idoso. Sente uma grande revolta, mas não pode parar para ajudá-lo tendo os dois policiais em seu encalço. Os dois policiais também vêem a cena, mas continuam correndo atrás do perseguido, pois o crime cometido por ele é muito mais grave.
Num dos extremos da praça, o homem vê um grupo tentando arrombar um caixa eletrônico e não pode deixar de pensar nas vezes que tentou sacar seu dinheiro e o cartão magnético não funcionou ou o caixa estava sem dinheiro. Os dois policiais também percebem a movimentação do bando. Um deles comunica-se com a central informando sobre o assalto, mas os dois não param, pois têm como ponto de honra conseguir capturar aquele homem que tanto mal fazia à sociedade.
O homem já começa sentir suas pernas doerem e percebe que não vai conseguir continuar mantendo a distância. Entra num prédio, aproveitando-se que um casal havia aberto a porta com seus cartões de identificação. Os dois policiais também entram e, ao entrarem, jogam o casal ao chão, fazendo com que a mulher bata com a cabeça num dos vasos de cimento que decoram o hall.
O homem sobe as escadas e, no terceiro andar, vê uma moça que está sendo estuprada por três homens. Imagina que os policiais vão desistir da perseguição assim que virem aquilo. Ledo engano, os dois homens da lei passam direto e continuam subindo as escadas já que ainda consideram que o crime do homem perseguido é bem maior.
O homem consegue chegar até o teto do edifício, tenta fechar a porta de acesso, mas não tem como. Corre até a beirada do prédio e percebe que já não tem para onde ir.
Os dois policiais chegam ao teto. O homem acuado sua muito e quase não consegue respirar.
Os homens da lei apontam suas armas e se aproximam devagar, muito cautelosos.
O homem chega a pensar em se jogar no vazio e acabar logo com aquilo.
Quando os dois policiais sentem que estão estrategicamente posicionados, um deles dá a ordem de prisão:
_Você está preso, sem direito à fiança, por ter fumado um cigarro em público!

O Contínuo


Assim que Jairo conseguiu o emprego como contínuo daquele grande banco, realizou o seu maior sonho: casou-se com Cecília.
O salário não era grande coisa, porém, apertando aqui e ali, dava para ir vivendo.
Porém, depois de pouco mais de um ano de casados, Cecília começou a se queixar que não tinha dinheiro pra nada e vivia dizendo que Jairo precisava arrumar um emprego melhor.
O marido argumentava que, com o tempo, poderia ser promovido.
Cecília não se conformava com isso e a partir daí a vida de Jairo virou um inferno.
Logo veio o primeiro filho e as coisas se complicaram ainda mais.
Cecília começou a tratar o marido com desprezo e, nas discussões, passou a chamá-lo de imprestável, o que deixava Jairo muito triste, pois fazia o melhor que podia.
Com a chegada da filha, as coisas foram ficando ainda mais difíceis e o desprezo de Cecília aumentando.
O tempo passou, as crianças cresceram e, talvez por influência da mãe, também menosprezavam o pai.
Para amenizar tudo isso, toda sexta-feira, no final da tarde, Jairo colocava as varas de pescar em sua bicicleta e saia para voltar só no domingo à noite, com alguns lambaris.
Mulher e filhos diziam que ele era tão imprestável que precisava de todo um fim de semana para pegar uns míseros peixinhos.
E assim seguia a vida de Jairo. Trabalho de segunda a sexta e no final de semana saindo com sua bicicleta e varas de pescar para voltar só no domingo.
Foi numa quinta-feira, logo no começo de manhã, que Cecília recebeu um telefonema da secretária da diretoria do banco dizendo que Jairo tinha sofrido um infarto fulminante, mas que ela não precisava se preocupar porque tudo estava sendo providenciado. Pediu que ela se aprontasse porque um motorista passaria em sua casa e levaria toda família para o velório.
Assim que Cecília chegou, ficou abismada com tudo. Caixão de primeira, flores, dezenas de coroas e muita gente.
Alice, a secretaria que havia ligado, veio ao seu encontro e começou a apresentá-la a alguns dos presentes. Um dos apresentados foi o presidente do banco que disse palavras elogiosas sobre Jairo. Cecília pensou o que adiantava tanta coisa agora se o marido havia passado toda sua vida como contínuo?
Quando tudo terminou Cecília, impressionada, perguntou se era normal o banco fazer tudo aquilo para todos os funcionários que faleciam, inclusive para contínuos.
Alice fez um ar de desentendida e disse:
_ Contínuo? O senhor Jairo era vice-presidente do banco! É verdade que ele começou como contínuo, mas já há alguns anos era um dos maiores acionistas da instituição!
Cecília quase desmaiou ao saber disso e quase morreu quando soube que, pouco antes de sofrer o infarto, Jairo havia passado tudo que tinha para uma mulher muito bonita e mais jovem do que ele, chamada Patrícia, com quem, alguns acreditavam que ele tinha um caso, mas que Jairo, com um sorriso maroto, garantia que era apenas sua grande companheira de pescarias nos finais de semana.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O colecionador de sorrisos

Minha avó pediu que eu fosse até à Rua da Lembrança para pegar uma antiga caixinha de música que ela havia mandado restaurar. Não se lembrava corretamente do número, mas disse que se eu perguntasse pela oficina do mestre Ciro qualquer um poderia me informar.
Saí do trabalho mais cedo, depois de um dia terrível, e dirigi-me a passos rápidos à Praça da Memória, pois segundo minha avó, a tal rua nascia exatamente ali. Não foi difícil encontrá-la e comecei a caminhar por entre casarões antigos procurando ler nos letreiros (alguns quase apagados pelo tempo), se conseguia encontrar a tal oficina. Após alguns quarteirões, sem sucesso, resolvi me informar.
Uma velha senhora sentada numa cadeira de balanço posta à porta de uma das casas antigas, fazia tricô, tendo ao lado um cachorro que parecia ser tão velho quanto ela. Ao me aproximar ele rosnou para mostrar que estava pronto a protegê-la caso fosse necessário.
A anciã olhou-me por sobre os óculos enquanto ordenava:
            _ Quieto Fiel!
            _ Boa tarde! – Disse, procurando ser o mais amável possível – A senhora poderia me informar onde fica a oficina do mestre Ciro?
            A mulher continuou me olhando demonstrando certo ar de curiosidade e perguntou:
            _ E o que você quer com o velho Ciro?
            Eu estranhei a pergunta e, ao mesmo tempo, pensei que ela estava sendo um tanto quanto indiscreta, mesmo para uma pessoa tão idosa, mas resolvi explicar.
            _ Eu vim pegar uma caixinha de música antiga que minha avó mandou restaurar!
            A mulher sorriu e tirou os óculos que se equilibravam quase na ponta de seu nariz.
            _ Então você é neto da Eulália?
            _ Sou! – Disse espantado pelo fato da mulher conhecê-la.
            _ E como ela está? – Perguntou a mulher.
            _ Bem, graças a Deus – Respondi – A senhora conhece minha avó há muito tempo?
            _ Há muitos anos! – Disse, enquanto esfregava o polegar da mão direita no dedo médio como que para ilustrar o tempo.
_ Somos amigas desde a infância.
            _ Quem bom – Disse procurando expressar uma satisfação que estava longe de sentir.
            Ela apontou em direção à esquina próxima.
            _ A oficina do velho Ciro é aquela ali. Aquela casa azul com portas brancas. É só bater que ele vai atender.
            Agradeci e, quando já começava me retirar, ela pediu:
            _ Mande um abraço para a Eulália. Diga que foi a Consuelo quem mandou.
            Eu disse que enviaria o seu abraço e segui na direção indicada.
            As grandes portas brancas de madeira estavam fechadas. Dava a impressão que não tinha ninguém no interior da casa, mas, como havia sido instruído pela mulher, bati na porta do meio. Esperei alguns segundos e tornei a bater. Não demorou em que eu ouvisse uma voz abafada.
            _ Já vai! Pra quê tanta pressa? Já vai!
              Mais alguns segundo e ouvi o som de um ferrolho sendo puxado bem devagar. Pela porta entreaberta, o rosto de um homem de barbas e cabelos brancos, com óculos de lentes retangulares, apareceu. Não pude deixar de pensar:
            _ Acho que vim parar na casa do Papai Noel!
            O ar era bastante simpático e quando eu ia dizer por que estava ali, o homem perguntou:
            _ Veio buscar a caixinha de música da Eulália?
            Fiquei um tanto surpreso, mas concordei:
            _ Exatamente! Já está pronta?
            O homem acabou de abrir a porta fazendo sinal para que eu entrasse, enquanto dizia:
            _ Claro, já está pronta. Entre e aguarde um pouco que eu vou pegá-la.
            Entrei e procurei acostumar meus olhos à penumbra, enquanto via o velho homem se dirigir a passos lentos para trás de um grande balcão de madeira. Assim que se pôs do outro lado, acendeu as luzes e, depois de me acostumar com a claridade, pude olhar melhor o local.
            Além do enorme balcão de madeira todas as paredes eram cobertas por altas prateleiras em madeira maciça e repletas dos mais variados objetos.
            O velho tornou a dizer:
            _ Espera um pouquinho enquanto vou à oficina pegar a caixinha de música da Eulália. – E desapareceu ao atravessar uma estreita porta que ficava entre prateleiras.
            Durante o tempo em que aguardava, passei a olhar aquele amontoado de coisas. Vi dois realejos, uma câmera antiga (daquelas usadas pelos fotógrafos lambe-lambe), inúmeras caixas de madeira de todos os formatos. Na prateleira da frente vi uma porção de caixinhas. Todas do mesmo tamanho e formato. Cada uma tinha uma pequena placa de metal gravada.
            Aproximei-me mais e pude ler alguns nomes como: Paulo César, Vera Lúcia, Mariana, Roberto, Péricles...
            Foi nesse momento que o homem retornou trazendo a caixinha de música de minha avó. Ao revê-la meus pensamentos foram arremetidos de imediato à minha infância. Recordei das várias vezes em que eu ficava deitado no chão enquanto ouvia a música que saia dela. Só voltei à realidade ao ouvir a pergunta do homem.
            _ Estava olhando a minha coleção?
            Demorei alguns segundos para entender que ele se referia às caixinhas iguais que eu admirava.
            _ Estava sim. Achei interessante. – Disse.
            _ É a minha coleção de sorrisos – Disse ele, enquanto colocava a caixinha de música de minha avó sobre o balcão.
            _ Coleção de sorrisos? – Perguntei, achando que ele iria fazer alguma piada na sequência.
            Enquanto dava corda na caixinha para demonstrar que estava funcionando de acordo, repetiu:
            _ Isso mesmo, minha coleção de sorrisos. Em cada uma dessas caixas eu guardo o sorriso da pessoa cujo nome está gravado na placa de metal.
            _ O velho é doido – Pensei.
            Ele abriu a tampa da caixinha e ela começou a executar aquela música, minha velha conhecida. Olhou para mim, abriu um enorme sorriso ficando ainda mais parecido com Papai Noel e disse:
            _ Não, não sou doido! Estou sendo sincero. É a minha coleção de sorrisos.
            _ Além de doido ainda lê pensamentos – Pensei.
            Fechou a tampa da caixinha, interrompendo a música e tornou abrir fazendo com que se iniciasse do ponto que havia parado.
            _ Viu? Está funcionando perfeitamente, como se fosse nova!
            Dizia isso e olhava para o objeto deixando transparecer o enorme orgulho por ter realizado um trabalho perfeito.
            Peguei a caixinha, comprovei que também por fora estava perfeita e pedi que a embrulhasse.
            O velho puxou da grande bobina uma porção de um papel rosado, que cortou utilizando a lâmina que ficava na parte superior. Enquanto ele fazia o embrulho, eu fiquei olhando aquela cabeça abaixada que realizava um trabalho corriqueiro como se fosse uma verdadeira obra de arte. Tornei a olhar para as caixinhas na prateleira tentando entender o que ele quisera dizer com “coleção de sorrisos”.
            Entregou-me o pacote e perguntei se tinha que pagar alguma coisa.
            O homem balançou as duas mãos espalmadas na frente do corpo, dizendo:
            _ Nada! Já está tudo certo. Sua avó já pagou pelo serviço.
            Estendi a mão para me despedir e ele pegou entre as duas, envolvendo-a como se fosse um afago. Agradeci e me retirei. Quando já havia ultrapassado a grande porta de madeira, ouvi sua voz rouca e suave:
            _ Não demore muito a voltar, meu jovem!
            Durante meu caminho de volta não pude deixar de sorrir. Aquele velho homem poderia ser maluco, mas com certeza havia causado uma forte impressão em mim.
Cheguei em casa depois das 9 da noite. Antes mesmo de me dirigir ao meu quarto, fui até ao de minha avó. Como sempre, ela estava sentada em sua velha poltrona e lendo um dos seus velhos livros, contando com a ajuda de um grande abajur, apesar da luz do quarto também estar acesa. Quando me viu entrar, sorriu carinhosamente como costumava fazer e perguntou:
            _ Deu tempo de pegar a minha caixinha?
            _ Deu sim, vó. Está aqui. – Estendi o braço para entregar o pequeno e bem feito pacote de papel rosado. Ela pegou, olhou e disse:
            _ O velho Ciro continua caprichoso como sempre! Olha que embrulhinho bem feitinho!
            Tive que concordar. Minha avó colocou o pacote sobre a mesinha à sua direita enquanto agradecia. Fiquei um tanto frustrado porque acreditava que ela iria abrir o embrulho toda entusiasmada para conferir.
            _ A senhora não vai ver se a caixinha está funcionando direito? – Perguntei.
            _ Não precisa. Foi o velho mestre Ciro quem restaurou. Tenho certeza de que está perfeita. - Disse ela já reabrindo o livro que havia deixado fechado sobre o colo.
            Pensei em deixar tudo como estava e ir tomar meu banho, mas me lembrei do recado mandado pela velha senhora.
            _ Vó, uma tal Dona Consuelo mandou um abraço pra senhora!
            Tornou a fechar o livro e olhou para cima com um doce e saudoso sorriso nos lábios.
            _ Ah! Minha amiga Consuelo. Há quantos anos não a vejo! Como ela está? - Perguntou.
            _ Me pareceu bem! – Achei estranho ela dizer que fazia tempo que não via a amiga.
            Minha avó me olhava como que esperando mais alguma pergunta. O sorriso agora era um daqueles meus conhecidos. Significava que havia me ensinado alguma coisa e esperava a minha reação para ver se eu tinha apreendido. Porém, eu não reagi como esperado, pois tudo me parecia bastante confuso. A senhora Consuelo havia falado de uma maneira como que se tivesse estado com minha avó bem recentemente e, no entanto, ela dizia que há muito não via a amiga.
            Continuava com o livro sobre o colo e me olhando. Conclui que deveria pensar mais um pouco sobre tudo aquilo e resolvi tomar meu banho para depois comer alguma coisa, pois sentia fome.
            _ Bom, vó! Se está tudo bem, vou tomar banho e jantar, tá?
            Ela abriu ainda mais aquele sorriso.
            _ Claro, meu bem! Muito obrigado pela sua gentileza. Se mais tarde quiser conversar, estarei por aqui.
            Procurei a porta do quarto sentindo os pensamentos confusos. Aquela história toda tinha alguma coisa que me fugia à compreensão, mas resolvi deixar de lado.
            Quando passei pela sala minha mãe perguntou se eu iria jantar. Disse que sim e fui para o meu quarto preparar-me para o banho. Liguei a televisão, mais por hábito do que por interesse e, enquanto me despia, lembrei do sorriso daquele velho simpático e da sua seriedade ao dizer que tinha uma coleção de sorrisos. Que coisa mais maluca! Como alguém poderia guardar um sorriso dentro de uma caixinha de madeira?
            Já me dirigindo ao banheiro tive uma idéia; após comer alguma coisa voltaria ao quarto de minha avó para saber um pouco mais sobre o mestre Ciro.
            Quando bati na porta ouvi a voz da vovó:
            _ Entre, meu querido! Está só encostada.
            Abri devagar e me desculpei:
            _ Vó, eu não queria incomodar, mas tem uma coisa que não sai da minha cabeça!
            Ela abriu um grande sorriso e disse:
            _ Eu sei, meu jovem, eu sei, você quer perguntar sobre o velho Ciro, não é? Ele falou sobre a coleção de sorrisos, não foi?
            Eu já imaginava que ela saberia o motivo da minha volta ao seu quarto e concordei.
            Apontou uma banqueta que ficava próxima à sua poltrona, dizendo:
            _ Senta aqui perto da vovó, que eu vou fazer uma coisa que não faço há muito tempo e que tenho saudade... vou contar uma história pra você.
            Sorri um tanto sem jeito, mas a idéia me agradou muito, pois durante toda minha infância e em boa parte de minha adolescência eu me deliciei com as histórias fabulosas que Vó Eulália me contava. Sentei-me e esperei.
            Ela colocou uma mão no meu queixo, olhou-me nos olhos com profunda ternura antes de dizer:
            _ Você se tornou um homem muito bonito, meu querido! E não poderia ser diferente porque sempre foi um menino maravilhoso. Mas vamos ao que interessa.
            _ Era uma vez...
            Eu dei uma boa gargalhada e, junto comigo, minha querida avó. Quando paramos de rir ela disse:
            _ Mas não é assim que sempre começam as histórias?
            Concordei e tentei segurar o riso para que ela começasse a contar a história. E ela prosseguiu:
            _ A verdade, meu querido, é que o velho mestre Ciro é um mago. – Disse e ficou esperando minha reação. Ao perceber que demonstrava descrença, continuou.
            _ Espere! Não julgue antes de conhecer todos os fatos! Ciro tem poderes fantásticos.
            Eu não me segurei e perguntei.
            _ Que tipo de poder?
            _ O de ler pensamentos, por exemplo. O de ver a alma das pessoas. O de poder mudar o futuro...
            _ Qual é vovó? Eu não sou mais criança para acreditar nesse tipo de história! – Disse com certa indignação.
            Ela mais uma vez sorriu paciente, colocou o dedo indicador nos meus lábios e ordenou com carinho.
            _ Quietinho! Ouça tudo primeiro e depois faça o seu julgamento.
            Concordei um tanto a contragosto.
            _ Bem, como eu dizia, Ciro é um mago. Quando eu o conheci ele já era adulto e eu uma pré-adolescente querendo descobrir as coisas da vida. Saíra da escola mais cedo e resolvi fazer um passeio por um bosque que tinha nas imediações. Depois de andar um bocado, de ter admirado as flores e as árvores, vi um homem sentado em um dos bancos feitos com troncos de árvores. Percebi algo em suas mãos. Ao me aproximar notei que era um pássaro preto de coloração um pouco azulada; acho que era uma graúna. Fui me aproximando, percebi que ele conversava com o pássaro e este dava a impressão de estar prestando atenção ao que o homem dizia. Chegando ainda mais perto deu para ouvir sua voz e, seja lá o que ele estivesse falando com o pássaro, não era em nosso idioma e também em nenhum outro cuja sonoridade eu já tivesse ouvido antes. Achei fascinante aquilo e não consegui me afastar. Ele percebeu e fez sinal com a mão para que eu me aproximasse. Fiquei um pouco indecisa, mas a curiosidade foi maior e cheguei mais perto.
            _ “Boa tarde, linda menina! Saiu mais cedo da escola hoje?” - Perguntou.
            _ Eu concordei com um sinal afirmativo de cabeça e ele, percebendo minha indecisão, disse:
            _ “Não tenha medo. Não vou lhe fazer mal algum. Estou aqui conversando com meu amigo empenado”.
            _ Como não me manifestei, ele continuou:
            _ “Não quer saber o que eu estava dizendo para ele?”
            _ Mais uma vez disse que sim com um sinal de cabeça. Ele sorriu e explicou.
            _ “Ele me disse que está com uma asa quebrada e que não pode voar, mas eu estou tentando convencê-lo de que a asa não está quebrada e que, se ele perder o medo, poderá voar normalmente”.
            _ Eu fiquei um pouco assustada com aquela conversa e ele percebeu.
            _ “É verdade! – Sorriu – É difícil acreditar, não é? Mas eu posso mesmo falar com os pássaros. Preste atenção!”
            _ Voltou a olhar para o pássaro preto e disse algumas palavras naquele estranho idioma que eu tinha ouvido. Depois de breves minutos, levantou-se, repetiu e jogou o pássaro para cima. Meio titubeante ele começou bater a asas para, em seguida, sair voando até ao galho de uma grande paineira. Mais alguns segundos, o pássaro voou de volta, pousou nos dedos do homem e imediatamente retornou ao seu vôo, desaparecendo na mata.
            _ Eu estava completamente fascinada com tudo aquilo. Ele me olhou e, sorrindo, disse:
            _ “Feche a boca senão entra mosquito!”
_ E deu uma sonora gargalhada, Passou a mão nos meus cabelos e saiu caminhando, assobiando uma bonita melodia.
            _ Fiquei como que paralisada. Só consegui me recuperar depois de alguns segundos, e quando olhei para trás, Ciro já havia desaparecido.
            Eu olhava para minha avó enquanto pensava que me contava uma história ainda acreditando que eu tivesse sete ou oito anos. Mas como havia prometido não julgar nada antes de conhecer todos os fatos, limitei-me a balançar a cabeça. Ela percebeu.
            _ Calma! Estou só no começo ainda!
            Arrumou os óculos que já estavam quase dependurados em seu nariz e prosseguiu com a narrativa.
            _ Acho que se passaram uns quinze, talvez vinte dias. Eu saía da igreja quando, na pracinha que ficava em frente, vi Ciro cercado de garotos que riam com muita vontade. Apesar de só ter meninos eu me aproximei. Ele me viu e disse:
            _ “Oi Eulália! Como vai? – Ele perguntou.”
            _ Fiquei surpresa porque eu não havia dito o meu nome naquela única vez em que nos encontráramos. Aproximei-me um pouco mais e respondi: Vou bem. E o senhor?
            _ Ciro tinha um sorriso franco.
            _ “Eu estou ótimo. Lembra-se daquele pássaro?”
_ Eu balancei a cabeça afirmativamente
_ “Eu o encontrei há uns três dias e ele mandou lembranças para você. Disse também que você é uma menina muito bonita.”
            _ Devo ter corado muito, porque os garotos caíram na risada. Ciro então falou:
            _ “Agora vocês vão brincar porque eu preciso conversar um assunto sério com a Eulália.”
            _ Os meninos se levantaram e saíram protestando.
            _ Ele se afastou um pouco para dar lugar no banco em que estava sentado e, batendo com a palma da mão sobre ele, disse:
            _ “Sente-se aqui!”
            _ Eu, mais confiante, sentei-me e fiquei esperando o que aquele estranho e fascinante homem tinha para me dizer. E ele começou:
            _ “Eulália, eu tenho muitas coisas importantes para dizer a você, mas antes eu quero que pague pelos meus serviços.”
            _ Pagar? Como, se naquela idade a coisa mais difícil era conseguir algumas moedas dos meus pais, já que os tempos eram bastante difíceis? Mas ele explicou:
            _ “Não, eu não quero dinheiro.”
_ Abriu uma grande bolsa de couro que levava a tira-colo e de dentro dela tirou uma caixinha de madeira. Mostrou-me e eu vi que ela tinha uma pequena placa de metal com o meu nome.
            _ “Eu quero que você me pague com um sorriso. Com um dos seus lindos sorrisos. Se você concordar, vou guardá-lo nesta caixinha para todo o sempre. Concorda?”
            _ O simples fato de ele ter dito isso já me fez sorrir abertamente. Ele também sorriu e explicou, perguntando:
            _ “Mas eu preciso da sua aprovação para guardá-lo. Posso?”
            _ Eu balancei a cabeça concordando. Ele abriu a caixinha, aproximou-a dos meus lábios, fechando rapidamente a tampa em seguida. Aquilo fez com que meu sorriso se transformasse numa gargalhada no que fui acompanhada por ele. Em seguida ele me falou sobre coisas que não vêm ao caso dizer nesta história, mas foi por conhecê-las que eu pude minimizar muitas situações ruins em relação aos meus entes queridos: meus pais, meus irmãos, seu falecido avô, seu tio e sua mãe, seu pai e também você e com seu irmão. Graças aos ensinamentos de Ciro pudemos viver felizes como sempre vivemos. Acabou a história e morreu a vitória. Saiu por uma porta e entrou pela outra, quem quiser que conte outra.
            E riu à vontade, como havia muito tempo eu não via aquela mulher rir. E cada vez que olhava a minha expressão de espanto, ria ainda mais.
            Eu me levantei e disse:
            _ Está bom, vovó! Se serviu para fazer você rir assim, valeu fazer papel de bobo!
            Ela parou de rir de imediato. Com o seu olhar mais sério e semblante fechado, falou secamente.
            _ Menino, eu nunca falei tão sério com você, como acabei de falar. Agora resta a você acreditar ou não – E levantando-se visivelmente contrariada – Agora se você me der licença, eu preciso dormir porque já está tarde.
            Levantei-me, arrependido de ter agido daquela forma e, enquanto saía, me desculpei:
            _ Puxa, desculpe vovó! Não quis ser grosso com a senhora. Boa noite e durma bem. A sua benção!
            A voz dela amaciou quando respondeu:
            _ Deus te abençoe meu querido! Que Ele continue te abençoando como sempre fez.
            Saí, fechei a porta e fui para o meu quarto. Precisava dormir, pois teria que me levantar muito cedo na manhã seguinte.
            Demorei muito para conciliar o sono pensando em tudo aquilo e, durante as poucas horas em que dormi, tive sonhos confusos e estranhos. E o mestre Ciro estava presente em todos eles.
            Na manhã seguinte não consegui me concentrar no trabalho. Por diversas vezes fui pego pelos colegas, divagando. Começou a se tornar cômico originando algumas piadinhas, principalmente entre as colegas, sobre a possibilidade de eu estar apaixonado.
            Por volta das onze horas, já conformado de que não conseguiria produzir nada que prestasse, decidi enfrentar meu chefe pedindo o resto do dia de folga. Ele ficou surpreso, pois isso nunca havia acontecido, mas permitiu.
            Deixei o edifício onde ficam os escritórios da empresa e quando me dei conta já estava na Praça da Memória em direção à Rua da Lembrança. Passei por Dona Consuelo, desejei um bom dia apressado, ignorei a rosnada do Fiel e consegui ouvir a mulher resmungar:
            _ Voltou mais depressa do que eu imaginei!
            Parei em frente à oficina do mestre Ciro e as portas estavam fechadas. Fiquei um pouco indeciso, mas resolvi bater na mesma porta do dia anterior.
            Não demorou mais do que cinco segundos para que ouvisse o ranger do ferrolho. A porta se abriu e o velho homem, com o sorriso que parecia eterno, disse:
            _ Bom dia, meu jovem! Vamos entrar. Entre... entre! Eu já esperava por você!
            Aquela afirmação não me deixou nem um pouco surpreso porque eu tinha a certeza de que ele sabia que eu voltaria. Entrei e esperei que ele chegasse até atrás do balcão para acender a luz. Assim que o ambiente se iluminou, voltou-se para mim e perguntou:
            _ O quê você veio fazer, meu prezado amigo?
            Eu não sabia bem por onde começar, mas como numa enxurrada de palavras contei tudo que havia acontecido desde que eu deixara a sua oficina, falei sobre o que minha avó contara e, antes que perdesse o fôlego no meio de frases algumas vezes confusas, ele sorriu e disse:
            _ Calma, menino. Não precisa ficar assim tão excitado. Tudo isso que está acontecendo com você é absolutamente normal. Calma!
            Procurei me controlar com todas as forças antes de perguntar:
            _ Afinal, quem é você? Minha avó disse que é um mago, mas eu não sei se acredito nessa história.
            O velho homem saiu de trás do balcão, arrastou uma grande cadeira de madeira para próximo de mim, convidando:
            _ Sente-se! Eu vou responder todas as perguntas que você quiser. Mas tenha calma.
            Sentei-me e esperei. Ele sentou-se num banquinho de pernas altas, também de madeira, e disse:
            _ Em primeiro lugar saiba que somos todos magos.
            _ Todos quem? O senhor, minha avó, Dona Consuelo?
            Ele mantinha o sorriso inalterado.
            _ Todos os seres humanos. Você também é um mago, apenas não se preparou para deixar fluir todo o seu potencial, assim como a enorme maioria da raça humana.
            _ Como poderia ter me preparado se nunca soube da possibilidade de ser um? – Perguntei indignado.
            _ Nunca soube, porque nunca acreditou! – O velho disse isso com uma certeza no olhar que fez com que eu duvidasse de minhas dúvidas. E continuou:
            _ Quando somos crianças, os adultos, mesmo sem saber, nos dão todas as informações necessárias. Mas o fato é que eles nos passam essas informações como se fossem apenas histórias, contos de fada, ou coisas semelhantes. – E continuou:
_ A sua avó, por exemplo, fez de tudo para que você se conscientizasse disso, mas quando criança você apenas se deleitava com as histórias. Quando chegou à adolescência, muitas vezes achava graça das mesmas histórias, até perder totalmente o interesse.
            Eu resolvi interromper.
            _ Tudo bem, vou aceitar tudo isso como verdade, mas eu quero saber de uma coisa apenas: que coisa é essa de coleção de sorrisos?
            O velho mestre tornou a sorrir, mas desta vez, pareceu-me que com tristeza e decepção.
            _ Quer dizer que o seu único interesse é saber sobre a coleção de sorrisos? Foi apenas a curiosidade que fez com que você voltasse aqui?
            Eu percebi que havia feito alguma coisa errada, não sabia bem o quê, mas decepcionara o velho mago.
            _ Mas qualquer um ficaria curioso com essa história! – Disse tentando me defender.
            _ A curiosidade é comum a todos os seres humanos, mas para os que desejam ser magos é preciso querer saber o porquê e como. E não parece que esse seja o seu caso.
            Fiquei sem saber o que dizer. Abaixei a cabeça e senti que minha curiosidade não seria satisfeita. O mestre Ciro balançou a cabeça, levantou-se e disse:
            _ Vá embora, meu jovem! Você ainda não está preparado. É uma pena, mas ainda não chegou o seu tempo.
            Pensei em argumentar, porém o ar decidido do velho não me deixou alternativa. Levantei, estendi a mão, que não foi apertada como na primeira vez, disse um até logo e saí com uma sensação muito ruim dentro de mim. Estava indo embora bem pior do que havia chegado.
Talvez tenha passado três ou quatro anos e, aos poucos, toda aquela história foi ficando mais ou menos esquecida. Nunca mais toquei no assunto com minha avó e muito menos passei pela Rua da Lembrança. Segui minha vida exatamente como era antes daquele dia em que fui buscar a caixinha de música na oficina do mestre Ciro.
            Foi numa tarde de sábado. Eu resolvi dar umas voltas seguindo a esmo, sem destino definido. Depois de andar por vários lugares, acabei entrando no bosque. Caminhei pelas alamedas apreciando os ipês roxos que estavam plenamente floridos, me encantei com uma panapaná de borboletas amarelas, até que me sentei num dos bancos toscos feitos de troncos de árvores. Eu sentia uma tristeza profunda sem saber exatamente de onde ela vinha.
            Ela surgiu de repente, como que do nada. Trajava um vestido leve todo florido e sandálias rasteiras. Trazia uma flor nos cabelos negros que emolduravam uns maravilhosos olhos verdes.
            Quando passou por mim sorriu. E foi um sorriso como nenhum outro que tinha até então recebido ou visto. Um sorriso que iluminou minha alma fazendo com que aquela tristeza desaparecesse como que por um encanto. Um sorriso que merecia ser eternizado num quadro como a Mona Lisa, numa estátua como La Pietá, numa fotografia ou... numa caixinha de madeira!
            Meu coração pareceu disparar. Numa caixinha de madeira com uma placa de metal gravada com o nome dela. Mas qual nome? Levantei-me e corri atrás da linda moça. Ao me aproximar disse:
            _ Desculpe, não me leve a mal, mas eu posso saber seu nome?
            Ela parou de repente, me olhou um pouco assustada, mas deve ter percebido a sinceridade do meu olhar e novamente sorriu ao dizer seu nome.
            _ Laura.
            Eu também sorri e disse.
            _ Laura! Desculpe o meu atrevimento, mas você tem o sorriso mais lindo que já vi em toda minha vida!
            Ela demonstrou ter ficado um tanto encabulada e ainda sorrindo agradeceu.
            _ Obrigada! Você é muito gentil. E seu nome qual é?
            Quando ia responder olhei por cima dos seus ombros e vi, encostado a uma árvore, um velho homem, com um sorriso que lembrava Papai Noel. Um homem chamado mestre Ciro.
            Pedi à moça que me desculpasse e aguardasse um minuto. Corri até ao mestre e disse:
            _ Mestre, agora eu sei por quê!
            Ele passou a mão nos meus cabelos enquanto exclamava:
            _ Eu sei! Eu sei!
            E levando a mão para dentro uma bolsa de couro velho que levava a tira-colo, retirou uma caixinha de madeira com uma placa de metal. Entregou-me dizendo:
            _ Depois você grava o nome dela.
            Peguei o velho homem pelo rosto com as duas mãos e, abaixando sua cabeça, beijei sua testa, saindo correndo de volta aonde Laura me esperava. Cheguei um tanto excitado e disse:
            _ Posso guardar o seu sorriso dentro dessa caixinha?
            A sua primeira reação foi de espanto, para em seguida sorrir com vontade.
            _ Mas eu preciso que você me autorize. Posso?
            Ela balançou a cabeça afirmativamente.
            Abri a tampa da caixinha, aproximei-a de seus lábios e fechei-a rapidamente.
            Eu havia descoberto que a magia da vida está nos sorrisos que provocamos e nos sorrisos que nos são dirigidos com sinceridade. Descobri que com um sorriso somos capazes de modificar tudo, inclusive fatos que podem ser muito negativos em nossa vida. Descobri que através dos sorrisos podemos conhecer a alma das pessoas e nos comunicar com todos os seres vivos. Descobri que uma relação baseada em sorrisos não conhece nem o tempo e nem o espaço. E o sorriso de Laura foi o primeiro de centenas de que iriam compor a minha coleção.
            Enquanto deixava o bosque em companhia de Laura, olhei para trás e vi o velho mestre Ciro balançando uma caixinha para mim. Decidi que no dia seguinte iria até a sua oficina pagar pelos seus ensinamentos com o meu sorriso, pois sabia que naquela caixinha tinha uma placa de metal gravada com o meu nome.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

As asas do beija-flor

Pedro guardou o carro na garagem e acionou o controle remoto para que o portão se fechasse. Estava mais cansado do que normalmente, pois o dia tinha sido muito puxado. Reuniões intermináveis sem os resultados esperados. Não via a hora de tomar um banho morno e sentar-me frente à televisão para espairecer. Subiu o lance de escada e abriu a porta. Acendeu a luz e ficou paralisado com o susto. Sentado no seu sofá preferido estava um homem que nunca vira antes. Depois do impacto inicial, Pedro pousou sua maleta no assoalho da sala e perguntou:
            _ Quem é você? O que está fazendo na minha casa?
            Sem se levantar, o estranho disse com voz pausada:
            _ Eu vim acertar umas contas com você!
            Pedro não entendeu, pois tinha certeza de nunca ter visto aquele homem.
            _ Acertar contas? Eu não lhe devo nada! Aliás, nem sei quem é você! Se não sair agora mesmo eu vou chamar a polícia.
            O homem não se alterou.
            _ Chame se quiser. Até eles chegarem aqui você já terá pagado o que me deve.
            Pedro imaginou que o homem fosse um desequilibrado e tentou manter a calma.
            _ E afinal, o que lhe devo?
            O homem levantou-se e caminhou até mais próximo do dono da casa.
            _ Dezoito anos de vida.
            Pedro deu dois passos para trás para evitar uma aproximação maior daquele homem que, agora tinha certeza, era um desequilibrado mental.
            _ Dezoito anos de vida! Como eu posso estar devendo isso a você se nem ao menos o conheço?
            O homem também parou e olhando bem nos olhos de Pedro e disse.
            _ Eu poderia dizer que você me deve a vida de minha falecida esposa, mas não seria justo!
            Pedro começou a sentir que tremia.
            _ Eu não estou entendendo! Eu não conheço você e não faço a menor idéia de quem tenha sido a sua esposa!
            O homem levou a mão direita para trás do corpo e, da altura da cintura, tirou uma arma. Apontou com ela uma poltrona e disse:
            _ Senta aí que você vai entender.
            Pedro pensou em sair correndo, pois a porta ainda estava semi-aberta, mas com certeza o homem o atingiria pelas costas antes que conseguisse descer a escada. Preferiu obedecer.
            O homem também se sentou no sofá. Com a arma sempre apontada para Pedro, disse:
            _ Por sua causa eu matei minha mulher!
            Pedro não conseguia entender. Será que tivera algum caso com alguma mulher casada sem saber?
            _ Olha, se eu tive alguma coisa com sua mulher quero que saiba que foi sem saber se ela era casada! Qual era o nome dela?
            Os olhos do homem passaram da frieza para a raiva.
            _ Como ousa achar que Miriam fosse capaz de me trair?
            A arma apontada pareceu ainda mais ameaçadora.
            _ Desculpe! Eu estou querendo entender como posso ter levado você a matar sua esposa!
            O homem pareceu voltar a se controlar. Ficou olhando Pedro sem dizer nada, apenas apontando a arma.
            _ Eu nunca conheci nenhuma Miriam! Qual é o seu nome! Eu juro que nunca vi você antes.
            O homem balançou a cabeça concordando:
            _- Acredito que você nunca tenha me visto, que não saiba meu nome e nem conhecia minha Miriam, mas foi o principal responsável pela desgraça que aconteceu em minha vida!
            Pedro suava. A boca estava seca e começou sentir que precisava ir ao banheiro, mas achou que seria humilhante demais pedir. Analisou melhor o homem e concluiu que ele deveria ter uns cinqüenta anos. Mas de onde tirara a idéia de que ele fosse o culpado pelo assassinado da esposa?
            O homem acendeu um cigarro sem largar a arma. Pedro detestava que fumassem em sua casa, mas não seria louco em protestar.
            Depois e dar algumas tragadas o homem recomeçou:
            _ Eu amava Miriam! Ela era tudo que eu tinha na vida, já que não pudemos ter filhos. Tínhamos as nossas brigas, mas eram desavenças comuns entre marido e mulher.
            O homem jogava cinzas no caríssimo tapete que Pedro tanto gostava, fazendo com que sua raiva aumentasse.
            _ Uma noite eu cheguei tarde. Tinha bebido um pouco demais. Miriam começou reclamar e falar, falar, falar. Eu queria apenas dormir. Mas ela não parava de falar e reclamar. Eu pedi que ela calasse a boca. Mas ela continuou falando e falando. Ela estava mais nervosa do que o normal e me agrediu. Tentei segurá-la, mas ela estava possessa. Acertou um tapa no meu rosto. Em rosto de homem não se bate. Eu perdi a cabeça, fui até a gaveta do criado-mudo. Peguei o revólver e atirei. Uma, duas... três vezes. Miriam levou a mão ao peito e caiu. Em pouco tempo havia uma poça de sangue. Tentei socorrê-la, mas era tarde demais. Por sua culpa, Miriam, o amor da minha vida, estava morta!
            Pedro ouvia tudo aquilo de boca aberta tentando descobrir onde ele se encaixava naquela história. Não conseguia. Como poderia ser culpado pelo fato dele ter bebido demais e atirado na mulher?
            O homem jogou o toco do cigarro sobre o tapete e pisou, deixando uma marca que, com certeza, ninguém conseguiria tirar. Parou de falar. Seus olhos pareciam olhar o nada. Então Pedro perguntou:
            _ Mas como eu posso ser o culpado? Se os dezoito anos de sua vida que você diz que lhe devo, você deve ter passado na cadeia por ter matado sua mulher, que culpa eu tenho? Há dezoito anos eu tinha apenas quatorze!
            O homem pareceu voltar de algum lugar mentalmente muito distante.
            _ Você já ouviu dizer que o bater de asas de um beija-flor no Peru pode provocar um furacão no Japão?
            Pedro, cada vez mais confuso, apenas disse que sim com um sinal afirmativo de cabeça.
            _ Pois foi isso que aconteceu! Eu nunca tivera uma arma em casa e jamais pensara em ter. Por sua culpa, comprei uma arma. Se eu não tivesse aquela arma em casa, não teria matado Miriam!
            Pedro sentia sua cabeça girar e achou que aquele homem não era apenas um desequilibrado, mas um completo doente mental.
            _ Mas o que foi que eu fiz para obrigar você comprar uma arma?
            O homem se levantou do sofá e aproximou-se de Pedro com o olhar cada vez mais ameaçador.
            _ Você pichou o meu muro. Escreveu palavrões. Eu pintei o muro e você tornou a pichar. Pintei uma segunda vez e, em menos de quinze dias, lá estavam as frases indecentes novamente. Foi por isso que comprei a arma, para acertar as contas com você. Mas, infelizmente, tudo aconteceu antes que você aparecesse novamente com seus sprays.
            Pedro lembrou-se que, na adolescência, realmente havia pichado alguns muros. De repente lembrou-se do muro a que o homem se referia. E era verdade, ele tinha se divertido muito na época, obrigando o dono a pintar e voltando para aplicar as frases chulas. Então disse:
            _ Se fui eu mesmo que pichei o muro de sua casa, me desculpe! Eu nunca poderia imaginar que aquela brincadeira de criança pudesse ocasionar um fato tão terrível!
            O homem engatilhou a arma, encostou o cano na cabeça de Pedro e disse:
            _ Vá pedir desculpas à Miriam!
            Pedro sentiu seu sangue gelar:
            _ Por favor, não faça isso! Foi coisa de criança! Não faça isso...
            Pedro ouviu um estampido e em seguida sentiu algo muito estranho dentro do seu cérebro. Tentou imaginar que som era aquele e, antes que tudo se apagasse, definiu que talvez fosse o barulho provocado pelas asas de um beija-flor!