Escrever com a alma perto da palavra sempre fora o principal talento de Jaime, e isso o fazia diferente de outros que ousavam trabalhar com a ordem das letras. Porém, ultimamente, a chispa parecia ter se apagado, ou se perdido entre os ponteiros do relógio que comandava seus dias ordenando-o aos compromissos sempre inadiáveis.
Jaime constantemente tentava se lembrar dos caminhos percorridos, em que ponto se perdera seu real ser. Para ele ficava bem mais simples culpar o casamento com Leonor e, a conseqüente chegada dos filhos, o que tinha gerado a necessidade do seguro sem espaço para o quem sabe. Sua mente, que em outros tempos era povoada por histórias e personagens, agora se perdia em cálculos. Cálculos sobre o espaço a ser percorrido para a chegança na hora marcada, cálculos entre o ganho e o despender. Cálculos, apenas cálculos.
E assim vivia, ou, como ele mesmo preferia dizer para si mesmo, assim morria Jaime; um pouco a cada dia.
Os velhos livros na estante, quase sempre empoeirada, haviam perdido o carinho de suas mãos, as páginas feitas por letras não recebiam mais o olhar apaixonado e embevecido do antigo amante. Será que eles também sentiam sua falta?
Foi no segundo dia de férias, há muito não gozadas, mas trocadas pela necessidade do dinheiro, que Jaime sentiu como se algo estivesse prestes a acontecer capaz de por fim àquela agonia.
Acordou além, muito além, dos ponteiros tiranos. Ficou na cama sem se mexer, temendo que qualquer movimento pudesse provocar o desencadear da velha rotina. Esperou tentando ouvir os barulhos da casa, um abrir ou fechar de torneira, o tilintar de copos e xícaras, um caminhar pelo corredor. Nada!
Teria Leonor saído com as crianças? Seria muito bom se fosse verdade, pois queria estar apenas consigo mesmo, coisa que não conseguia fazer havia muito tempo.
Depois da higiene matinal, abriu a porta do quarto devagar, apurou os ouvidos e confirmou a ausência de ruídos. Caminhou pelo corredor em direção à copa. Precisava de um café com urgência.
Encontrou a garrafa térmica amarela sobre a mesa. Odiava aquela garrafa, pois ela representava, todas as manhãs, o seu último toque antes de deixar de ser o ser para ser o deixar de ser. Talvez fosse apenas uma de suas bobagens, mas era assim que sentia.
Despejou boa quantidade de café na sua caneca de ágata e saiu em direção ao quintal em busca de um pouco de sol, pois seus ossos reclamavam de uma friagem além da sentida pela pele.
Olhou para a jabuticabeira e foi arremessado para algum ponto da infância, porém a dor no peito bateu tão forte que ele se trouxe de regresso imediatamente.
Não terminou o café. Jogou o que restava na xícara, no canteiro em torno da árvore e tomou a decisão.
_Vou escrever! Preciso escrever antes que o verdadeiro sentido das palavras morra dentro de mim – disse em voz alta.
Com passos rápidos voltou para dentro de casa, atravessou a cozinha e a copa, ganhou o corredor e quando chegou à porta de seu escritório levou a mão à maçaneta da porta e titubeou.
_Por quê? – pensou.
Talvez porque sentisse que ao abrir aquela porta daria início a um processo de mudança que havia conseguido conter até então. Pensou em voltar, mas já era tarde, se assim o fizesse estaria sepultando suas últimas esperanças.
Abriu-a devagar. A janela estava fechada e as cortinas cerradas. Acendeu a luz e, à sua frente, a velha estante parecia lhe abrir os braços para recebê-lo num afetuoso abraço. Foi até à janela, descerrou as cortinas e abriu seu mundo para o mundo.
Pronto, agora seria inevitável. O processo se iniciara e nada poderia detê-lo. Seu cérebro funcionava numa velocidade além do normal. Teve a ilusão de ouvir a introdução de “La Marseillaise” e sorriu. Sorriu como há muito tempo não sorria. Sentou-se em sua velha e amiga escrivaninha, abriu uma das gavetas retirando papel e sua ainda mais amiga Parker 51. Olhou pela janela, descobriu que no mundo ainda havia sol e começou.
Nos braços dos ventos me deixei levar como uma folha desprendida antes da hora do galho mãe. Deixei que me conduzisse, contrariando a minha natureza de ser meu próprio timoneiro. E enquanto voava, recordei-me de um lugar sob o azul do luar da noite sem ser, onde a vi em suas vestes de seda salpicadas de estrelas. Lembro-me de, ao albergá-la no peito, ouvi-la dizer-me quanto era minha. E seus olhos, como borboletas cintilantes, invadiram os meus, penetrando em meu dentro, indo pousar sobre meu coração que era todo flor à espera.
Mas os ventos inconstantes seguem rumos inesperados, e eu folha, nada podia fazer a não ser obedecer à direção do caminho. Deixou de existir o azul do luar da noite sem ser, para ser só noite, sem luar.
_Minhas borboletas! Onde estão minhas borboletas cintilantes?
Meu coração se transformou em flor sem o regado.
Os ventos impassíveis ao meu sofrimento continuaram soprando e eu folha...
_Papai! – foi o que Jaime ouviu depois do bater da porta de frente.
Pensou em não responder, fingir que não era, mas era, e sendo tinha que ser.
_Aqui no escritório, minha filha! – respondeu enquanto guardava na gaveta a folha de papel e a caneta.
A porta do escritório foi aberta como se um vento, bem mais forte que aqueles que até então o levavam, tivesse se jogado contra ela.
Marisa entrou correndo, indo abraçar o pai, sendo seguida de perto por Felipe que se debruçou sobre uma das pernas de Jaime num abraço feito só de ternura.
_ Papai! – começou Marisa – mamãe disse que você não vai trabalhar nem hoje, nem amanhã, nem depois, nem depois e nem depois. Então podemos ir no parquinho?
Jaime teve uma sensação parecida com revolta, e precisou controlá-a com grande esforço.
_Ah, papai! Vamos? Eu, você e o Fê.
E virando-se para o irmãozinho perguntou
_Você também quer ir, né Fê?
O menino abriu um lindo sorriso e fez sinal de sim com a cabeça.
Foi então que entrou Leonor, carregando sacolas do supermercado.
_Crianças! Deixem o papai em paz. Vocês terão muito tempo para irem ao parquinho até papai voltar a trabalhar! Não é verdade, meu amor?
Enquanto dizia, foi ao encontro do marido dando um beijo no alto de sua cabeça, coisa que sempre fazia e que já há algum tempo vinha irritando Jaime.
_É isso mesmo! – disse tentando sorrir – deixa o papai descansar hoje e amanhã ou depois nós vamos ao parquinho, está bom assim?
Marisa fez beicinho e olhou para mãe que, com um simples olhar definiu que ela deveria concordar.
_Tá bom, papai! Mas eu e o Fê podemos ficar brincando aqui no escritório com você?
Jaime olhou para a esposa buscando ajuda e ela entendeu de imediato.
_Deixem o papai em paz por hoje. Ele tem algumas coisas pra fazer e não pode ser incomodado.
Ao perceber que haveria reação por parte de Marisa, emendou.
_Vamos fazer bolinhos de chuva nós três?
A idéia agradou à menina que já saiu correndo na direção da cozinha, seguida por Felipe.
Jaime olhou para a esposa e disse
_Obrigado, Leonor!
A mulher sorriu para o marido e, pela primeira vez, ele percebeu que o sorriso da esposa era um misto de alegria e tristeza, de esperança e frustração.
_ Por quê? – pensou.
Leonor saiu fechando a porta do escritório com cuidado.
Jaime retirou o papel e a caneta da gaveta para retomar o seu mundo, mais uma vez interrompido.
Releu o que havia escrito e buscou borboletas cintilantes. Porém só consegui sentir o soprar dos ventos. Olhou para a mão que segurava a caneta e a viu como se fosse parte de uma folha seca. Deixou a Parker 51 sobre a folha de papel e foi até à janela para olhar o céu.
Há quanto tempo não fazia isso. Olhar o céu! E ele nunca deixou de estar ali. Viu o sol entre nuvens e esperou que saísse do seu esconderijo para perguntar por onde teria andado durante todos esses anos. Que bobagem! Ele sempre estivera ali. Então por que Jaime tinha a sensação de que não o via há décadas?
Voltou a sentar-se, mas nem tentou empunhar a caneta. Apenas leu e releu o que até então já tinha escrito. De alguma forma sabia que, pelo menos por enquanto, não teria de volta, nem borboletas e nem o azul do luar da noite sem ser.
Resolveu conversar com antigos amigos, seus livros. Um a um foi tomando-os nas mãos, acariciando couros e cartões das capas, folheando páginas e permitindo que algumas palavras, já tão conhecidas, invadissem seus olhos, não como borboletas, mas como beija-flores em busca do mel.
E os pássaros invadiram o seu ser de forma plena. Revoaram por suas entranhas despertando sentimentos dos quais já nem se lembrava. Prosas e versos fluíram por suas artérias bombeadas por um coração que renascia.
Quanto tempo isso durou, Jaime não poderia calcular. Talvez uma vida, ou apenas alguns minutos. Mas o que importa o tempo quando não se é prisioneiro dos ponteiros?
_Querido! – a voz de Leonor invadiu o enlevo como um Átila ou um viking conquistador fazendo com que Jaime voltasse à realidade.
_Diz, Leonor! – respondeu fazendo o possível para disfarçar a irritação.
_ Vem almoçar, meu amor. Está na mesa! – disse ela.
Jaime recolocou os livros que ainda tinha sobre o colo em seus devidos lugares, não sem antes acariciá-los mais uma vez. Agradeceu à velha estante e saiu do escritório em direção à copa.
Assim que chegou, a voz de Marisa soou alegre.
_Veja, papai! Bife acebolado e batata frita do jeito que você gosta. E eu ajudei, não é verdade mamãe?
_Sim, meu amor! Se não fosse sua ajuda a mamãe não teria conseguido fazer tudo isso – disse Leonor enquanto ajeitava Felipe no cadeirote.
_Viu, papai! Já sou uma mocinha! –
Jaime sorriu sem precisar forçar. Um sorriso verdadeiro.
_É sim, minha princesa. Você já é uma mocinha que ajuda a mamãe! – respondeu.
Com um prato na mão, Leonor perguntou:
_Quer que eu te sirva, querido?
_Obrigado – disse Jaime – não estou com muita fome, pois levantei mais tarde. Deixe que eu mesmo me sirva da quantidade que achar conveniente – sentou-se na outra ponta da mesa, seu lugar de costume.
Antes de se servir, o homem ficou prestando atenção na esposa que preparava os pratos dos filhos, sem perceber que era observada pelo marido.
Jaime continuou assistindo àquela cena de todo dia, mas que parecia ter cheiros e cores diferentes. Olhou no rosto da mulher e percebeu, talvez pela primeira vez, que Leonor já começava a demonstrar sinais da idade. Alguns pés de galinhas em torno dos olhos, marcas de expressão acentuadas, certo ar de cansaço, mas ainda guardava a beleza da namorada, da noiva e da amante.
Olhou para Marisa que demonstrava grande alegria pela boa quantidade de batatas fritas que a mãe tinha colocado em seu prato. Depois olhou para Felipe e se surpreendeu ao perceber que o filho estava com os filhos fixos nele, como que perguntando alguma coisa. Sorriu para o menino, que retribuiu de uma forma que nenhum escritor com a alma perto da palavra poderia descrever.
Só então percebeu que Leonor havia parado de comer e olhava para o marido com ar de incerteza, de dúvidas, até de angústia.
Jaime estendeu os braços sobre a mesa, empurrando com um dos cotovelos o prato de batatas, buscando as mãos da mulher que, sem entender, posou o garfo ao lado do prato e segurou as mãos do marido. Foi só então que percebeu duas lágrimas se equilibrando nos cantos dos olhos daquele homem que tanto amava, e fez ar de preocupada.
Jaime apertou as mãos da mulher e disse.
_ Leonor. Eu sou a caneta e você é a folha de papel. Marisa e Felipe são os dois mais lindos poemas que eu escrevi em toda a minha vida. Obrigado!
Dos olhos da mulher se desfez o misto, desaparecendo a tristeza e a frustração, deixando brilhar apenas a alegria e a esperança entre duas lágrimas que pareciam jóias. E eles se transformaram em borboletas cintilantes que invadiram os de Jaime, penetrando pelo seu dentro, indo pousar sobre seu coração que era todo flor, sem espera.

Nenhum comentário:
Postar um comentário