quarta-feira, 13 de julho de 2011

A vida começa aos quarenta anos


Quantas vezes você já ouviu dizer que a vida começa aos quarenta?
Se for verdade, para que serviram aqueles 14.610 dias que foram vividos até então?
Se a vida deve ser aproveitada a cada segundo, aos quarenta anos, você já terá vivido 1 bilhão e 200 milhões de segundos. Terá sido um desperdício ou valeram como aquecimento antes de entrar, efetivamente, no jogo?
        Alguns, mais radicais, acreditam que a vida começa no exato momento em que o espermatozóide se encontra com o óvulo.
Os adeptos ao aborto são da opinião que a vida se inicia, mesmo, após o terceiro mês de gestação.
Aqueles que acreditam na reencarnação têm certeza de que toda vida começou há milhares de anos e que estamos apenas vivendo mais uma etapa, ou oportunidade para aperfeiçoamento.
Afinal, quando será que a sua vida efetivamente começou?
Para Clarice tudo isso era absolutamente irrelevante, pois ela tinha a plena convicção de que a vida dela tinha começado exatamente no momento em que conhecera o Anselmo. Antes disso, não havia absolutamente nada que valesse a pena ser registrado ou simplesmente lembrado.
Os dois se conheceram na sala de espera do gastroenterologista. Ela tinha ido fazer uma endoscopia e estava morrendo de medo. Anselmo, que já havia feito o mesmo exame anteriormente, gentilmente, fez de tudo para acalmá-la, dizendo que não era tão ruim quanto se costumava pensar.
Quando ela saiu da sala de exame estava um pouco tonta e Anselmo se ofereceu para acompanhá-la até em casa. Trocaram telefones e, dias depois, ele ligou para saber se ela estava bem. Daí para marcarem um encontro foi um pulo e, após mais alguns encontros, pularam para a cama de um motel. E como pularam! Nos seus trinta e quatro anos de existência e quinze de vida sexual, Clarice nunca tinha experimentado tanto prazer. Sua gastrite desaparecera como num passe de mágica.
Como ela morava sozinha, em alguns meses, Anselmo mudou-se para lá, levando seus poucos pertences, pois, desde que saíra de casa aos dezesseis anos, sempre havia morado em repúblicas e pensões.
Há anos, Clarice trabalhava em uma grande companhia de seguros e havia alcançado posto de importância e salário bastante compatível com o cargo e responsabilidades. Nesta grande história de amor apenas uma coisa incomodava Clarice; a diferença de idade entre eles: Anselmo era quase doze anos mais jovem.
Era com Dalva, sua única amiga, que Clarice abria seu coração e deixava claros os seus temores: quanto ela tivesse quarenta anos, Anselmo estaria com apenas vinte e oito. Como seria?
E Dalva dizia:
_Que nada! A vida começa aos quarenta!
Em comum acordo, decidiram que não deveriam ter filhos.
Aproveitando a boa situação financeira de Clarice, Anselmo retomou os estudos, que fora obrigado interromper e, formou-se em Direto.
Assim, quando Clarice chegou aos seus preocupantes quarenta anos de vida, Anselmo já exercia sua profissão e estava indo muito bem.
Nos últimos dois anos, a vida a dois é que não ia tão bem. Clarice tinha constantes cenas de ciúme, onde o alvo de suas suspeitas era sempre uma mulher bem mais jovem e em idade mais compatível com a de Anselmo.
Talvez, por isso, Clarice começou sentir fortes dores no estômago. Sua gastrite voltara incomodar. Precisava fazer uma nova endoscopia para avaliar como as coisas estavam.
Devido a uma importante audiência no Fórum, Anselmo não pode acompanhá-la.
Clarice acreditava que desta vez seria mais fácil, mas quando se viu sozinha na sala de espera, começou entrar em pânico.
Fernando procurou acalmá-la, pois ele já estava fazendo o exame pela terceira vez e garantia que não era tão ruim. Fernando fez o exame antes e, quando saiu deu a maior força dizendo que se ela mantivesse a calma tudo iria dar certo.
Quando Clarice saiu da sala de exames, Fernando, com visível e honesto ar de preocupação, esperava para saber se tudo tinha corrido bem. Clarice sentiu-se grata e como ele estava sem carro ofereceu carona.
No caminho, ficou sabendo que o rapaz estava cursando engenharia eletrônica e já fazia estágio numa importante empresa do ramo, onde deveria permanecer após a formatura no final do ano.
Numa pequena praça, próxima a casa do rapaz, Clarice estacionou o carro e ficaram conversando como se já se conhecessem há muito tempo. Daí para um caso foi um pulo e Clarice deu seus pulos por alguns meses até abrir todo o jogo com Anselmo.
Anselmo tentou vários argumentos para demover a companheira da separação, até mesmo a grande diferença de idade entre ela e Fernando. Clarice, no entanto, garantiu que nunca fora tão feliz; que, apesar de Fernando ter apenas vinte e cinco anos, mostrava uma maturidade muito grande e que, afinal, a vida começa aos quarenta.
Demorou anos para que Anselmo se recuperasse. Anos que foram vividos em plena felicidade por Clarice e Fernando.
Clarice agora está próxima dos 50 anos. Apesar de Fernando nunca ter dado nenhum motivo comprovado, ela, ultimamente, está se sentido bastante insegura.
 Dalva, sempre ao seu lado, tem procurado mostrar que a amiga está vendo coisas onde não existem, mas Clarice tem sentido um pouco de queimação no estômago e talvez precise fazer uma nova endoscopia.

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