Na primeira vez que a viu foi a vez da surpresa. Na segunda, a vez do encanto. Já na terceira, Pedro estava completamente enfeitiçado por ela. Era tudo que ele passou a querer e nada que devesse cobiçar. Apenas uma menina que de moça tinha pouco e de mulher quase nada. Pedro já era de todo homem e de experiência muita. Para ele os quarenta já chegavam e para ela os vinte ainda pareciam distantes.
Menina-moça, filha primeira de amigo de infância que há muito não via, era mais sobrinha do que uma possível amante. Então por que o coração batia forte e o desejo era tão grande?
Pedro quis fazer-se pedra, mas o fogo era tanto que fundia elementos transformando as idéias em amálgamas incandescentes. Só restavam o segredo e os cuidados para não se trair nos gestos e palavras. Era preciso medir com exatidão a distância da aproximação e as demonstrações de carinho. Em cada abraço, nos pequenos beijos ou toques era preciso aparentar a mesma inocência que dela parecia vir. Foram meses de suplício e suores imputados aos dias nem tão calorentos assim.
Com bravura, Pedro vencia as tentações que a luxúria teimava. Cada vez que ficavam a sós, para ele era o mesmo deserto onde o mal tentou as resistências da maior expressão do bem. Cada momento desses parecia durar quarenta dias e quarenta noites. E o seu jejum não era de comida e nem de água. Era de amor e prazer.
Mas há o tempo! Ah o tempo!
O tempo faz com que a vigilância esmoreça deixando transparecer os mistérios das coisas ocultas. Nada fica nas sombras para sempre ao poder inexorável do tempo.
Talvez tê-la visto acompanhada do primeiro namorado tenha sido a adaga mais forte que lhe rompeu a armadura. Pensando bem, foi ao vê-la aos primeiros beijos que a muralha começou a ruir. Pedro tentou ser um menino herói holandês e colocar um dedo na rachadura, mas, infelizmente, de menino nada mais tinha e de herói nunca tivera. E o dique crescia perigosamente parecendo que se romperia à próxima gota d’água.
A única solução seria afastar-se. À distância parece que os sofrimentos se amenizam ou as forças crescem.
No entanto, afastar-se também significa estar longe, ou não tão perto quanto o desejado. Mas o perto desejado seria perto demais.
Não demorou em virem as cobranças do afastamento. Do amigo a sinceridade do sentir a falta, e dela os beicinhos mimados de quem sentia a distância do tio.
Tio era o que mais doía. Ser tio do ser desejado só poderia ser uma travessura do tempo! Uma maldade cronológica, biologicamente inaceitável.
O chamado constante para o retorno ao convívio mais próximo foi mais forte do que as paliçadas morais erguidas a contragosto. A volta foi como uma festa para todos, menos para Pedro que sentia cada vez mais fracas as resistências impostas.
O domingo se fazia tarde, quase noite, e a churrasqueira à beira da piscina já transformara as brasas em cinzas. Dentro da água só Melissa num biquíni que do branco ressaltava ainda mais as formas douradas e perfeitas.
Pedro, deitado em uma cadeira, fingia dormir, enquanto os outros já tinham sido vencidos pelos excessos do comer e do beber e haviam se retirado.
Com os olhos semicerrados ele via a menina-moça-mulher-desejo dar braçadas, sair pelas bordas e voltar a se jogar para novas braçadas.
Como suportar tamanho martírio? Cada vez que ela saía da água parecia que seu biquíni ficava ainda menor.
Se antes para Pedro era difícil esconder os sentimentos agora ficava impossível disfarçar o desejo, pois parte de sua anatomia nada sabia de compromissos morais. A toalha jogada sobre o colo tentava disfarçar, sem muito sucesso.
O coração de Pedro quase parou quando percebeu que ela se aproximava. Ainda fingindo dormir, fechou um pouco mais os olhos para que estes não o traíssem. Pôde sentir sua presença e foi inevitável o susto quando ela, ao seu lado, espremeu os cabelos molhados para que a água fria caísse sobre o seu peito nu. O susto levou à reação do pulo na cadeira e, sem perceber, estava de pé ao lado da ninfa, deixando a toalha cair ao chão.
Os olhos dela foram certeiros. Em fração de segundos seus olhos passaram da surpresa para a satisfação de toda mulher quando se sente desejada.
Pedro, sem ação, percebeu tudo isso enquanto com uma risada marota ela correu de volta para a água.
O homem ficou ali parado, apenas olhando.
De dentro d’água ela fazia sinais para que ele também entrasse. Parecia querer demonstrar certa cumplicidade, mas isso para Pedro não passava de sua imaginação alimentada pelo desejo. Quis fugir e buscou nos labirintos da mente as rotas de fugas até então utilizadas. Nenhuma delas lhe parecia possível.
Entre a exposição e a proximidade, preferiu a segunda e jogou-se na água.
Quando voltou à tona Melissa já estava próxima e por de trás forçou seus ombros com as duas mãos na tentativa de novamente afundá-lo. Foi inevitável, como inevitável é o inevitável; o corpo da moça-mulher-desejo roçou o seu, multiplicando os já confusos sentimentos e as reações hormonais. Foi a vez do troco, e ele, de novo à tona, agarrou-a pela cintura na intenção de jogá-la novamente na água. Melissa virou-se, mas ainda mantendo a cintura presa nas duas mãos fortes de Pedro. Ficaram frente a frente e os olhos se cruzaram. Os lábios da mulher-desejo estavam próximos demais e, como imã e ferro, as bocas se atraíram num beijo maravilhosamente pecaminoso, pois havia o paradoxo da permissão do proibido. E como paradoxais são os sentimentos, foi o mais longo curto beijo que macho e fêmea já trocaram.
Pedro soltou Melissa que parecia confusa. Buscou a fuga, e ao sair da piscina olhou para ela que agora, aos seus olhos, era só desejo. Enquanto saia sem se despedir, pensava em como fazer o caminho de volta à sua fortaleza. E para quê, se todas as torres haviam sido derrubadas? Quais as garantias de segurança?
O melhor a fazer era deixar de ser presente torcendo para que o futuro transformasse o hoje em passado.
Mas mesmo assim, só de longe, de muito longe Pedro acompanhava a moça se fazer mulher. Muitas vezes oculto atrás de pilastras olhava a mulher-desejo-amor se compondo em formas cada vez mais exuberantes.
O amigo ficou sem nada entender e depois de desculpas tantas preferiu respeitar o afastamento.
Foi de longe que Pedro viu os pequenos namoros e soube do namoro-noivado. Temia quando viesse a saber do noivado-casamento. E o golpe final veio muito mais rápido do que supunha ou teimava em não supor.
O convite veio, talvez mais por obrigação social do que pela amizade já perdida no tempo. Antes não tivesse vindo. Um pequeno cartão branco dentro de um envelope, tinha a força do mais forte veneno. Não o veneno que corrói o corpo, mas aquele que corrói a alma em suas profundezas. Só restava aceitar e deixar na eterna lembrança um beijo que nunca foi conversado ou comentado. Um beijo segredo que para ela parecia nunca ter acontecido, mas que queimou os lábios de Pedro em todos os dias de sua vida.
A campainha da porta fez com que ele saísse do torpor sonolento daquela tarde de domingo. Pensou em não atender, mas o som se fez novamente e desta vez por um tempo um pouco maior.
Levantando-se da cama passou as mãos pelos cabelos em desalinho e abriu a porta. Foi como abrir a porta do horizonte deixando que o sol nascesse, não aos poucos, mas ao todo. Ali, na sua frente, mais linda do que em seus mais maravilhosos sonhos, estava ela: a mulher-desejo-amor.
Palavras não existiam em sua mente e forças pareciam sumir de seus músculos. Talvez por já ter previsto tal reação da parte dele, ela não esperou convite e entrou roçando seu corpo no de Pedro.
Quando ele fechou a porta e se aproximou, ela o abraçou buscando seus lábios no mais curto longo beijo que macho e fêmea já trocaram.
Sem dizer mais nada, ela saiu, ou esvaeceu como se nunca tivesse ali estado.
Antes de fechar a porta Pedro ficou olhando desaparecer na esquina não a menina, nem a menina-moça ou a menina-moça-mulher-desejo, o que Pedro viu, foi o amor dobrar a esquina. E então compreendeu que o amor não respeita travessuras do tempo e nem cronologias biológicas; o amor é e por si só se basta. Mas agora já era tarde demais. Ou não?

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