quinta-feira, 21 de julho de 2011

A razão emocional



Certo dia, encontrava-se Dona Razão em meio aos seus cálculos mais intrincados, quando ouviu batidas tímidas em sua porta. Pensou e não viu motivos para parar o seu trabalho e atender ao primeiro toque. Fosse quem fosse à porta, se tivesse realmente necessidade de vê-la, bateria novamente.
Não demorou muito para que as batidas se repetissem desta vez um pouco mais fortes.  Dona Razão ponderou que agora sim, tinha um motivo para atender. Levantou-se de sua cadeira exatamente no tempo previsto; 3 segundos e 67 centésimos, e empreendeu os 17 passos que levavam até à porta. Movimentou o braço direito num ângulo de exatos 90 graus. Utilizando não mais do que os ergs de força necessários, torceu a maçaneta ao ponto exato em que a lingueta da fechadura se recolhia na medida exata.
Ao abrir a porta, apenas o suficiente para poder visualizar quem batia, viu um ser confuso que, com olhos ansiosos esperava que esta se abrisse. Dona Razão perguntou:
_ O que queres?
A criatura disse:
_ Eu preciso conversar com Dona Razão. É a senhora?
Dona Razão pensou por alguns segundos se seria razoável identificar-se e acabou acreditando que sim.
_ Sim, meu nome é Razão. E você quem é?
A visitante, demonstrando estar absolutamente fora do seu controle respondeu:
_ Meu nome é Emoção. Eu tenho andado um tanto confusa, aliás, mais confusa do que normalmente sou, e me disseram que viesse procurá-la. Disseram-me que a senhora transita pela lógica perfeita e como eu sou normalmente ilógica, preciso de algumas lições. A senhora poderia me atender?
Dona Razão olhou com certo ar de piedade aquela criatura desorientada e terminou de abrir a porta, dando passagem à Emoção que, muito insegura, entrou na sala.
Apontou uma cadeira para que sua visitante se sentasse e acomodou-se em outra próxima.
Emoção torcia os dedos das mãos e a impressão que passava era que iria cair num choro convulsivo a qualquer momento.
A detentora da racionalidade ficou olhando aquela figura digna de dó, em sua lógica opinião, esperando que ela começasse a falar.
Passaram-se alguns segundos até que Emoção compreendesse que sua interlocutora esperava que ela iniciasse a conversa. Respirou fundo e disse:
_ Dona Razão, ultimamente eu ando tendo umas idéias muito confusas e pensando em mudar toda a minha vida. Acontece que para fazer isso eu teria que também alterar a vida de muita gente. Essa idéia está tomando conta do meu coração e eu não sei o que fazer!
Dona Razão achou graça que alguém pudesse sentir-se desse modo e disparou:
_ Ora, Dona Emoção! É preciso que a senhora entenda que o mundo, a vida, o universo em si é uma coisa muito lógica. Tudo pode ser comprovado matematicamente, estatisticamente, é só uma questão de cálculos para se chegar à conclusão desejada. Faça os cálculos, minha amiga! Algebricamente some os positivos e os negativos para obter o resultado. E em posse desse resultado, siga fielmente o que ele indicar.
A Emoção ouviu tudo aquilo, pensou por alguns segundos e disse:
_ Não me parece tão fácil assim! Eu não consigo ver as coisas com esta frieza matemática. Desculpe se a estou ofendendo! Mas eu acho que a vida é algo maior do que resultado de uma conta.
Dona Razão olhou pasmada para sua visitante. Que absurdo alguém poder supor existir algo mais do que os eternos números na composição do universo!
_ Minha senhora, já vi que nós não vamos nos entender. Falamos idiomas diferentes e nada do que eu disser poderá ajudá-la.
A Emoção não escondeu certo ar de frustração e levantou-se de imediato, dizendo:
_ Perdoe-me por tomar o seu precioso tempo, Dona Razão, mas eu acreditava que juntas pudéssemos encontrar as respostas que procuro. Agora vejo que terei que encontrar o caminho sozinha. Desculpe-me mais uma vez, eu já vou embora.
Dona Razão acompanhou a Emoção à saída e assim que ela se foi, fechou a porta, até com certa rispidez. Enquanto empreendia os exatos 17 passos para voltar ao seu trabalho Dona Razão vinha pensando:
_ Ora onde já se viu! Como pode alguém imaginar que exista alguma resposta além dos números? Que absurdo!
Dona Razão sentou-se em sua eterna cadeira e voltou às somas, calculando mentalmente:
_ Vejamos. Dois e dois são quatro. Quatro? Mas porque não podem ser cinco?!
E a partir desse dia Dona Razão nunca mais foi a mesma.

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