segunda-feira, 30 de maio de 2011

Personagens


Por várias vezes, eu já me perguntei por que escrevo. De todas as respostas, acho que a mais próxima da verdade é porque não gosto da realidade. Na ordem ou desordem das palavras eu crio um mundo e, dentro dele, as personagens que fazem e dizem o que eu quero e se deixo de querer, elas voltam atrás, ou se contradizem, sem nenhum grande trauma. Quando escrevo as mulheres são cópias fiéis da minha imaginação. Ficam nuas e subindo pelas paredes quando eu quero. Os homens são aquilo que eu gostaria de ser, mas por mais que me esforce, não consigo nem me aproximar daquele ideal. Por isso escrevo e crio a minha realidade.
Agora por exemplo, vou começar um conto. Não tenho nenhuma idéia pré-definida, apenas a vontade de escrevê-lo. Então, estou aqui sentado frente à tela do meu computador e digitando palavras que, ao longo do percurso, irão tomar os rumos que eu decidir. Para ser sincero, isso me dá até certo ar de divindade e, por mais que eu queira negar, faz bem ao meu ego.
Agora vou criar uma personagem feminina. Como eu a quero? Vejamos: 1.75m, 62 quilos, morena de cabelos compridos, olhos verdes, boca carnuda e nariz perfeito, seios fartos, sem silicone, portanto, não tão firmes, mas voluptuosos, pernas bem torneadas encimadas por uma bunda provocante. O nome dela pode ser Valéria. Por que Valéria? Porque foi o primeiro nome que me veio à cabeça ao imaginar uma mulher assim! Ah! Esqueci-me de dizer que ela tem entre 25 e 30 anos.
Agora, a personagem masculina. 1,90m, 80 quilos, corpo de atleta, barriga de tanquinho, moreno, olhos azuis, bonito de rosto, cabelos lisos bem cortados, barba por fazer, ou seja, do tipo que atrai a maioria das mulheres. Idade? 35 anos. Vou chamá-lo de Rodrigo.
Como pretendo narrar uma história em torno de um triângulo amoroso, preciso criar a outra personagem masculina. 1.69m, 70 quilos, olhos castanhos, já demonstrando uma acentuada calvície, rosto comum, um forte ar de timidez, ou seja, um tipo pouco atraente. Está na faixa dos 40 anos quase chegando aos 50 e seu nome é José.
_Espera aí! Você não acha que isso é muita sacanagem?
O que é isso? Quem diz espera aí sou eu! Eu não escrevi essa frase!
_Não, não escreveu. Sou eu que estou falando. Eu, o José.
Devo estar sonhando ou ficando louco! Você não pode se manifestar dessa forma. Eu sou o seu criador. Eu digo o que você deve ou não fazer, o que pode ou não falar!
_Mas dessa vez, não! Toda vez que você escreve faz com as suas personagens tudo que lhe dá na telha. Chega. Eu não vou aceitar isso que você está fazendo comigo!
Acho que estou precisando de um psiquiatra! Isso não pode estar acontecendo!
_Está acontecendo sim, e devia já ter acontecido antes! Quem você pensa que é fazendo com as pessoas o que bem entende?
Não são pessoas, são personagens!
_E personagens não são pessoas? Não sentem, não choram, não riem, não amam, não sofrem? Claro que sim! E têm que passar por isso segundo a sua vontade. Elas não podem escolher. Você determina o destino delas e pronto. Mas comigo não!
Bem, vou aceitar, por enquanto, essa situação, então me diga o que você quer.
_Pra começar, você vai escrever sobre um triângulo amoroso e faz o meu rival um senhor galã e de mim uma cara qualquer. Acha isso justo?
Mas você não sabe o que pretendo escrever sobre os três! Não acha que está reclamando antes da hora?
_Não, não acho. De cara já estou em desvantagem. Você notou como você criou a Valéria? Uma mulher linda, sensual, que chama a atenção de qualquer homem. Depois faz esse tal de Rodrigo um tremendo gato para disputar comigo o amor de uma mulher dessas? É sacanagem, cara!
Calma José. Você não sabe, aliás, nem eu ainda sei, qual será o desfecho dessa história.
_Calma, uma ova! Eu te conheço escritor! Você é do tipo que não aceita fazer um desfecho em que o leitor não acredite. Você acha que se um cara como eu ficar com a Valéria, ao invés do Rodrigo, o leitor vai acreditar?
Depende.
_Depende de quê? Você vai fazer de mim um homem rico e por isso Valéria vai me preferir? Tudo bem, o leitor pode até aceitar, mas quem disse pra você que eu aceitaria uma condição dessas? Uma bela mulher ficar comigo só por causa do meu dinheiro? É muito humilhante!
Eu não pensei nisso, para ser honesto ainda não pensei em nada! Vamos fazer um acordo?
_Que tipo de acordo?
Eu vou escrevendo a história e, se em algum momento, você achar que está sendo prejudicado, me chama de lado e a gente conversa. Está bom assim?
_Mas se eu não concordar, você vai mudar o rumo da história?
Se você me convencer com os seus argumentos eu mudo.
_Combinado! Então segue em frente. Quero só ver.
Ufa! Agora posso deixar minha imaginação fluir e escrever meu conto, afinal, tudo o que eu queria era simplesmente escrever mais um conto.
Bem, vamos em frente.
Rodrigo estacionou seu carro em frente à bomboniere. Mostrando jovialidade, já que era um conversível, com um simples impulso saiu sem abrir a porta. O rapaz levava um belo sorriso nos lábios ao entrar na loja. Era aniversário da mãe e ela adorava chocolates, com certeza iria adorar o presente.
Entrou e foi direto ao grande balcão de vidro onde uma funcionária, de costas, colocava alguns bombons em uma das prateleiras. Rodrigo não pode deixar de notar os longos e bem cuidados cabelos negros.
_Por favor! – disse.
Quando a moça se virou, Rodrigo não conseguiu esconder seu encantamento diante daqueles olhos verdes que pareciam duas esmeraldas e da boca vermelha que já ensaiava um sorriso.
_Pois não! – disse a moça percebendo o efeito que havia causado no belo rapaz.
_Eu preciso dar um presente e gostaria que me ajudasse a escolher alguns bombons. Pode ser? – Rodrigo disse isso sem conseguir tirar seus olhos azuis dos olhos da moça.
Olhou o crachá que ela tinha afixado na blusa branca e viu que o nome era Valéria. Porém, além do crachá percebeu que a blusa se esforçava para conter seios que prometiam delícias.
Valéria começou a dar informações sobre os diferentes confeitos, coisa que Rodrigo não prestava muita atenção e, enquanto ela se movia ao longo do balcão para apresentar os produtos, o rapaz não tirava os olhos da bela mulher.
Valéria, por sua vez, também havia ficado impressionada com beleza do rapaz e suas faces começaram a ruborizar.
José, o gerente, acompanha tudo a certa distância.
_Pronto, já começou.
O que foi?
_Vem cá! Eu sou o gerente da moça?
Sim, o que tem isso?
_Gerente normalmente é um cara que pega no pé, velho! Pra ser honesto, é difícil um que não seja um chato! Você já está me prejudicando. Estou em desvantagem nos atributos físicos, vê se dá uma maneirada!
Está bem. Você não é o gerente. É outro cliente que entra na loja, ok?
_Espera aí! Apenas entro na loja? Com que carro eu chego? Se você escrever que é um carrinho qualquer, não será justo!
Está bom. Eu concordo. Fica aí quietinho que eu vou mudar um pouco as coisas.
Enquanto Rodrigo e Valéria escolhiam os bombons para compor a caixa, José estacionava sua BMW logo atrás do conversível de Rodrigo. Ao olhar de relance para dentro da bomboniere, viu a moça e ficou maravilhado. Apesar da sua taxa de glicemia não estar muito sob controle, resolveu entrar e comprar alguns bombons...
_Bem, diabetes eu aceito.
... aproximou-se e percebeu que corria um clima entre o belo rapaz e a linda mulher, mas não estava disposto a sair sem tentar.
_Por favor, senhorita! Estou com um pouco de pressa, poderia me atender, se esse jovem permitir?
Rodrigo, a princípio quis recusar, mas, em seguida, pensou que quanto mais tempo ficasse dentro da loja, mais tempo permaneceria perto daquela que lhe despertara tanto interesse.
Valéria olhou para o jovem, como que questionando, e ele concordou com um aceno de cabeça.
_Muito obrigado, meu jovem, muita gentileza de sua parte. – agradeceu José, e olhando profundamente nos olhos da moça perguntou:
_Se a senhorita fosse receber uma caixa de bombons de presente, quais escolheria?
Valéria titubeou alguns segundos, mas começou a falar dos bombons que mais gostava e por que.
Rodrigo acompanhava tudo embevecido, cada movimento de Valéria parecia fazer parte de um bailado, e de um bailado sensual. Debruçou-se no balcão, apoiou o queixo em uma das mãos e ficou admirando-a, o que Valéria percebeu sem conter um leve sorriso.
_Ô escritor! Desse jeito vai ficar ruim pra mim! Você está jogando toda a atenção da Valéria para esse tal de Rodrigo!
Poxa, espera um pouco! Você não sabe qual é minha intenção!
_ Está bem! Mas olha lá, não vai me ferrar, heim?
Assim que Valéria compôs a caixa, José pediu que embalasse com o papel e laço para presente que ela mais gostava.
A moça terminou de fazer o pacote colocando-o sobre o balcão. José perguntou o preço, abriu a carteira e pegou um da mais de uma dezena de cartões, entregando a moça.
Valéria fez a cobrança e devolveu o cartão com o tíquete.
Antes de pegar o cartão, José pegou na mão da moça, beijou-a delicadamente, saindo em seguida.
Valéria percebeu que o pacote havia ficado encima do balcão e chamou:
_Meu senhor! O senhor se esqueceu do presente!
José parou, virou-se devagar e com um leve sorriso, respondeu:
_Não, minha linda! Não esqueci. Ele é seu. Um presente para a mulher mais linda que meus olhos já viram. Boa tarde!
_Gostei! Gostei, cara! Sensacional! Eu sou demais!
Então agora sossega, José.
Enquanto José saia pela porta, Valéria ficou sem saber o que dizer. Rodrigo também ficou sem ação, mas sendo obrigado a concordar que o cara havia sido genial.
Passados alguns segundos, Valéria voltou sua atenção para continuar atendendo Rodrigo, mas seus olhos não deixavam de acompanhar José que se dirigia a sua BMW.
Antes de entrar no carro, José olhou para dentro da loja e jogou um beijo para a moça que lhe devolveu num maravilhoso sorriso.
Rodrigo percebeu que estava em desvantagem e se pretendia ter alguma chance tinha que pensar em algo rápido.
_Legal! Legal! O galã ficou sem ação!
Rodrigo comentou com Valéria:
_Que gesto bonito desse tiozinho! Muito simpático mesmo!
_Tiozinho é p...!
Olha a boca José! Eu não quero que esse conto seja proibido para menores!
_Essa de tiozinho doeu!
Fica na sua, ok?
Valéria, ainda extasiada pelo gesto de José, comentou com Rodrigo.
_Eu nunca tinha visto esse senhor! Fiquei sem ação. Por que será que ele fez isso?
Rodrigo viu aí uma oportunidade e disse.
_Talvez porque você lembre uma filha dele, ou uma sobrinha, alguma coisa assim!
_Ô escritor! Não sei se dou uma bifa nesse tal de Rodrigo ou em você! Isso é golpe baixo!
José, eu já pedi para você parar. Enchi sua bola, agora deixa a história correr.
_Ok! Mas esse Rodrigo é um sacana! E a culpa é sua!
Ao ouvir a opinião de Rodrigo, Valéria ainda acompanhando José que manobrava o carro para ir embora, respondeu:
_Pode ser! Mas, sinceramente, foi o gesto mais bonito que eu recebi de um homem. Realmente me comoveu!
Enciumado, Rodrigo disse.
_Mas ele não é muito velho pra você?
Depois de ver que José já havia saído com o carro, Valéria respondeu:
_Eu não acredito nessa coisa de diferença de idade!
Rodrigo sentiu que havia perdido a parada
_Yes! Mexe com o coroa aqui, mexe!
Enquanto Valéria embrulhava a caixa que o rapaz iria levar de presente para a mãe, Rodrigo perguntou
_Então, por que não procura saber que é ele?
Valéria terminou de fazer o pacote, colocou encima do balcão e disse.
_Olha, vou dizer uma coisa pra você. Se eu não fosse lésbica, esse seria um homem com quem valeria a pena ter um relacionamento.
Rodrigo pagou, pegou seu pacote e saiu rapidinho.
_ Escritor! Você é um tremendo sacana! Poxa, isso não se faz, nem comigo e nem com o Rodrigo!
Eu falei, José, que eu não tinha a menor idéia dos rumos que a história iria tomar. Mas você ficou me azucrinando tanto, que decidi dar uma lição em você e nesse tal de Rodrigo.
_Eu? – perguntou Rodrigo – Eu não disse nada!
Não disse nada porque achou que devido à sua juventude e bela estampa, iria se dar bem.
_É isso mesmo – concordou José – Quer saber escritor? Gostei do final. Mas cá pra nós, uma mulher como aquela não gostar de homem é uma pena!
Pois é José, a magia de escrever é essa: tudo é possível. Até vocês falarem comigo!

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